“Infinito Solar. É nosso oitavo disco. O oito a gente deita e vira infinito. E solar? As letras são muito solares, elas estão iluminando as pessoas, elas vão iluminar as pessoas…”
Descubro, de uma maneira um tanto ingrata, que a Irie lançou seu primeiro álbum de inéditas em quinze anos. Nosso ditador-chefe, Luciano Vitor, joga a informação casualmente no chat da redação, como quem comenta um acidente de trânsito visto no caminho. Não satisfeito, ainda pergunta quem vai assumir a tarefa inglória de resenhá-lo.
É claro que sobrou para mim.
Para os leitores residentes na Grande Florianópolis, acredito que a Irie dispense apresentações. Para os outros, é uma banda de reggae. Um daqueles nomes que muitos colocam no Olimpo da Ilha, ao lado do Dazaranha.
Não sou um apreciador do gênero, confesso, especialmente dessa vertente “reggae de litoral”. Essa estética solar de gente branca cantando sobre paz, amor e boas energias enquanto bate palmas para o pôr do sol no contratempo. Ainda assim, seria desonesto da minha parte negar que a Irie sabia o que estava fazendo. A banda construiu uma identidade, conquistou seu espaço, acumulou público e se tornou uma referência incontornável da música catarinense. “Reggae Todo Dia” e tal.
O problema começa quando chegamos a Melhor do que Eu Sou (2009). O reggae perde espaço e dá lugar a um pop asséptico que soa como um Jota Quest tentando reproduzir a grandiosidade radiofônica dos Paralamas do Sucesso — mas sem o talento, a personalidade e a capacidade de reinvenção que fizeram a banda carioca ser o que é. Depois disso, veio um álbum ao vivo cinco anos mais tarde. Dez anos de silêncio e mais um ao vivo, dessa vez acústico. Uma trajetória tão clichê que já perdi as contas de quantas bandas repetiram esse mesmo caminho.
Aí Infinito Solar chegou até mim. E não poderia ter sido de uma maneira mais simbólica: anunciado em uma matéria no Jornal do Almoço que rendeu a epígrafe que abre este texto.
O disco é isso. Guitarra e teclado no contratempo, metais, um baixo gordo carregado de médios e canções sobre amor, praia, lendas da Ilha de Santa Catarina, fé, pôr do sol e tudo aquilo que você espera de um disco de reggae praieiro sulista. Ele é ruim? Não. Mas ele é necessário?
Eu poderia gastar algumas linhas falando sobre o baixo estar um pouco alto demais na mixagem ou sobre o excesso de compressão na bateria, mas qual seria o mérito disso? A produção é competente, as músicas são competentes e o instrumental cumpre exatamente aquilo que se propõe. O problema é justamente esse. Fora o baixo — e um rap à Pato Banton em “Mas Tem Fé” — nada chama atenção. E talvez essa seja a maior crítica possível a um disco: ele é tão inofensivo quanto versos como “A gente não tem religião / Mas tem fé”.
“Mas Tem Fé”, a canção que deu origem a esses versos, é sintomática. A banda a trabalha e retrabalha há mais de uma década. Ela já apareceu no álbum ao vivo de 2014, ganhou um single dez anos depois e ressurge agora em Infinito Solar. Nesse intervalo, ganhou diferentes roupagens. Ora com violino, ora com flanger na voz, ora com backing vocals, ora sem nada disso — mas sempre soando como a mesma música tentando convencer o ouvinte de que mudou.
Talvez seja justamente esse o ponto. A Irie continua ocupando um espaço enorme no imaginário de Florianópolis. Basta ver o tratamento dado ao lançamento de Infinito Solar. Matéria no Jornal do Almoço, vídeo com Chico Martins reafirmando o lugar quase institucional da banda e a sensação de que qualquer novidade ainda merece status de acontecimento cultural. Não porque este seja um disco imprescindível — ele definitivamente não é —, mas porque a Irie deixou de representar apenas uma banda.
Ela representa uma ideia muito específica de Florianópolis.
A cidade do pôr do sol, da praia, das boas energias, do reggae, do violão e da eterna sensação de que tudo continua igual. Uma cidade que talvez já nem exista mais, mas que continua sendo vendida como cartão-postal — e trilha sonora. A Irie, assim como a Dazaranha, tornou-se um dos rostos oficiais dessa narrativa.
Esse é o verdadeiro risco de colocar artistas no Olimpo. Em algum momento, deixamos de perguntar se as músicas ainda são boas. Passamos a celebrar simplesmente o fato de continuarem existindo. Infinito Solar não é um álbum ruim. É um álbum acomodado. Confortável. E uma cidade que continua tratando trabalhos assim como grandes acontecimentos talvez esteja tão acomodada quanto seus próprios monumentos.
Afinal, por quantos anos a Ponte Hercílio Luz ficou fechada mesmo?
Infinito Solar – Irie
Gravadora: Independente
Tirei meio ponto da nota porque eles tiraram o acento circunflexo do nome.
