O Dia da Girafa, mais recente álbum de Maurício Pereira, lançado ainda em julho deste ano, se apresenta logo de forma enfática com a frase: “sou porta-estandarte do homem comum”. O que impressiona no poder de síntese dessa primeira linha de “Uma Vida Standard”, faixa que abre o disco, é não apenas o seu potencial de orientar o tema do álbum, mas sim a capacidade de contemplar quase que toda a filosofia que Maurício expõe em suas canções-crônicas desde os anos em que versava dentro do som futurista da banda Os Mulheres Negras: a observação atenta e poética para o que acontece todo dia à nossa volta.
Com produção de Biel Basile – também baterista que já acompanhou Maurício ainda antes de ser membro d’O Terno -, O Dia da Girafa tem sua sonoridade construída em arranjos caprichados de uma banda multigeracional, onde os caminhos da experiência e da inovação se colam de maneira em que rock, samba-canção, fanfarra, folk e outras variações estilísticas se apresentam uniformemente, sem que a coesão do som torne quadrado os seus balanços. O destaque, sem dúvida, é a presença do piano elétrico de Júlia Toledo variando – sem perder a precisão – de rocks ao estilo Jerry Lee Lewis, como em “Eu Trago o Coração Vazando”, até o samba-canção-abolerado de “A Professora de Melancolia”, onde a pianista sola junto ao derramar de versos do cantautor.
O mais novo álbum de Maurício tem como novidade trazer, pela primeira vez em registros fonográficos, parcerias do artista com seus filhos: Tim Bernardes musicou “Eu Trago o Coração Vazando” (que, além do piano Lee Lewis, também lembra claramente os anos 70 de Erasmo Carlos), onde também tocou baixo e fez os arranjos de metais; Chico Bernardes assumiu a música de “Um Facho de Luz Cobre”, além de ter feitos os arranjos dessa canção e também ter tocado os violões de todo o álbum, assumindo ainda a coprodução e mixagem do trabalho.
Fechando o núcleo-duro dessa banda, importante são as presenças de Fabio Sá no baixo e do recorrentíssimo parceiro de Maúricio, Tonho Penhasco, tocando as guitarras e também compondo “Quanta Barbaridade” junto ao amigo.
A exceção se faz em “O Leme é um Lugar Genial”, em que o som fica por conta dos membros da Charanga do França, dando um tom carnavalesco que, mesmo destoando do clima geral de O Dia da Girafa, traz para o álbum um delírio onírico positivo, pulsão de vida ao homem comum que, ao contrário da visão costumeira que Maurício traz para suas canções, tira o eu-lírico da calçada voyeurística e o coloca no meio do fervo da rua tomada de gente. “No Leme eu abdico do comando”.
O texto das canções surge para Maurício durante o confinamento da pandemia, onde o porta-estandarte-do-homem-stantard só podia observar seu muso-comum pelas janelas da tv, do celular – e ouvi-lo somente pelo rádio. É nesse observar do mundo através das redes de comunicação que faz nascer versos como o que inicia a faixa-título: “O dia da girafa / a nuvem de gafanhotos” que, por mais surrealistas que pareçam, apenas repetem as sequências de notícias que chegavam até Maurício naqueles dias.
Na entrevista concedida ao Programa de Indie, o artista comenta que esse talvez seja seu álbum mais “maluco” e, pelo que bem me lembro, não deixa de botar um pouco a culpa disso na maluquice do período pandêmico. Sendo causa ou efeito, O Dia da Girafa é marcado por uma sequência de canções de destaque na carreira de Maurício, que só foi musicar esses textos após o fim do enclausuramento, às vezes assumindo a bronca harmônica-melódica de cantar seus versos, outras mandando para parceiros em que, além dos já citados, também se destacam Rômulo Fróes na visceral “Casamata de Amoreiras”; Edson Natale em “Uma Vida Standard”; Lu Horta em “O Dia da Girafa”; e o próprio Biel Basile na instrumental “Caquinhos” (uma trilha sonora em homenagem à ótima capa do álbum?) e também na belíssima “Alfabetiza”.
Um diferencial que pode ser apontado na poética de O Dia da Girafa em relação aos outros trabalhos de Maurício é uma certa tendência imagética que foge à construção de cenas, algo típico desse compositor (com exemplos vindos desde “Eu Vi”, gravada em 1988) para preferir retratos mais fixos, observações de paisagens sem – ou quase sem – movimento. Faixas como “Nuvens, Nuvens, Nuvens” e “Um Facho de Luz Cobre” soam como pinceladas, atenção para a iluminação que pousa sobre as imagens e também para os sentimentos evocados pelas imagens que tal iluminação produz. “Sua posição levemente à direita da tela / Torna tudo mais dramático”.
O Dia da Girafa encerra com uma versão acústica de “Uma Vida Standard”, sendo então essa a primeira e última canção do álbum. Como uma cena final de um filme urbano, em que atravessamos dilemas comuns, desgostos, memórias e paixões pelas ruas da cidade, a última faixa do disco parece, mesmo sem alterar os versos da primeira versão, dar um tom de conclusão para tudo que foi observado durante a audição. Seus versos sintéticos, como também observei no início do texto, parecem realmente confessionais: o artista refletindo sobre a própria ótica das coisas. Acompanhados do piano acústico, violão de nylon, baixo e palmas, a sensação é estar ao lado de Maurício Pereira vendo os créditos subirem enquanto nos despedimos dessa experiência.
O Dia da Girafa – Maurício Pereira
Gravadora:
O Homem Comum, pianos roqueiros, parcerias com filhos e uma lírica cada vez mais afiada.



