Na véspera do festival, as duas bandas lotaram a Casa Rockambole em um side show que funcionou como uma prévia do que o Balaclava Fest reserva para hoje.
Sexta-feira. Véspera do Balaclava Fest. Cá estamos na Casa Rockambole esperando ansiosamente por dois dos nomes mais interessantes que também integram a programação do festival: Wishy e bar italia (o side show foi um prólogo para o que vai rolar hoje no Tokio Marine Hall).
Entre cervejas e cigarros no fumódromo, a noite começou em algum lugar entre o college rock e o shoegaze e terminou mergulhada em guitarras densas, sotaques britânicos e uma sensualidade pairava no ar.
A Wishy subiu ao palco diante de uma casa ainda relativamente vazia, não demoraria muito para isso mudar. Uma pena que o início do show não tinha tanta gente, mas eles seguiram e tocaram como se a casa estivesse lotada. A banda notoriamente faz shows sem setlist definido, e o vocalista Kevin Krauter dava deixas, interagindo com a plateia enquanto a banda se entreolhava, sempre sabendo instintivamente qual seria a próxima música. Em meio a sorrisos e o ocasional “obrigado”, ele largou um “vocês são foda” completamente inesperado, causando risos e mais aplausos.

A banda apresentou várias músicas do álbum Nature’s Pill, que chega na semana que vem, incluindo algumas inéditas e outras já lançadas em singles. As três guitarras construiram uma parede de som densa dando estrutura para as duas (ocasionalmente, três) vozes que se encontram em harmonias maravilhosas. Ao mesmo tempo que essa massa sonora poderia facilmente ter saído de qualquer rádio universitária americana dos anos 2000, as músicas não se rendem à uma nostalgia fácil. As guitarras são grandes e cheias e melódicas — a recém lançada “All the Rage” é uma prova do quão irresistível é essa fórmula.
Aos poucos, a pista foi enchendo e ninguém ficou parado. As pessoas dançavam, batiam a cabeça e foram vistas até algumas guitarras imaginárias no meio da multidão. No palco, o guitarrista Dimitri Morris parecia tão entregue quanto o público, dançando com os braços pro ar.
Na última música, a guitarrista Nina Pitchkites disse que tentaria tocar com uma corda arrabentada e sem perder o ritmo, ela lançou: “Quem precisa de uma corda Lá?”, e seguiu, encerrando o show. Ninguém deu falta da bendita corda.
Uma breve pausa, mais cigarros e mais cervejas e, então, veio um mudança radical de tom.
Se o Wishy levou a noite para o território do college rock, a bar italia entrou para lembrar que uma parede de guitarras também pode ser sexy.
A casa já estava cheia e esfumaçada quando os britânicos subiram ao palco. O calor aumentou, a massa sonora permaneceu — mas a postura mudou completamente. Há algo de deliberadamente contido na maneira como bar italia ocupa o palco, uma banda extremamente confortável com o próprio espaço e que não precisa de muito para dominar o público.

As vozes e os arranjos carregavam ecos que, em alguns momentos, lembravam Portishead. Tudo mérito da vocalista Nina Cristante, claro, que na meia-luz do palco se entregava ao momento. Um sotaque britânico fortíssimo atravessando cada intervalo, cada frase, cada pequena interação com o público.
O setlist, cuidadosamente amarrado, ajudava a construir uma apresentação que parecia menos preocupada em conquistar a plateia imediatamente e mais interessada em colocá-la dentro do universo da banda. Ainda assim, não havia distância real entre palco e público. A casa estava lotada, quente e completamente entregue.
Uma paulada.

Assim, essa abertura semi-informal do o Balaclava Fest funcionou perfeitamente bem. Wishy e bar italia ocupam espaços bastante diferentes dentro da programação, mas as duas demonstraram ontem o que acontece quando guitarras, melodias e boas canções ganham volume suficiente para tomar conta de uma sala. No fumódromo, escapando do calor, ainda consegui cumprimentar os membros da Wishy, que intercalavam com o show algumas conversas com outras figuras notórias da cena independente brasileira.
Hoje, a história continua no Balaclava Fest. E eu estou ansioso.



