Em conversa com o Under Floripa, vocalista da Cachorro Grande fala sobre algoritmo, o fim da MTV, nostalgia no rock e a necessidade de seguir criando — mesmo depois de já ter dividido palco com Oasis e Rolling Stones.
Com colaboração de Frederico di Lullo.
Ontem, quarta-feira (15), falei por telefone com Beto Bruno, vocalista da Cachorro Grande, às vésperas do show da banda no Cine Joia, em São Paulo. No papo, ele relembra encontros com ídolos, comenta o papel do algoritmo na música hoje, reflete sobre o lugar do rock no mainstream e ainda solta uma novidade: a banda prepara um disco novo, com lançamento previsto ainda para este ano. Entre passado e futuro, a conversa deixa claro — a Cachorro Grande segue olhando pra frente, com fome de palco e de novidade.
Confira a entrevista completa.
Under Floripa: Vi uma postagem sua no Instagram no ano passado, depois do show do Supergrass, que você teve a oportunidade de conhecer o Gaz Coombes, o vocalista. Eu também o conheci depois de um show solo que ele fez na Holanda, quando eu morava lá, em 2023. Como fã do Supergrass, como foi essa experiência?
Beto Bruno: Na verdade, a gente já se conhecia desde 2012. A gente tocou junto num festival, em 2006, em Atibaia — o Campari Rock — e nós ficamos muito próximos do Charlie, que é o irmão mais novo. Hoje, ele mora a três quarteirões da minha casa, aqui na Vila Mariana, e se casou com a Rayana, que é brasileira. E, quando teve o casamento dele, veio toda a banda pra Presidente Prudente. A gente teve bastante momento de proximidade com eles ali, ficou uma coisa bacana. Então, é claro que nós iríamos no show quando eles passaram por aqui. Sou muito fã, tenho todos os discos. É muito bacana esse tipo de coisa, encontrar os nossos ídolos.
UF: Falando de referências: tanto você, no teu trabalho solo, quanto o trampo da Cachorro Grande, têm umas referências muito claras — do Britpop, principalmente — mas com uma personalidade única. Dá pra ver a influência, mas tem cara de Cachorro Grande. Ouvindo as bandas mais novas, você sente que elas conseguem construir essa identidade também ou acha que estão mais preocupadas em soar como outra pessoa?
Beto Bruno: Puxa vida, que pergunta! Primeiro, obrigado, viu, porque tu falou uma coisa certa: a gente consegue deixar as nossas influências bem à vista, mas tenta botar ali alguma coisa nossa, nossa pegada. As influências estão sempre ali.
Eu não sei o que dizer exatamente sobre as bandas novas porque tenho até vergonha de te falar: eu estou muito por fora do que está acontecendo aí. Mas, do que eu escuto, eu não vejo nenhuma coisa nova. Eu não vejo nenhuma sonoridade que já não tenha sido feita, que eu já não conhecia antes. Então, eu não sei qual é a atitude dessa galera, porque eu consigo ver de onde eles saíram. Não sei te dizer “tal banda é tipo isso”.
Mas, por exemplo, Greta Van Fleet, né? As pessoas reclamaram quando eles apareceram, que era uma cópia do Led Zeppelin. Bicho, eu amo o Led Zeppelin. Cara, pra mim, quanto mais banda tipo Led Zeppelin tiver por aí, melhor! E é esse o som que eles gostam, o som dos anos 70, o hard rock pesado. É o som que eu gosto também. É isso que eles têm que fazer, têm que fazer o que eles gostam.
Tem muita gente que pensa: “Não, a gente tem que fazer um som novo, porque é isso que vai chamar a atenção do público”, e acabam fazendo coisas que não gostam, que não fazem parte das influências deles. Essa necessidade de fazer uma música nova, uma batida nova, um timbre novo… Então eu vejo muito isso também.
UF: A gente gosta de falar que considera o Cachorro Grande como a última banda de rock que fez sucesso no mainstream aqui no Brasil. Vocês tocaram o especial de final de ano na Globo, estavam em vários veículos grandes… e aí, no meio disso tudo, a MTV acabou. Você acha que o fim da MTV dificultou o acesso do rock ao mainstream? O rock virou mais uma música de nicho nesses últimos anos?
Beto Bruno: Com certeza! “A Última Banda de Rock” é o nome que a gente usou pro documentário. E, na verdade, eu fico triste com isso. Queria que aparecessem bandas novas de rock toda hora, todo momento, né? É triste ter que afirmar isso.
Isso não quer dizer também que a banda é melhor do que qualquer outra, sabe? Cada um tem a sua. A gente gosta de incorporar esse lance do rock and roll, carregar essa bandeira… até certo ponto também.
