Smashing Pumpkins – Zodeon at Crystal Hall (2026)

Smashing Pumpkins – Zodeon at Crystal Hall (2026)

(Reprodução)

Será que a gente deu moral demais pro Billy Corgan?

Vamos lá. Sim, os Smashing Pumpkins são uma das bandas mais importantes do chamado rock alternativo dos anos 1990 e, quem sabe, de todos os tempos. Os três primeiros discos da banda — Gish, Siamese Dream e Mellon Collie and the Infinite Sadness — são clássicos absolutos. Francamente? “1979”, “Ava Adore” e “Mayonaise” estão entre as minhas músicas favoritas da vida.

Mas vamos simplificar a conversa por enquanto e deixar de lado Adore e os dois capítulos de Machina.

Existe uma tendência curiosa quando se fala de William Patrick Corgan. Talvez pelo tamanho de sua obra nos anos dourados da banda, talvez pela personalidade excêntrica, talvez por uma combinação dos dois fatores, muita gente parece disposta a passar um pano imenso para tudo o que ele faz. Adore e Machina entram nessa categoria. São discos medianos, na melhor das hipóteses, com uma ou outra grande canção perdida em meio a ideias pouco desenvolvidas. Ainda assim, continuam recebendo um respaldo crítico desproporcional aos resultados efetivamente entregues.

Toda a produção da banda nas décadas seguintes segue essa mesma linha. Com ou sem Jimmy Chamberlin, com ou sem James Iha, os Smashing Pumpkins jamais voltaram a se aproximar do que fizeram nos anos 1990. Desde então, a discografia do grupo se tornou uma longa sucessão de discos irregulares, invariavelmente comparados aos clássicos e invariavelmente derrotados por eles.

Enfim, chegamos a Zodeon at Crystal Hall. Um álbum “secreto”, lançado inicialmente apenas em vinil e disponibilizado há pouco tempo nas plataformas de streaming. É um álbum conceitual? Mais ou menos. Faz parte do mythos de Shiny, Zero, Glass ou qualquer outro personagem que apenas os superfãs conseguem acompanhar? Talvez.

Nada disso importa muito. Pelo menos não para mim e muito menos para o ouvinte casual.

Fora a voz de Corgan e a bateria de Jimmy Chamberlin — que continua precisa e impecável, como sempre —, não há aqui praticamente nada que remeta ao som que estamos acostumados a associar aos Smashing Pumpkins. As guitarras monumentais desapareceram, os muros de distorção deram lugar a arranjos mais leves e coloridos, e a banda parece muito mais interessada em revisitar o pop psicodélico dos anos 1960 do que qualquer elemento de sua própria identidade musical. É como se a banda tivesse passado um mês inteiro ouvindo apenas Magical Mystery Tour, The Kinks Are the Village Green Preservation Society e Pet Sounds e decidido que não precisava escutar mais nada antes de entrar em estúdio.

Tem coisas boas? É claro que tem. Mas a maior parte do disco é absolutamente passável. Tudo aqui carrega um ar lúdico, quase infantil em alguns momentos, que simplesmente não combina com a voz de Billy Corgan — especialmente a voz de Billy Corgan aos 59 anos.

E não, o problema não é a idade. Ninguém espera que um senhor beirando os 60 anos continue se esgoelando como fazia em Siamese Dream. O tempo passa para todo mundo. Como cantor de 43 anos, eu sei bem disso. E tá tudo bem.

A questão é que os maneirismos vocais que antes soavam angustiados, vulneráveis ou excêntricos agora frequentemente resvalam no involuntariamente cômico. Em meio a arranjos repletos de teclados, mellotrons e órgãos que parecem ter saído de um desenho animado, os trejeitos característicos de Corgan deixam de soar peculiares e passam a soar simplesmente estranhos. Um exemplo claro disso é “Saffron”. Sua interpretação vocal soa afetada e caricata, especialmente nos momentos iniciais da faixa, antes mesmo de os instrumentos entrarem em cena.

Talvez “Magdalena” seja a única faixa realmente boa do álbum. Ao contrário de quase todo o restante de Zodeon at Crystal Hall, é uma música que parece absorver diferentes influências sem perder de vista a identidade dos Smashing Pumpkins. É apenas aqui, na segunda faixa de um álbum de quase quarenta minutos, em que a banda parece minimamente interessada em dialogar com a própria história. De resto, o álbum é um exercício de liberdade criativa que talvez tenha ido longe demais.

Desde Adore, ouço a mesma defesa: os álbuns dos Smashing Pumpkins ficam melhores a cada audição. Que é preciso ouvi-los várias vezes. Que eles acabam “clicando”.

Mas eu sempre volto à mesma pergunta: se eu preciso me acostumar com um álbum para gostar dele, ele é realmente bom?

4.9

Zodeon at Crystal Hall – Smashing Pumpkins

Gravadora: Martha's Music

A cada dia que passa, eu acredito cada vez mais que Kim Gordon tinha razão.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.