Sorrir também é político: El Mató a un Policía Motorizado no Cine Joia

Sorrir também é político: El Mató a un Policía Motorizado no Cine Joia

(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Los Otros abriu a noite com posicionamento político explícito, enquanto os argentinos do El Mató transformaram o Cine Joia em um coro coletivo. Em tempos difíceis, celebrar também é uma forma de resistência.

Sim, sabemos que tudo é político, mas em ano de eleição parece mais do que nunca que a política está em todos os lugares. É impossível fugir dela. Nas conversas no bar, nas redes sociais e, principalmente, nas preocupações constantes que insistem em permanecer nas nossas cabeças, não importa o quanto tentamos ignorá-las. Num Brasil em que um lado flerta com o fascismo enquanto outro ocupa as ruas em manifestações pró-Lula, um show de rock pode parecer trivial. Mas é justamente nestes momentos que precisamos nos lembrar o que só a música é capaz de fazer.

Ontem, a Los Otros subiu ao palco do Cine Joia e, depois de alguns problemas técnicos no baixo que atrasaram o início da apresentação, mostrou que não era preciso muito para conquistar a plateia. A banda levou os contratempos com bom humor, e seu carisma logo tomou conta do ambiente. Eles eram de sorrisos fáceis, uma alegria genuína de quem parecia estar aproveitando cada minuto no palco.

Enquanto roadies resolviam as questões técnicas, o vocalista Tom Motta perguntou se alguém ali queria ver Flávio Bolsonaro eleito. A resposta veio em um sonoro e retumbante “NÃO“.

Sorrir também é político: El Mató a un Policía Motorizado no Cine Joia 2
(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

A pergunta foi direta e a resposta foi clara. Em tempos que a palavra “polarização” domina os debates e as divergências são cada vez mais acirradas, aquele momento mostrou uma plateia que não se limitava a consumir apenas música, mas que também encontrava ali um espaço para expressar publicamente sua posição.

Ao final da apresentação, a banda levantou uma bandeira da campanha de Lula. Tom, que é argentino, pediu que o público votasse nele, lembrando que, por ser estrangeiro, não poderia participar da eleição brasileira.

Um músico estrangeiro, membro de um trio diverso, diante de uma plateia brasileira, arrancando aplausos e manifestando sua posição sobre o futuro político do país em que estava tocando. O país que ele escolheu como casa. A apresentação não transformou o palco em palanque. Foi um show de rock. Mas, naquele momento, a banda se posicionando já era mais do que o suficiente.

Sorrir também é político: El Mató a un Policía Motorizado no Cine Joia 4
(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Desde o resultado do primeiro turno, há uma parcela do eleitorado que vêm exigindo que artistas e influenciadores se posicionem politicamente. Alguns, talvez com medo de perder seguidores, escolheram o silêncio. A questão vai muito além de simplesmente exigir que nossos artistas favoritos se posicionem. Precisamos reconher que falar — assim como permanecer em silêncio — acontece dentro de um contexto. A arte não precisa se transformar em propaganda para assumir uma dimensão política, mas é impossível fingir que essa dimensão não existe.

A neutralidade é uma ideia confortável. Permite que a música seja tratada como entretenimento puro, separada das condições em que é produzida e das disputas que atravessam a sociedade. Mas quem pode subir em um palco, onde suas vozes encontram espaço, nos lembra que alguns valores são naturalizados e outros são contestados. Invariavelmente, todos fazem parte de uma realidade da qual a cultura não está apartada.

Sorrir também é político: El Mató a un Policía Motorizado no Cine Joia 6
(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

A arte não acontece no vácuo. A liberdade de criar, expressar-se e reunir pessoas depende também da existência de uma sociedade em que essas liberdades sejam respeitadas.

A política, porém, não terminou quando a Los Otros deixou o palco.

Os argentinos da El Mató a un Policía Motorizado entrou ao som do tema de O Exterminador do Futuro, e Santiago Motorizado, com seu carisma inconfundível, encontrou uma plateia pronta para recebê-lo. O que veio a seguir foi uma celebração coletiva: gente cantando todas as músicas, pulando, ocupando cada espaço disponível e fazendo a casa literalmente tremer.

Era impossível não sorrir.

Sorrir também é político: El Mató a un Policía Motorizado no Cine Joia 8
(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Apesar dos coros ocasionais de “olê olê olá Lula”, a apresentação se restringiu à música. E que apresentação! A banda fez do show uma experiência compartilhada. Uma multidão que se reconhece nas mesmas canções e que, por algumas horas, respirava junto no mesmo ritmo, cantando cada verso em espanhol como se fosse a sua própria língua materna.

Ontem, tanto a Los Otros, com seu rock fácil de Stratocaster sem distorção, quanto a El Mató nos lembram que a cultura e a arte não são experiências passivas. O público não está ali apenas para receber algo pronto. Cantamos, respondemos, dançamos, pulamos. Ocupamos com as bandas aquele espaço e participamos da construção daquela noite.

Existe política nessa possibilidade coletiva de estar junto.

Não porque toda reunião de pessoas seja automaticamente um ato de resistência, nem porque cantar uma música seja suficiente para transformar a realidade. Seria ingênuo atribuir à música poderes que ela não tem. Um show não substitui a participação política, a organização coletiva ou a defesa concreta de direitos. A alegria, sozinha, não resolve as contradições do mundo.

Sorrir também é político: El Mató a un Policía Motorizado no Cine Joia 10
(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Mas também não precisamos diminuir aquilo que ela pode representar.

Em um ambiente público frequentemente dominado pelo medo, pela hostilidade e pelo ressentimento, preservar a capacidade de sentir prazer, estabelecer vínculos e celebrar a existência não é uma forma de ignorar a realidade. Pode ser uma maneira de impedir que ela determine tudo o que somos capazes de sentir.

Sorrir também é político.

Não quero dizer que a felicidade é uma obrigação ou de que precisamos responder às dificuldades com otimismo de uma Poliana. Precisamos também sentir indignação, tristeza e em, momentos como o que vivemos, a exaustão é uma resposta perfeitamente legítima. Porém, não podemos permitir que o cenário político nos retire também a nossa alegria, como se celebrar a vida fosse uma distração irresponsável diante da gravidade das coisas.

Sorrir também é político: El Mató a un Policía Motorizado no Cine Joia 12
(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Seguimos sorrindo. Seguimos cantando. Seguimos dançando.

Diante de uma plateia que cantava cada música como se aquelas canções também lhe pertencessem, os versos de “Mas o Menos Bien” ecoaram pelo Cine Joia e ganharam outro sentido. Não tá tudo bem, longe disso. Mas seguimos porque sabemos que não está. E, mesmo assim, seguimos cantando, dançando, pulando. Nos abraçando felizes ao término de um show incrível.

A alegria não nos isenta da luta. Não substitui o compromisso político nem resolve as contradições do mundo. Mas se recusar a abrir mão dela também é uma maneira de não deixar que essas contradições determinem tudo.

A música não nos oferece a certeza de que tudo vai ficar bem, mas a possibilidade de seguirmos juntos enquanto as coisas não ficam.

Mais ou menos bem. E seguimos.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.