E, sobre a MTV, bicho… eu tava conversando esses dias com uns amigos: cara, essa meninada, essa nova geração de hoje, que não escuta rock, não sabe de onde vieram as bandas, não tem ideia de como era bacana a MTV. É uma pena que essa geração nova não tenha isso, sabe? A MTV era muito importante.
E, quando começaram a falar “pô, o rock no país, no Brasil, tá morrendo”, cara, eu acho que tem muito a ver com o fim da MTV. Porque a MTV, bicho, pegava as novas bandas e botava pras pessoas assistirem e ouvirem. Depois disso é que os veículos maiores, como a Globo, por exemplo, iam atrás. Mas quem despontava as bandas, quem apontava o dedo pras bandas que tinham alguma coisa significativa pra mostrar, era a MTV, cara.
Então ficou aí uma brecha tão grande que, cara, não apareceu nada parecido. Isso faz com que as bandas de rock percam muita visibilidade, mas, por outro lado, fortalece, porque acabam criando e fazendo o seu próprio caminho. É o que a Cachorro Grande vem tentando fazer.
A gente acaba achando o nosso próprio espaço, o nosso próprio público, e faz isso tentando fazer um show melhor que o outro, respeitando o público sempre que a gente tá em cima do palco. A gente tenta fazer melhor do que o show anterior e, sempre que tá em estúdio gravando um disco, tenta fazer um disco melhor que o anterior. Eu acho que o que mantém o nosso público é isso: o respeito que a gente tem por eles.
UF: Eu, como cria da MTV também, cresci com ela e acho que foi meu kickstart pro rock. Acho que você está coberto de razão — faz muita falta pra essa meninada a MTV como um agregador de informação.
Beto Bruno: Todas as bandas de rock que apareceram, a gente conheceu lá, né? A gente já assistia aos clipes, a gente esperava pra assistir aos clipes, não tinha essa coisa do YouTube, “vamos ali ver o clipe”. Então a gente valorizava mais.
A geração nova tá com tudo na frente deles, na cara deles, na mão deles, no celular — tá tudo ali. Antes a gente não tinha isso, então a gente valorizava mais.
UF: Continuando nesse tema do rock, tem uma sensação no público em geral de que o rock virou um circuito de nostalgia. Os grandes festivais estão botando bandas muito conhecidas do público — Guns N’ Roses vindo pela segunda vez em dois anos, por exemplo. Nessa mesma linha, a Cachorro Grande também tinha parado e vocês voltaram. Como você coloca a história da Cachorro e de vocês no palco com esse retorno?
Beto Bruno: A gente não se sente muito à vontade com esse lance, apesar de ser muito bacana — reunião por reunião, sabe? Turnê de 26 anos… A única maneira de a gente estar em cima do palco hoje é isso. Mas é justamente por não se sentir tão à vontade com isso que a gente vai lançar um disco novo.
A gente vai gravar em junho e vai lançar antes do fim do ano, pra poder mostrar coisas novas pro público, pra gente ter um tesão a mais de tocar coisa nova em cima do palco. Porque eu acho que turnê por turnê, encontro por encontro, não tem tanto valor quanto tu chegar com um disco novo e fazer uma turnê em cima dele.
É como a banda pretende continuar e não ser chamada de banda que tá vivendo do passado. Tem muitas por aí fazendo turnê de aniversário, aniversário de disco… então a gente vai aparecer com um disco novo.
UF: Boa notícia! Bom saber.
Beto Bruno: Eu acho que tem um valor muito maior, é muito mais importante.
Under Floripa: Você meio que adiantou a pauta das minhas próximas perguntas. Pegamos uma entrevista recente do João Gordo em que ele diz que não vê muito sentido em lançar disco novo, porque o público está sempre esperando ouvir as mesmas músicas. O público parece estar valorizando mais a experiência do ao vivo do que o lançamento. No seu caso, qual é a sua visão?
Beto Bruno: O que eu tenho a dizer é que o João não tá errado, não! Do ponto de vista do público, é isso mesmo. O público não é exigente em relação a isso, não tem essa carência. Eles querem ir no show e saber cantar todas as músicas, o que, pra mim, já tá lindo — é um barato.
Mas aí vai de cada banda ver se tá a fim de passar por esse desafio ou não. Eu já acho que, quando você não tem nenhum desafio à frente e só tem que subir no palco pro resto da vida, é um pouco vazio.
Mas o João tá certo — do ponto de vista do público, é isso que acontece mesmo. É difícil tu fazer uma música nova estourar de uma hora pra outra, num show. Mas vai lá que, depois que o disco lança, as pessoas já sabem a música e tal… Então tem todos esses pontos a serem discutidos.
