O Voo Coletivo d’O Bando: 19 Bandas decidiram sacodir a cena independente de Florianópolis

O Voo Coletivo d’O Bando: 19 Bandas decidiram sacodir a cena independente de Florianópolis

(Reprodução)

Depois de uma discussão sobre falta de espaço, 19 bandas decidiram criar uma rede de apoio, profissionalização e circulação para a música autoral da Grande Florianópolis

Desde tempos que precedem a memória, músicos e musicistas desta cidade que chamamos carinhosamente de Floripa compartilham uma mesma frustração: os mesmos nomes circulam pelos mesmos palcos, enquanto dezenas de projetos autorais tentam encontrar espaço entre inferninhos, festivais e editais. O Bando, coletivo que reúne 19 bandas da Grande Florianópolis, nasceu justamente desse incômodo.

Na última terça-feira, 4 de agosto, o Under Floripa sentou para conversar com parte dos integrantes do coletivo na Célula Showcase. O lugar escolhido para o encontro carrega uma ironia — ou talvez uma espécie de continuidade histórica. A Célula foi fundada para abrigar o Clube da Luta, coletivo que marcou uma geração da música independente de Florianópolis e que, anos depois, também se tornou referência nas discussões sobre os limites e os riscos da organização coletiva.

Naquela noite, estavam presentes Lucas, da banda Mang; Mayer, da UmQuarto; Enzo, do Itacoruboys; Davi, da Hey Jhon; Laura, da Epônima; Gabriel e Vitor, da Demorantes. Todos integrantes de bandas que fazem parte d’O Bando. Em comum, além da música, havia uma tentativa de responder a uma pergunta que há muito circula entre artistas da cidade: como transformar uma cena cheia de bandas em uma cena capaz de fazer essas bandas circularem?

A conversa que acabou levando à criação do coletivo ganhou força após um debate provocado por um texto publicado aqui no Under Floripa sobre a cena local. O artigo questiona por que uma cidade com uma produção musical tão diversa continua concentrando visibilidade em poucos nomes e defende que o problema não é o sucesso de bandas como o Dazaranha, mas sim a ausência de políticas, espaços e circuitos capazes de fazer outras bandas crescerem junto.

A partir daí, uma discussão em um grupo de WhatsApp deixou de ser apenas mais uma sequência de reclamações sobre oportunidades e começou a se transformar em uma proposta concreta. Em vez de esperar convites, as próprias bandas decidiram criar uma estrutura de colaboração.

“Ao invés de esperar a gente ser chamado, por que a gente não faz o nosso próprio momento?”, resume Mayer, baixista da UmQuarto.

Então, um novo grupo foi criado. Vieram reuniões semanais, um estatuto, grupos de trabalho, votações e, pouco tempo depois, um coletivo formado por 19 bandas. O objetivo vai muito além de apenas organizar shows.

“Fazer show é a parte mais fácil do coletivo”.

A declaração de Mayer parece contraditória para quem acompanha a dificuldade da música independente em Florianópolis, mas explica bem a proposta d’O Bando. Mais do que dividir palco, as bandas querem compartilhar conhecimento, contatos, estrutura e público.

Da solidão à circulação

Se existe uma palavra que aparece repetidamente nas conversas do coletivo, essa palavra é movimentação. Para Lucas, guitarrista e vocalista da banda Mang, O Bando nasceu de uma sensação comum entre músicos independentes: a de trabalhar isoladamente.

O que tem mais a ver entre as bandas é a necessidade de movimentação. E também de conhecer mais. Quando o coletivo foi formado, eu fui ouvir as bandas que ainda não conhecia. Isso já mudou a minha relação com a cena.

Essa percepção não é apenas de Lucas e foi corroborada por todos os outros. As bandas nem sempre compartilham o mesmo gênero, mas compartilham o mesmo problema: pouca circulação, pouco contato entre si e uma sensação de que cada projeto está tentando sobreviver sozinho.

A vontade de sair um pouco da solidão é uma das coisas que movimenta muita gente aqui”, afirma Lucas.

Ouvir as bandas da própria cidade parece algo básico, mas a circulação da música autoral ainda costuma ficar restrita aos amigos e a quem já acompanha o trabalho desses artistas.

“Eu não consigo citar três músicas da UmQuarto. Então por que eu vou esperar que alguém saiba três músicas da minha banda?”, comenta Enzo, guitarrista da Itacoruboys.

O diagnóstico é duro, mas revela uma crítica interna. Para muitos deles, a cena independente também se enfraquece quando as bandas deixam de acompanhar o trabalho umas das outras.

Mais do que um grupo de shows

O Bando insiste em uma distinção importante: não é uma produtora. As bandas continuam responsáveis por buscar apresentações, negociar cachês e construir suas próprias trajetórias. O coletivo funciona como uma rede e isso significa compartilhar contatos de casas de show, discutir estratégias de lançamento, trocar experiências sobre circulação, fotografia, press kit, fonograma, editais e divulgação.

O objetivo do coletivo é criar condições para que as bandas consigam circular melhor dentro da indústria da música.

Ninguém sabe ainda como viver de música”, comenta Mayer. “Acho que todo mundo aqui tem essa dor. Estar no coletivo é poder olhar para o que o outro está fazendo, aprender e também ensinar.”

A profissionalização aparece como um dos pilares do projeto. Durante a organização do coletivo, eles descobriram que muitas bandas sequer tinham release, material de imprensa ou estrutura básica para apresentar seu trabalho.

