Desterro Autoral estreou festival cheio, entre erros e acertos!

Desterro Autoral estreou festival cheio, entre erros e acertos!

(Reprodução)

Evento gratuito na Beira-Mar Norte reúne nomes nacionais e locais em Florianópolis, com curadoria diversa entre acertos e contradições na proposta autoral

03 DE ABRIL

O primeiro show do Desterro Autoral na Beira-Mar Norte começou com um leve atraso. Motivo? O espaço gigante vazio à frente do palco. Inacreditável que, em pleno feriado, pouquíssimas pessoas não pudessem ter colado para assistir a vários shows gratuitos, com participações de artistas nacionais.

Mas, antes de adentrarmos os dois dias em si, vale aqui uma breve explanação sobre o que é o Desterro Autoral.

MÚSICA PARA AS MASSAS!

Nos últimos dois anos, a produtora — ou coletivo, como queiram — trouxe não apenas shows ao vivo em alguns pontos da cidade, com toda a infraestrutura que uma banda independente merece, mas também no Berlim, uma casa de shows e bar com múltiplos espaços para que mais bandas pudessem se apresentar em um clima intimista e, digamos, chique.

O bom de todos os shows é que recursos públicos bancaram toda a parte de cada um, então a entrada no Berlim era 0800, mediante retirada de ingressos.

Eu sou da política de levar cultura para o povo, sem cobrança de ingressos. Nada mais justo que dar acesso a quem não teria como pagar.

O Desterro Autoral acertou em cheio nas escalações de artistas e bandas locais, ou aqui radicados, abrindo espaço para a música autoral. Outro MEGA ACERTO, independentemente de você gostar ou não.

Porque Dazaranha de graça ninguém aguenta mais — mas calma que vem mais à frente a lembrança para esse parágrafo.

Voltando ao último dia, 3 de abril: o público estava sumido, mas eis que, pouco tempo após a apresentação de Andréa Buzato (atriz, compositora, musicista, apresentadora) e Jean Mafra (músico, compositor e DJ), como um passe de mágica, apareceram os humanos.

A primeira banda, que eu não conhecia, é um duo, na verdade, com o auxílio de sopros, bateria e teclado, trazendo um som de soundsystem de primeiríssima qualidade. Diretamente da nossa cidade, eu realmente fiquei deveras surpreso com a qualidade do trabalho.

Ibejiz começou com um set totalmente excelente, com apoio de uma banda completa! Ritmo, cuidado nas letras, músicos afinados e um clima de inteira paz — apenas as pessoas querendo curtir uma boa música e um ótimo ambiente.

Perto das 20h, o nosso Bernardo Ferreira, ou o popular B Negão, adentra ao palco e aí, meus queridos e queridas, o bagulho começa a ficar louco!

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Uma festa, uma histeria coletiva e rodas e mais rodas de pogo para exaltar um dos pilares da música brasileira dos últimos 30 anos.

Com faixas como “Essa é Pra Tocar no Baile”, “(Funk) Até o Caroço” e “O Mundo (Panela de Pressão)”, o funk, soul e rock inundaram a Beira-Mar Norte, e o espaço já estava quase tomado para as próximas atrações!

Os Skrotes, para quem não conhece, são um excelente trio formado por Chico Abreu (baixo), Guilherme Ledoux (bateria) e Igor de Patta (teclados). Transit am entre o jazz, erudito, space rock, música latina, entre outros ritmos.

E o show, como sempre, é uma experiência única: viagens mescladas a excelentes músicos que trazem um tipo de som diferente a uma plateia, na maioria das vezes, pouco acostumada a esse tipo de som.

E foram várias faixas passeando pelos trabalhos autorais, desde o mais recente, Matadeiro, até Nessun Dorma, passando por materiais antigos como EPs — uma verdadeira aula pelo ecletismo!

E, não mais que de repente, entra o Galego, o grande músico Otto, direto de Pernambuco e figurinha mais que carimbada em Florianópolis e no restante do país.

Otto, ao lado dos Skrotes, Yuri Queiroga, Héloa e Emilia Carmona, deram um verdadeiro show!

Otto passeou por um verdadeiro pout-pourri de sua carreira: “Tempo do Bob” (ao lado de Emilia Carmona), “Crua”, “6 Minutos”, entre várias outras, até chegar num determinado ponto em que se torna inevitável o convite para B Negão retornar ao palco e a catarse estar completa!

Otto, Skrotes e B Negão, com seus convidados, estavam em casa, e a festa sofreu um aditivo considerável, com mais peso e mais harmonia. Embora nenhum dos cantores fossem irmãos, a família estava ali reunida para provocar.

E foi isso que aconteceu dali para frente.

