A banda inglesa encerra, de forma não oficial, a maratona de shows da Balaclava com Whirlpool na íntegra e uma plateia que parecia ter esperado 35 anos por aquela noite.
Depois da bateria de shows do fim de semana, entre Wishy e bar italia, todo o Balaclava Fest, Sudan Archives e um sem número side shows, finalmente chegamos à terça-feira e ao Chapterhouse.
A banda não fez parte do lineup do Balaclava Fest, mas — assim como a abertura da Terraplana — poderia facilmente ter feito. De certa forma, o show acabou funcionando como um encerramento não oficial do festival, muitos rostos eram familiares depois de vê-los tantas vezes pelo Tokio Marine Hall. A sensação era de que o festival simplesmente tinha mudado de endereço.
A noite começa como sempre, com cervejas e cigarros na frente do Cine Joia. Conversas com amigos, colegas jornalistas e fotógrafos sobre as expectativas para o show e, naturalmente, sobre os shows do fim de semana.
Um assunto acaba dominando a pauta: a qualidade do som no Cine Joia.
O Cine Joia é uma das minhas casas de shows favoritas da cidade. Quiçá, a minha favorita. A localização central, próxima ao metrô, o charme arquitetônico da casa, a pista em aclive e o palco alto fazem dela um dos melhores lugares para se assistir a um show em São Paulo. Especialmente para pessoas baixinhas, isso é um diferencial considerável. A não ser que você esteja atrás de uma coluna, não existe lugar ruim pra assistir a um show no Joia.
O som, por outro lado, é sempre uma questão. Há quem diga que ele é atroz, sempre. Eu digo que é irregular. Já vi shows em que estava perfeito, como o da toe, recentemente.
Ontem, ele foi um problema.
Mas estou me adiantando.
A Terraplana subiu ao palco com um leve atraso. Em seu primeiro show no Brasil depois de um giro pela Europa, o set foi dominado por músicas de seu mais recente álbum, Natural. Ao vivo, muitas das músicas e, principalmente, as alternâncias entre as vozes soaram mais etéreas e menos forçadas que no álbum. Tecnicamente, a banda foi perfeita. Mas alguma coisa estava errada.

As vozes de Stephanie Heuczuk e Vinicius Lourenço estavam praticamente ininteligíveis. É sabido que, dentro da estética do shoegaze, nem sempre se entende o que está sendo cantado. Cocteau Twins e My Bloody Valentine que o digam. Mas ontem as vozes estavam extremamente abafadas — especialmente a de Vinícius e as guitarras pareciam não estar conversando entre si. Enquanto a de Vinícius embolava junto com sua voz, a de Cassiano Kruchelski por vezes ganhava um destaque surreal por cima de todos os outros instrumentos.
Ao mesmo tempo, uma moça de cabelos cacheados que estava atrás de mim cantava todos os versos de Stephanie como se ela mesma fosse a vocalista da banda.
Citando meu amigo Matheus Diogo, a banda é agressivamente curitibana. Stephanie se limitou a dizer alguns poucos “obrigadas”. Vinícius e Cassiano fizeram uma graça no palco, mas acho que ninguém entendeu a piada.
A banda saiu do palco cinco minutos depois do horário marcado para o início do evento principal: os ingleses do Chapterhouse.
Sob meia luz, a banda entra no palco ao som da instrumental “Ecstasy II”. O baterista Ashley Bates ergue os braços, sempre prestes a iniciar a contagem, fazendo a plateia esperar mais alguns segundos. Segundos que demoraram uma eternidade.
Então começa o evento principal: a execução de Whirlpool, clássico de 1991, na íntegra.
A casa já era toda deles quando soaram as primeiras notas de “Breather”. O êxtase continua com “Pearl”. Não faltaram nem os vocais que, no álbum, são da incrível Rachel Goswell, do Slowdive. A plateia solfeja tudo em coro.
Olho para o lado e vejo André Barcinski, uma das grandes referências do jornalismo musical brasileiro, cantando de olhos fechados e com um dos braços erguidos. Por alguns segundos, aquilo parecia uma experiência religiosa. É um daqueles momentos que lembram que nós, que escrevemos, cobrimos, fotografamos e trabalhamos com música, também somos fãs.

A sequência do disco dá uma esfriada com “Autosleeper” e “Treasure”, antes de as luzes se acenderem e o vocalista e guitarrista Andrew Sherriff anunciar que o lado A havia terminado. Era hora de virar o disco e começar o outro lado.
Mais alguns instantes de êxtase com “Falling Down”, carregada pelo riff cheio de wah-wah do guitarrista Joe Light, que substitui Simon Rowe, integrante da formação original.
As questões com o som iam e voltavam. As vozes embolavam, as guitarras se misturavam demais, os médios eram excessivos e algumas microfonias apareciam de tempos em tempos. Ainda assim, em alguns momentos, tudo parecia finalmente funcionar. De repente, aquela massa de guitarras e vozes se organizava e o disco aparecia inteiro na nossa frente.
Whirlpool termina com “Something More”. Depois de uma breve pausa, a banda retorna pra tocar algumas de suas favoritas entre músicas do segundo álbum, Blood Music, e lados B dos singles.
Durante todo o show, os integrantes nos lembram o quão felizes estão por tocar aquelas músicas — e, principalmente, por tocar aquelas músicas pra nós.
No bis, Ashley Bates volta ao palco antes dos outros integrantes. Pega o microfone e solta um sonoro: “What the actual fuck?”
Aparentemente, ele — nem ninguém da banda — não esperava encontrar aquela recepção.
As pessoas pularam, dançaram, cantaram e se comoveram com cinco rapazes do interior da Inglaterra que já não eram mais tão rapazes. Os cabelos ficaram mais brancos e mais ralos, mas as músicas ainda são as mesmas. Boa parte do público que estava ontem na casa também não era mais jovem. Envelheceu com o Chapterhouse e com Whirlpool. A outra parte eram jovens de todas as idades, que também conheceram a banda e estavam ali, curtindo cada segundo.
Foi um fim de semana intenso. Foi um início de semana intenso.
Depois de assistir a tantas bandas novas, velhas, daqui e de fora, volto pra casa após mais uma noite numa sala escura, acompanhado de algumas centenas de pessoas, músicas de quase quarenta anos e, por alguns minutos, todo mundo cantando como se elas tivessem sido escritas ontem.