“Tem banda que não sabe a importância de fazer um fonograma. Tem banda que não tem press kit. Esse tipo de troca é muito mais interessante do que simplesmente fazer show”, afirma Mayer.

Uma organização incomum para um coletivo

Talvez o aspecto mais surpreendente d’O Bando seja o nível de organização.

O coletivo funciona com reuniões periódicas, pautas abertas, atas compartilhadas, grupos de trabalho e votações. Cada banda tem representação nas decisões, enquanto áreas como design, redes sociais e eventos possuem autonomia para executar suas funções.

A estrutura surgiu justamente para evitar que o projeto dependesse de poucas pessoas. Como Laura, vocalista da Epônima deixa claro: “A ideia é que todo mundo tenha voz, mas que o coletivo também consiga andar”.

Essa preocupação aparece também na forma como eles falam sobre comprometimento. O grupo passou por um processo de filtragem natural até chegar às 19 bandas atuais.

Se uma banda está no coletivo só para fazer show, não serve para o coletivo”, aponta Mayer.

A lógica é de colaboração. Um integrante que ajuda como roadie de outra banda, alguém que compartilha um contato, outro que auxilia na comunicação ou na produção. O objetivo é transformar habilidades individuais em estrutura coletiva.

O fantasma da panelinha

Toda cena independente conhece o risco de que um grupo criado para ampliar uma cena acabe, com o tempo, se tornando apenas mais uma panelinha. Durante a conversa, o Clube da Luta, o coletivo de bandas que movimentou a cena da cidade na primeira década deste século, apareceu repetidas vezes como referência — tanto pela importância que teve na organização da música independente da cidade quanto pelas críticas que recebeu ao longo dos anos.

O Clube da Luta tem um valor social forte. Foi uma escola de como ter um coletivo”, reconhece Mayer. A comparação surgiu naturalmente porque os integrantes d’O Bando sabem que qualquer iniciativa coletiva precisa lidar com a tensão entre organização e abertura.

Por isso, uma das preocupações do grupo foi criar mecanismos para evitar esse fechamento. O estatuto permite que bandas de fora do coletivo participem dos eventos, e a ideia não é restringir o projeto a um único gênero musical. “Se alguém do hip hop quiser entrar, por que não? Se alguém da música eletrônica quiser participar, por que não? A ideia não é fechar por estilo.”

Ainda assim, eles reconhecem que o crescimento do coletivo trará conflitos inevitáveis. “Em algum momento a gente vai ter que recusar alguém, vai ter que tomar decisões difíceis. Isso faz parte.”

O futuro: editais, conteúdo próprio e melhores cachês

No momento, o foco d’O Bando está na consolidação da rede e na realização de eventos próprios. Mas as conversas já apontam para um horizonte mais ambicioso.

Entre as ideias discutidas estão a criação de um canal com live sessions, uma espécie de “Tiny Desk de Florianópolis”, a transformação do coletivo em associação para disputar editais e a construção de uma estrutura capaz de negociar melhores condições para as bandas.

A discussão sobre remuneração aparece com força.

A gente gastou dinheiro para gravar disco, colocar equipamento na estrada, produzir material. Música é trabalho.

É nesse ponto que o discurso d’O Bando deixa de ser apenas uma conversa sobre cena e passa a tocar uma questão mais ampla: as condições de trabalho dos músicos independentes.

Não existe arte por qualidade. Arte é trabalho. O Michelangelo fez um freela na Capela Sistina. A gente precisa levar a sério que música também é trabalho.

O comentário provoca risos durante a conversa, mas sintetiza uma visão compartilhada pelo grupo.

Eles sabem que a maioria das bandas ainda depende de outros empregos para sobreviver. Sabem que cachês baixos, falta de estrutura e pouca circulação continuam sendo a regra. E sabem que um coletivo, sozinho, não resolve os problemas de uma cena inteira.

Mas talvez essa nem seja a principal ambição.

O Bando ainda está no começo. Os shows mensais, a possibilidade de uma associação, a ideia de um canal próprio e a busca por editais ainda pertencem mais ao campo do projeto do que da realização. Os próprios integrantes reconhecem que um coletivo, sozinho, não resolve os problemas de uma cena inteira. Porém, o primeiro gesto importante é foi feito: transformar uma conversa sobre frustração em uma tentativa de organização.

O próximo capítulo dessa história acontece já neste sábado, quando Lupino e UmQuarto sobem ao palco da Rufus para o que o coletivo está chamando de “o primeiro voo d’O Bando”. A escolha do nome não é casual. Se “bando” é o coletivo de aves, a imagem faz sentido para um grupo de bandas que passou anos tentando voar sozinho e agora aposta na possibilidade de ganhar mais altura em formação.

É cedo para saber onde esse voo vai chegar. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o questionamento que circula entre os músicos da cidade deixou de ser apenas por que falta espaço. Ele passou a ser o que acontece quando as bandas decidem construir uma cena juntas.

Serviço:

  • UmQuarto & Lupino

    Florianópolis – SC

  • Data: 15 de agosto, 2026
  • Local: Rufus Bar Cervejas Experimentais
  • Endereço: R. Manoel Isidoro da Silveira, 655 – Lagoa da Conceição, Florianópolis – SC
  • Abertura das Portas: 19h00
  • Censura: 18 Anos
Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.