Um álbum baseado em guitarra e bateria, sem a utilização do contrabaixo para colar tudo no arranjo, não é nenhuma novidade na história da música alternativa. Mas o que se destaca em Ramal, disco lançado em abril de 2026, é o fato de ser autor, Marcelo Cabral, ser justamente um renomado baixista do cenário brasileiro, tendo trabalhado com artistas como Criolo, Elza Soares, Metá Metá e toda a turma do que ficou conhecido como Clube da Encruza: um grupo não-definido de artistas que, na virada dos anos 2000 para 2010, propôs novas sonoridades e estéticas para a música brasileira a partir da capital paulista.
Porém, essa não é a primeira vez que Marcelo expõe suas ideias para além das frequências graves. Já em sua estreia como artista-solo, com o álbum Motor (2018), o artista apresenta seu lado cancioneiro e posiciona-se com voz e violão para os ricos arranjos desse trabalho. Em 2022, o álbum Naunyn mostra ainda outra face de Cabral: voltada à música eletrônica instrumental em um digno disco de pista doida.
A novidade em Ramal talvez esteja na crueza da proposta, inspirada no post-punk calcado em riffs de guitarra e melodias diretas, apresentadas quase sempre nesse formato de duo, onde sua guitarra é muito bem acompanhada pelos ritmos precisos de Biel Basile (O Terno, Maurício Pereira e muito mais).
Também acompanha o Ramal-de-Cabral uma série de letristas que ele selecionou a partir do que as próprias músicas o induziram a selecionar. Assim, o álbum começa com “Quem Vem Me Acudir”, onde Negro Leo traz sua característica lírica anti-messiânica (ou pós-messiânica?), me fazendo lembrar de seus trabalhos primordiais e também sua atuação em projetos radicais como o Baby Hitler e meu reino não é desse mundo.
“Ar”, segunda faixa do álbum, traz letra de Kiko Dinucci, o que me faz associar Ramal com Cortes Curtos, primeiro trabalho solo de Kiko, também influenciado pela sonoridade punk e que trazia Cabral como baixista nas gravações e apresentações do repertório.
Primeiro single a ser apresentado, “O Herói Vai Cair” é uma das melhores faixas do álbum. Com letra de Eduardo Climachauska, o Clima – que também assina a faixa seguinte, “Acalanto Godzilla” -, traz (em ambas as canções) uma temática de esperança-através-do-fim que parece rodear todas as canções dessa primeira parte de Ramal: não o fim do mundo, mas um fim para este mundo.
“Sex Símbolo” tem letra esperta de Sophia Chablau, que também acompanha o álbum fazendo os vocais tanto nesta faixa, como em “Quem Vai Me Acudir”, “O Herói Vai Cair” e “Companheira Estelar”.
“Grito”, com letra de Rômulo Fróes, é uma das faixas mais secas do trabalho: guitarra e bateria seguem um ritmo entrecortado, cru e reto, até desaguarem em uma cadência mais suave, onde também as palavras ganham um pouco mais de ternura do que em seus versos iniciais. Algo parecido também acontece em “Sex Símbolo”, fazendo essa sequência de canções combinar muito bem na audição de Ramal.
Escrita por Alice Coutinho, “Hora Errada” inicia em um punk nervoso para, assim como nas duas faixas anteriores, ter em seu miolo uma parte mais calma, que logo é retomada com ainda mais nervos, me fazendo lembrar a dinâmica típica do rock alternativo dos anos 90.
O clima frenético se acalma na oitava e nona música do álbum. “Companheira Estelar”, com letra de Rodrigo Campos, é um samba contemplativo com um arranjo que, surpreendentemente, funciona muito bem dentro da formação minimalista proposta para Ramal. “Tarde Azul” segue na mesma contemplação, tendo letra e um belíssimo solo de guitarra de Fernando Catatau (Cidadão Instigado).
Uma boa surpresa do álbum é ver o sambista Douglas Germano letrando a faixa-título do álbum, onde descreve estações do metrô paulista com agilidade e inteligência lírica rara mesmo fora de sua zona de conforto, algo que o compositor já havia apresentado muito bem em “Corpus Christi”, também penúltima faixa do álbum Delta Estácio Blues, de Juçara Marçal.
Finalizando o trabalho, depois de tantos letristas, uma faixa instrumental: “Curb” apresenta um violão enroscado introduzindo um groove inacreditável de bateria para logo pechar nas guitarras fuzz de Cabral e em efeitos sonoros agudos interessantíssimos. Depois, a dinâmica se repete alterando timbres, levadas e riffs sempre desconcertantes até o seu fim: seco e ríspido como toda a proposta de Ramal – e também como este texto.
Ramal – Marcelo Cabral
Gravadora: YB Music
Um álbum baseado em guitarra e bateria, sem a utilização do contrabaixo para colar tudo no arranjo, não é nenhuma novidade na história da música alternativa. Mas o que se destaca em Ramal, disco lançado em abril de 2026, é o fato de ser autor, Marcelo Cabral, ser justamente um renomado baixista do cenário brasileiro.
