Para iniciar esse texto, devo avisar que não sou fã de cinebiografias. Não assisti praticamente nenhum dos filmes mais recentes que retrataram a trajetória de bandas ou cantores (de memória, me lembro de ter visto o filme sobre o Bruce Springsteen, lançado em 2025). Mas, por uma série de fatores, acabei indo ao cinema ver Michael, recém-lançado filme sobre o rei do pop.
Como tudo ligado a Michael Jackson, esse filme tem causado várias polêmicas. Uma parcela dos fãs e alguns críticos adoraram (Spike Lee recentemente defendeu veementemente o filme), enquanto outros fãs e críticos detestaram (no caso da crítica, a grande maioria). Normal, ainda mais em uma obra que tem 128 minutos de duração e se propõe a contar a trajetória de um dos maiores nomes da música do século XX.
Aqui cabe um destaque: a forma como o roteiro e a narrativa se apresentam foi uma opção dos produtores (que incluem a família de Michael). Dinheiro não faltou (foram mais de 200 milhões de dólares na produção), o diretor Antoine Fuqua dirigiu bons filmes ao longo da carreira (cito Dia de Treinamento e Lágrimas de Sol) e o elenco é bem interessante. Claro que a escolha do estreante Jaafar Jackson, sobrinho de Michael (ele é filho de Jermaine Jackson), para o papel principal já rendeu uma boa polêmica (na fase criança, a interpretação ficou por conta de Juliano Krue Valdi). No geral, Jaafar desempenha bem o personagem (principalmente nas cenas musicais).
Falar da trajetória da vida real do astro e comparar com o roteiro do filme também é descabido. Ficou claro, após 15 minutos de exibição, que o roteiro não se preocupa em contar o que Michael Jackson viveu, mas sim em torná-lo uma entidade santa e narrar os fatos de forma a tentar convencer o público de que essa santidade existiu. Aqui, outro ponto a destacar: o diretor disse que precisou refilmar algumas partes, pois certos fatos não podem ser citados por questões judiciais (e já cabe dizer que não há nada sobre os polêmicos casos envolvendo Michael e menores de idade).
O filme começa em 1966 com um pequeno Michael que ama música e é obrigado a ensaiar, com os irmãos, exaustivamente, pelo carrasco pai. Aqui já cabe dizer que, ao longo do filme, só aparecem, da família, o pai (Joe) e a mãe (Katherine). Os irmãos têm algumas citações e aparecem como coadjuvantes nas cenas musicais. Por exemplo, Jermaine Jackson tem só duas citações ao longo do filme (vale lembrar que suas linhas de baixo eram destaques nas músicas e nem são citadas no filme). O segurança de Michael, Bill, tem mais destaque no filme do que os irmãos. Inegável o papel que ele teve na trajetória de Michael (seja no profissional, como no pessoal), mas isso não é contextualizado no filme (na verdade, nada é contextualizado).
Dos primeiros shows à contratação pela Motown e ao sucesso nos EUA, temos uma breve e rasa noção da carreira dos Jackson 5. Após o sucesso com o grupo, inicia-se a narrativa da carreira solo (aqui Quincy Jones é retratado como “apenas um produtor”) e o processo de composição de Off the Wall. O filme trata do crescimento do artista, mas expõe uma pessoa infantil que adora bichos de pelúcia, Peter Pan e animais. Isso, aliado a um espírito doce e amável (que inclusive o leva a “unir” gangues rivais para gravar o clipe de Beat It — o que, na vida real, foi muito mais complexo do que o relatado no filme), torna o Michael Jackson retratado na tela praticamente um anjo. O único momento “malvado” do personagem é quando resolve demitir o pai como seu empresário.
Michael é um filme ruim (cansativo em alguns momentos da última metade), que perde uma ótima oportunidade de prestar uma bela homenagem ao rei do pop (até fãs mais radicais podem achar o filme uma bomba), mas tem boas sequências musicais (com um acervo de hits à disposição, se errasse aqui seria caso de banimento dos cinemas). Se você é fã da música ou do artista, vá sem expectativas. Se é fã de cinema, há títulos melhores em cartaz.
Michael – Antoine Fuqua
Gravadora: Lionsgate