Questionamentos, música no seu estado mais bruto e alavancando ainda mais o status quo do público.

Foi nesse momento que resolvi sair. Não por qualquer outro motivo, mas porque não posso compactuar com o trigésimo — ou sei lá qual o número — show do Dazaranha no ano.

A armadilha estava pronta: tudo ali — um público aquecido, em êxtase —, mas, talvez para agradar sabe lá quem, toda produtora, coletivo ou evento tem que colocar o “cartão-postal” da cidade no lineup.

Esse foi um dos primeiros e únicos desacertos do primeiro dia.

Não, não temos nada contra o Dazaranha. Papo reto. Mas, embora a escalação do festival tenha sido muitíssimo acima da média, ver a repetição do grupo em infinitos loopings da matrix real acaba sendo chato. É dissonante, em meio ao mundo de felicidade de um evento desse tamanho, ter que bater palmas para algo que já se torna monótono e repetitivo.

E, na verdade, o quinto parágrafo se fez presente.

04 DE ABRIL

No segundo dia, o evento começou com uma chuvinha chata, mas passageira, que nos fez perder a Noahs, banda indie que voltou a tocar junta recentemente.

Bom final de shows, com faixas autorais e baita escalação.

Na sequência, vieram os veteranos da Brasil Papaya, com inúmeros convidados instrumentistas — um melhor que o outro.

Foi muito importante a inserção do grupo no evento, mas, com um repertório potente na sua discografia, a banda ousou pouco, optando por colocar covers e mais covers na segunda metade do espetáculo.

Inúmeros vídeos muito bem feitos eram um apoio visual importante, mas qual o sentido de colocar covers em um evento autoral? E, como diria meu colega presente, Omar: “A banda não se chama Brasil Papaya? E só tocam covers de músicas gringas… faz sentido?”

Fazer, não faz, mas cada um, cada um…

E, na sequência, veio outro artista de Santa Catarina: o tecladista Carlos Trilha, um dos responsáveis por acompanhar a Legião Urbana em dezenas de shows.

Mas eu, que estava esperando músicas autorais do artista, escutei o quê?

Covers de Legião Urbana.

Aí já senti que o negócio não era bem autoral, porque não faz sentido ir a um festival de música autoral para ver alguém tocar covers.

E, depois dos protocolares 30 minutos iniciais, o convidado de honra adentra ao palco: Marcelo Bonfá, ex-baterista (ou atual, depende da briga com o filho do Renato Russo, que não permite o uso da marca pelos músicos vivos) da própria Legião Urbana.

Se o Bonfá ficasse somente na bateria, faria sentido. Ok, é um show de covers da Legião Urbana, tudo certo. O Trilha canta direitinho.

Mas o Bonfá, um músico que tenho o maior respeito pela sua trajetória, foi para a frente do palco cantar — e aí que a coisa degringolou.

O Bonfá, como vocalista, é um excelente baterista.

Não dava para entender. Simplesmente foram momentos desnecessários — e, para o bom entendedor, esses parágrafos bastam.

O FENOMENO CÉU!

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Se a chuva tinha parado para o festival continuar, de alguma maneira São Pedro parou por conta da cantora Céu!

Por mais que adjetivos que eu possa colocar aqui, nenhum fará jus à perfeição que foi o show.

Um domínio de palco absurdo! Uma malemolência cênica, uma senhora cantora — dona da porra toda! E a banda? Que BANDA, senhoras e senhores!

Com um setlist que abrangeu sua extensa discografia, Céu foi única dentro do evento. Porque ela foi o EVENTO no segundo dia — e só doido para discordar!

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Num apanhado geral, o Desterro Autoral, nem tão autoral assim, foi muito bacana! Bem organizado, nenhuma briga, público em êxtase. Desnecessário repetir que Dazaranha, em um próximo, não dá — e faltaram mais bandas independentes no lineup.

Soube, por fontes seguras, que uma banda local em franca ascensão e se preparando para lançar seu segundo álbum declinou gentilmente do convite. Não vou adentrar aqui o motivo, mas passa pela parte que mexe no bolso e por outro show da banda que iria acontecer adiante. Também não soube de outros artistas emergentes que tenham sido convidados: Tapete Tapete, Verde Menta, Adorável Clichê, Sorosoro… faltou uma ou outra banda para deixar o evento com um ar mais indie.

Mas, no geral, foi bacana!

Luciano Vitor

Luciano Vitor

Formado em Direito, frequentador de shows de bandas e artistas independentes, colaborou em diversos veículos, como Dynamite, Laboratório Pop, Revista Decibélica, Jornal Notícias do Dia, entre outros. Botafoguense moderado, é carioca radicado em Florianópolis há mais de 20 anos.