UF: Você, o Marcelo e o Boizinho estão lançando material solo e estão com um disco novo engatilhado. Hoje em dia, para o bem ou para o mal, o sucesso está muito baseado no algoritmo, em rede social, e menos em uma curadoria humana. A gente descobria por revista — eu lia muita Bizz, a coluna do Lúcio Ribeiro na Folha, ou o trampo do Barcinski…
Beto Bruno: Exato! Esse era o caminho que eu segui também.
UF: Hoje em dia vem tudo pelo algoritmo. Você sente que essa mudança pro algoritmo mudou a maneira de vocês pensarem como escrevem ou lançam música?
Beto Bruno: Não, de jeito nenhum. De jeito nenhum. A gente não corre atrás dos números, não. Sabe? A gente usa as redes sociais pra divulgar os shows e os lançamentos, porque é necessário — porque a gente não tem aquela visibilidade enorme que os outros estilos musicais e os outros artistas maiores têm. E, mesmo assim, eles estão lá procurando engajamento nas redes sociais.
Mas isso não muda a nossa maneira de fazer música, que, pra mim, é o mais importante. A gente não vai fazer, escrever, compor ou produzir nada pensando se realmente vai ter engajamento de público. A gente faz o que gosta, porque, no dia em que a gente não fizer o que gosta pra entrar numa sonoridade que tá em voga, aí eu acho que perdeu a identidade total — perdeu o respeito a si próprio e, principalmente, com o nosso público.
Eu acho que a única maneira de ser reconhecido pelo que faz é ser verdadeiro.

UF: Falando sobre o material antigo, vocês andaram relançando bastante coisa que estava fora de catálogo em vinil, mas, infelizmente, o Selo 180 acabou fechando e muito desse material ficou raro…
Beto Bruno: Exato. Só agora, depois de 25 anos de banda, que a gente tem todos os oito LPs da discografia em vinil. Isso era um sonho nosso muito antes de ter a banda, né? Um sonho de infância: “um belo dia eu vou montar uma banda e vou lançar um disco”.
Então, o primeiro foi o Cinema, que foi em 2008. E, desde lá, a gente conseguiu manter lançando os vinis. E os antigos, que só existiam em CD, a gente conseguiu relançar em vinil. É um sonho realizado. Eu acho necessário a gente ter em casa os discos pra ouvir.
UF: Com certeza. Tem alguns discos que estão fora de tiragem — vocês têm planos de fazer novas tiragens? O disco novo vai sair em vinil também?
Beto Bruno: Com certeza vai sair em vinil. E, assim por cima, eu acho que é o primeiro disco e o Pista Livre que tiveram todas as edições vendidas. E eu acho que vai ter reedição, sim, porque ainda tem procura.
Os discos que custavam 200 reais quando lançaram, hoje estão no Mercado Livre por dez vezes isso. Então, por causa dessa procura, eu acredito que a gravadora responsável por esses discos vai fazer uma nova edição.
UF: Sem puxação de saco, sem rasgar seda, mas vocês tocaram com os Stones, Aerosmith, abriram pro Oasis aqui em São Paulo, em 2008… Vocês chegaram num patamar que poucas bandas de rock no Brasil chegaram. Fizeram a turnê de encerramento com 20 datas lotadas, encerraram no Opinião e agora voltaram. Tem alguma coisa que você ainda não fez com a Cachorro que você quer fazer?
Beto Bruno: Bicho, cara… tudo isso que aconteceu faz parte de um grande sonho, né? Fazer uma turnê com o Oasis — foram quatro shows. E depois abrir o show dos Stones no Beira-Rio… aquilo até hoje parece um sonho, bicho. Eu vejo as fotos ali e ainda acho inacreditável aquilo, a gente com os caras. Vou te dizer sério: talvez eu nem tenha me permitido sonhar tão grande com isso. Mas aconteceu, não tem como mudar isso.
É claro que a banda se sente muito maior depois do que aconteceu. Mas a gente também não pode se deixar levar por isso e achar que “porra, já fez isso, já fez aquilo”. A gente não pode viver do passado. São conquistas maravilhosas pra nós, o topo do topo.
Mas, no momento, o que a gente quer fazer é lançar um disco. Que as pessoas gostem, que a gente goste, e fazer uma turnê em cima desse disco — uma turnê memorável, com música nova, com sangue novo ali, sabe?
E, no momento, eu acho que é a única coisa que a gente quer. E já é grandioso pensar assim. Porque é tão difícil hoje em dia lançar um disco novo e fazer o público gostar dessas músicas.
Acho que a gente tá olhando, nesse momento, só pra isso. A nossa prioridade é o disco novo e a turnê depois do disco.

