Exclusive Os Cabides – Feliz e Triste ao Mesmo Tempo EP (2026)

Exclusive Os Cabides – Feliz e Triste ao Mesmo Tempo EP (2026)
(Reprodução)

“Ser natural é uma pose muito difícil de sustentar.”

Meu primeiro contato com a Exclusive Os Cabides foi há mais ou menos um ano, assistindo ao programa Cultura Livre. Lembro perfeitamente do vocalista Antônio dos Anjos explicando a história por trás do nome da banda. Eu ri muito. Muito mesmo.

Antes de voltar a escrever para o Under Floripa no ano passado, eu — que moro em São Paulo há quase nove anos — estava completamente afastado de qualquer coisa manezinha. Aí, de repente, vejo na televisão do estado onde moro uma banda da minha cidade natal (sim, alguns chamam de “Bagual”, mas eu nasci na Carmela Dutra), com o vocalista e guitarrista João Paulo Pretto usando uma camisa do Figueirense Futebol Clube e, mais importante, ouvindo todos eles falarem com aquele sotaque açoriano tão característico.

Passei o programa inteiro rindo da espontaneidade dos integrantes, da naturalidade com que todos se portavam. E, mais do que isso, me apaixonei pelas músicas. A Exclusive e, principalmente, o álbum Coisas Estranhas, de certa forma, passaram a fazer parte do meu reencontro com a minha cidade natal. Uma banda que canta com um sotaque familiar aos meus ouvidos, mas que, ao mesmo tempo, meus amigos paulistanos também conhecem.

Hoje saiu Feliz e Triste ao Mesmo Tempo, um EP com sete faixas e um sucessor mais do que digno de Coisas Estranhas.

Liricamente, o EP segue a mesma linha do restante da discografia da banda — aquilo que forma o que podemos chamar de DNA próprio da Exclusive. São as pequenas peculiaridades, esquisitices e estranhezas do cotidiano. Coisas que geralmente tentamos ignorar (ou não), mas que continuam ali, para o bem ou para o mal. Músicas sobre rinite alérgica, tédio, tropeços, uma bicicleta amarela comestível (?), atos falhos e lapsos aos montes. Tudo com um humor natural, nonsense e deliciosamente despretensioso. Nada é forçado. As letras soam naturais e encaixam nas melodias com uma facilidade tremenda.

Sonoramente, o EP é uma clara evolução. Os riffs estão mais cristalinos e cortantes, as vozes mais definidas, o baixo pulsa profundamente e a bateria vem sempre bem marcada. Particularmente, os timbres estão incríveis. Na última faixa, a instrumental “Notlin vs. Smellectron”, há até um chiado evidente de clipping — aquela distorção causada pelo excesso de saturação sonora — que, além de dar um charme analógico à gravação, ainda soa legal pra caralho no meio de tanto barulho.

Os licks de guitarra no outro de “Gato Chinês” também merecem elogios, assim como as linhas de baixo da baixista Maitê Fontalva na quixotesca “Castelos de Areia”. É tudo primoroso. Eu poderia passar parágrafos inteiros citando os inúmeros pequenos momentos brilhantes espalhados por essas sete faixas.

Feliz e Triste ao Mesmo Tempo mostra um crescimento e uma evolução clara para uma banda que já tem uma identidade bem construída e definida. Mais do que isso, mostra uma banda confortável consigo mesma. A Exclusive Os Cabides soa como ninguém além da própria Exclusive — e é justamente por isso que é tão especial. Tão especial quanto o meu reencontro com o sotaque que tornou “inclusive” em “exclusive” e me lembrou que eu também sou manezinho — mesmo depois de quase dez anos distante da ilha.

9.7

Feliz e Triste ao Mesmo Tempo – Exclusive Os Cabides

Gravadora: Tratore

Entre riffs estalados, clipping e rinite alérgica, a Exclusive mais uma vez transformou as pequenas esquisitices do cotidiano em um dos melhores lançamentos do ano.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.