Graveyard ficou por mais cinco — e por inteiro no Hangar 110

Graveyard ficou por mais cinco — e por inteiro no Hangar 110

(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Noite reuniu Space Grease, Bike e Graveyard em uma celebração intensa do rock psicodélico e do espírito “udigrúdi”

O Hangar 110 é um grande símbolo do underground paulistano. Não tem ninguém que goste de rock e não conheça essa casa, que existe desde 1998, foi fechada em 2017 e reabriu em 2020.
Ontem, dia nove de maio, estive pela terceira ou quarta vez lá — se não me engano — para assistir a três bandas com a famosa pegada de som sujo, psicodelia, músicos cabeludos e performances que não se preocupam em soar ensaiadas ou “retinhas”. Tudo verdadeiramente “udigrúdi”, já entrando no clima setentista do texto e das bandas que tocaram. Sentido na hora, sabe? Um improviso que mescla a vibe interna dos músicos com o retorno do público. Isso rolou com todos que se apresentaram.

Às 19h30 começou a primeira abertura: Space Grease. Uma banda nacional de rock setentista e atmosfera vintage formada por uma mulher e três homens. Ressalto: uma mulher que parecia duas. A primeira era uma grande loba. Do centro do palco, ela se deixava levar por inteiro pela música, com seu estilo meio hippie 70’s. Dançava descalça, usava chocalhos, cantava com uma voz que transcendia o pequeno Hangar. E aí, no momento em que se dirigia ao público, sua meiguice tomava conta. Foi bem bonito ver a transição entre conversar com as pessoas e imediatamente voltar a crescer quando a música recomeçava. Me lembrou também a Agnetha, do Abba — principalmente pelo corte de cabelo.

Gostei muito e, embora ainda não tenha muita propriedade para falar da coisa técnica da música, o casamento entre a voz de Jú Ramirez e o baixo de Tonhão foi, para mim, o grande lance. Ademais, a sonoridade como um todo era pesada e gostosa de ouvir, algo como um hard rock misturado com rock psicodélico. Combinava muito com minha cervejinha amarga. Durante esse show, me senti nas páginas de Daisy Jones and the Six (ou na série, embora não a tenha assistido).

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

A pista, apesar de relativamente vazia, vibrou com o grupo e foi impossível não se contaminar com o clima. Comecei a balançar a cabeça instintivamente, olhei para os lados e as pessoas estavam iguais a mim, vidradas na loba e em seus parceiros de banda cabeludos — Franco Ceravolo (guitarra/vocal), Tonhão (baixo) e Henrique Bitencourt (bateria).

Space Grease também tocou uma música nova no fim do show, intitulada “Lose Control”, que foi bem recebida (por mim também).

A banda Bike, também brasileira, subiu ao palco por volta das 20h30 como segunda abertura. A pista já estava mais cheia do que antes, mas percebi que o engajamento com a Space Grease — ainda que houvesse menos gente — foi maior.

Formado por Julito Cavalcante e Diego Xavier (voz e guitarra), Daniel Fumega (bateria) e Gil Mosolino (baixo), o grupo toca um rock bem psicodélico que mistura tropicália com repetições de ritmo hipnóticas — depois descobri que isso se chama krautrock, uma influência alemã.

Senti bastante simbiose entre os integrantes, que trouxeram um som muito sincronizado. Pesado e colorido, com texturas, sabe? Como se eu estivesse viajando na terceira cerveja ou na segunda taça de vinho da vida — mas, no caso, estava sóbria.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Devo confessar que gostei mais do instrumental do que da voz e da letra em si, que não me pegaram. Mas era bem legal olhar para o palco e ver o Gil em transe, completamente no mundinho dele, como se estivesse experimentando a mesma psicodelia que tentei descrever, só que mais intensa. Viajou com a música, como se estivesse vendo cores saindo de seu baixo e unicórnios subindo em arco-íris, e Gil se jogando numa cama de gelatina repetidas vezes. Não consigo ser mais ilustrativa do que isso. Tudo enquanto os dois guitarristas o cercavam numa “meditação” mais pé no chão e o baterista quebrava tudo ao lado, concentradíssimo.

Como comentei anteriormente, a pista estava mais morna, e cheguei a ouvir um homem reclamando que uma das músicas finais não acabava e parecia que ele estava ali havia três horas. Ri com respeito. É um lance meio meditativo e flutuante mesmo, ainda que com instrumentos mais pesados, sujos e bem presentes. Aquele caos de quando você vai a um bar com dois ambientes, cada qual com um tipo de música, mas tudo no mesmo show.

Em contrapartida, tinha um pessoal gritando e batendo cabeça. Eu estava entre ouvir o instrumental e desejar desesperadamente um cachorro-quente que tinha visto lá fora. Essa vontade me perseguiu pelo resto da noite.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Pouco antes do show principal, enquanto conversava sobre música e retrospectivas fracassadas no Spotify — inevitáveis quando se resenha música ou se escrevem fanfics com temas musicais — com meu amigo e editor Alexandre Aimbiré, olhei para trás e o Hangar já estava bem cheio.