UF: Voltando ao tópico do algoritmo: na nossa juventude, a gente via o artista como algo mais distante, quase mitológico. Hoje ele tem que estar na rede o tempo todo, criando conteúdo. Vemos bandas pequenas se desdobrando entre assessoria, marcar shows, passar som, gravar e ainda fazer mídia social. O que você pensa disso? Acha que isso esvazia a pauta ou aproxima o artista do público?
Beto Bruno: Boa pergunta. Eu não saberia o que dizer muito a respeito disso, pra ser sincero, pra não inventar nenhuma resposta aqui. Eu não penso muito assim, não, sabe? Eu acho que as redes sociais aproximam, sim, o público do artista.
Tem gente que faz post todo dia. Tipo: “tô tomando café da manhã no hotel tal”. Ou, no dia do show: “tô aqui fazendo a passagem de som”. Tem gente que posta três, quatro coisas por dia. Parece um reality próprio.
Antigamente tinha mais essa coisa de a gente ver uma matéria só quando passava no jornal ou na TV, então tinha mais esse distanciamento. Eu acho interessante essa aproximação do artista com o público — muito importante. Porque não é só o público que ganha com isso, o artista também. Esse olho no olho ali… eu acho muito importante.
E eu não sei se a gente faz isso da maneira certa, porque a nossa obsessão não é o sucesso em si, não é o retorno financeiro, não são os números. A gente não tá correndo atrás dos números. A gente só quer fazer um disco melhor que o outro e um show melhor que o outro. É a maneira de respeitar o nosso público e fazer com que ele continue indo aos shows, ouvindo as músicas — seja em vinil ou nas plataformas de streaming.
Porque nós somos a última geração ali antes de entrar nessa coisa das redes sociais. Eu lembro que a geração seguinte à nossa, que eram os emos, era muito feita em cima das redes sociais — e ainda é! São os reis das redes sociais.
Eu lembro muito de a gente estar fazendo turnê com essas bandas, tocando em festival com essa galera mais nova… terminavam os shows, as bandas voltavam pro hotel, e a gente ia pra piscina fazer festa até de manhã. Enquanto isso, eles estavam lá no quarto do hotel, trancados, na frente do computador, conversando com os fãs.
Então nós fomos a última geração que não passou por isso. Mas agora me diz uma coisa: quem tava certo? Nós ou eles? Não sei. Eles reuniram uma legião de seguidores incrível e a gente se divertiu. Então eu não sei quem estava certo — eu não quero deixar de me divertir.
UF: Acho que é uma pergunta que não tem um certo ou errado.
Beto Bruno: Exato! Era coisa de… qual o tipo de “lucro” que você queria? Seguidores ou tu queria se divertir em cima do palco, extravasar aquela energia — que o cara sai de cima do palco e não demora pra passar, entendeu?
UF: O que tá na sua vitrola agora? O que você anda ouvindo nessas últimas semanas, na preparação pros shows e pro disco?
Beto Bruno: Eu pirei numa banda que eu sempre gostei, sempre teve ali em volta… sempre que eu ia na casa de algum amigo, tocava: Supertramp, velho. Eu tô redescobrindo o Supertramp.
Me dei conta de que é uma banda que eu gosto e eu não tinha os discos. Daí eu consegui os discos aqui, umas cópias importadas fantásticas. E eu vi, cara, como fazia falta isso na minha discografia, nos meus estudos semanais de música.
O Supertramp é uma banda que eu tô redescobrindo e tô encantado. E a outra é o Uriah Heep.
UF: Sério?
Beto Bruno: Cara, eu não sei onde é que eu tava com a cabeça que eu não tinha os discos do Uriah Heep até um ano atrás, bicho. Talvez, nos anos 80, eu tenha visto aquelas capas no meio dos discos de metal e me assustei um pouco, na adolescência, e nunca abri o coração pra essa banda.
Mas, bicho, é um puta rock and roll pauleira de primeira, velho. Primeiro time. Então Supertramp e Uriah Heep não saem da minha vitrola — pelo menos de uns seis meses pra cá.
UF Me sinto contemplado. Herdei muitos discos da minha mãe, e vieram junto uns do Supertramp. E Uriah Heep eu conheci através de um tio baixista que me apresentou a banda quando eu era moleque.
Beto Bruno: É muito bom ter um tio assim, bicho!
Serviço:
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Cachorro Grande (Expirado)
São Paulo – SP
- Abertura com: Matheus Torres
- Data: 17 de abril, 2026
- Local: Cine Jóia
- Endereço: Praça Carlos Gomes, 82 – Liberdade, São Paulo – SP
- Abertura das Portas: 20h00
- Censura: 18 Anos
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