O que mais gosto nessa casa de shows é que, apesar de pequena, durante os eventos é como se o mundo inteiro coubesse ali. Aquele papo de “colocar São Paulo dentro de Santos”. É incrível como um cubículo consegue ser tão expansivo quando a música toma conta de tudo e as pessoas se jogam.

Talvez essa seja uma das razões da popularidade do Hangar 110: pequeno, mas com o coração do tamanho da Rússia, que acolhe bandas independentes e atrai pessoas apaixonadas por acolher e curtir música de um jeito imersivo. Gente que está ali para tirar a camiseta, interagir de perto com os músicos, fotografar com luz estourada, gritar e engolir fumaça do palco.

Graveyard trouxe essa atmosfera para finalizar a noite. Voltei para as páginas de Daisy Jones ao ver aqueles homens cabeludíssimos de estética setentista, ostentando camisas e camisetas, colete, jeans, bigodes e cavanhaques. Uns caras bonitos que, vejam bem, não foi só opinião minha.

A banda sueca é formada por Joakim Nilsson (vocal/guitarra), Jonatan Ramm (guitarra), Truls Mörck (baixo) e Oskar Bergenheim (bateria). Seu estilo é o típico rock dos anos 70, uma mistura de hard rock com um pouco de blues e uma vibe psicodélica. Estão em turnê pela América Latina desde trinta de abril, começando na Cidade do México e finalizando ontem, dez de maio, em Belo Horizonte.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Já chegaram quebrando tudo com “Please Don’t”, arregaçando nas guitarras rasgadas, bateria no talo e um baixo que fez meus ouvidos se deliciarem. Como se não bastasse isso, a voz do Joakim é tão potente que fiquei uns bons segundos apreciando sem expressar nenhum pensamento. E olha que entendo de cabeça barulhenta. Nesse início, minha atenção ficou presa entre essa voz e o bigode de respeito do Jonatan.

Aquele pensamento sobre os microcosmos que se formam quando vou a um show que não conheço também aconteceu aqui. O público estava insano, aproveitando muito. Alguns vestindo camiseta da banda, outros despindo as suas, outros dançando embalados no som; e tinham também aqueles que batiam cabeça e cabelo, entoavam as letras junto à banda e faziam sinal de rock’n’roll. Teve até gente subindo no ombro do amigo.

Fiquei me perguntando em que momento se organizaria um mosh, porque soava inevitável. E a resposta veio algumas músicas depois, quando um cara grandão passou empurrando eu e uma galera junto, ansioso para chegar lá na frente com uns amigos. E a pista da casa novamente pareceu se expandir enquanto o mosh acontecia e, ao redor, até as pessoas pareciam multiplicadas.

Os caras foram muito carismáticos com a plateia e interagiram com tudo, principalmente o Truls. Primeiro, agradeceram em português quando foram ovacionados; depois, os fãs puxaram o clássico “olê olê olá” com o nome da banda, e Truls acompanhou o coro. Em dado momento, puxaram palmas e novamente o baixista fez o mesmo. O divo também tentou fazer um assobio aleatório, mostrando que era o dono do carisma.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

A pista estava quente e eles sentiram isso. Sentiram tanto que deram tudo de si na apresentação, com uma energia que não tinha fim, cabelos suados e pedrada atrás de pedrada, que o povo deu conta de aproveitar bem. Um homem de barbas brancas do meu lado ficava gritando “sueco delícia” a cada vinte minutos, e o moço que tirou a camiseta também estava embasbacado, sorrindo e surtando. Apesar de receptivos, os suecos sabem dizer não e negaram um pedido da música “Stay for a Song” na cara do fã. Infelizmente, foi engraçado.

Percebi tudo isso enquanto assistia àquele palco pequeno se esticar e a Graveyard mandava hits como “Hisingen Blues”, “Uncomfortably Numb”, “Goliath”, “Ain’t Fit to Live Here” e “Breathe In Breathe Out”.

Após a clássica despedida falsa, eles voltaram com fôlego para mais cinco músicas. A pista já estava fritando, entoando os sucessos “Twice” e “The Siren” — a saideira — com muita energia.

Foi bonito de ver. A Graveyard é um nome grande na cena underground, e entendi o porquê. Não tem como não se contagiar com a presença de palco, os fãs sustentando a psicodelia, a música impecável e aquele carisma que nós, brasileiros, adoramos.

Graveyard pode até não ter acatado “Stay for a Song”, mas fez melhor: ficou por mais cinco. Por inteiro.

Tati Barreto

Tati Barreto

Nascida e crescida em São Paulo e pertencente à área de humanas desde que se entende por gente. Estudante de Letras, atriz quando possível, escritora de fanfics e uma grande entusiasta de música, artes, comédias românticas, livros de suspense e animes, entre outras paixões. “A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia.” (Ludwig van Beethoven)