Pennywise, Millencolin, No Fun At All: afinal, Floripa virou a Califórnia brasileira?
Começo este texto com uma constatação que talvez seja um pouco exagerada, mas que estou disposto a defender: Florianópolis é a Califórnia brasileira.
Pelo menos em 2026.
Em um intervalo de poucos meses, tivemos por aqui Pennywise, Millencolin, Mute e, agora, No Fun At All e Authority Zero. E outubro ainda reserva A Wilhelm Scream.
Por isso, para quem passou uma parcela considerável da vida ouvindo hardcore melódico, skate punk e suas inúmeras derivações, chega a ser estranho escrever todos esses nomes associados a shows em Florianópolis (e no mesmo ano).
E ontem, também conhecido como quinta-feira, 1º de outubro, foi a vez de mais dois capítulos dessa história.
A particularidade de o show inicialmente acontecer no John Bull e ter sido transferido para o Desgosto, a meu ver, facilitou muito a logística de uma quinta-feira no final da tarde. Cheguei ao Desgosto pouco antes das 19h, direto do trabalho, e encontrei a magnânima Nina no Vista Feia.
Lá, o papo foi o de sempre: música. Entre análises, cervejas, variações musicais e impressões sobre novos trabalhos na praça, a conversa na área interna acabou por afugentar o frio que fazia na rua.
Até ouvirmos os primeiros acordes do quarteto do Arizona.
E aqui entra uma das coisas legais desse tipo de noite. Não era simplesmente uma banda de abertura preparando terreno para a atração principal. Estamos falando de outro nome com décadas de estrada, oito álbuns e uma identidade bastante própria dentro do punk rock norte-americano.
Eu nunca parei muito para ouvir os caras, mas o show foi muito bom. O vocalista e líder da banda, Jason DeVore, é carismático e parece carregar o manual do estilo embaixo do braço.
Foi um show explosivo, intenso, rápido e moldado sob medida para uma noite de titãs. Mas também trouxe uma abordagem diferente daquela que encontramos posteriormente no No Fun At All. Existe velocidade, claro, mas também uma elasticidade maior nas músicas. O punk rock divide espaço com reggae, ska e outras referências, criando respiros antes de acelerar tudo novamente, com trechos icônicos do vocal mais melódico que chamava o público para interagir no cante comigo “Ehh, ohhh”.
O local já começava a encher, e também me chamou a atenção a quantidade de pessoas com camisetas da banda. O ponto alto veio no final, quando tocaram Revolution. Foi gratificante demais!

E, bom, show em quinta-feira precisa ser pontual. Por isso, às 20h58, subiu ao palco o quinteto sueco mais californiano que você terá a possibilidade de conhecer.
O No Fun At All pode não ter a popularidade de outras bandas, mas tem uma base extremamente fiel de fãs. E, em sua segunda passagem por Florianópolis, isso ficou mais do que evidente. Seja pela salva de palmas inicial ou pelas tantas camisetas da banda ao meu redor, a recepção foi intensa desde o primeiro acorde de Invitation, clássico de Out of Bounds (1995). Aliás, o álbum foi o que mais teve músicas executadas durante a noite.
Ao todo, foram pouco mais de 60 minutos, 19 ou 20 músicas e muita, mas muita intensidade. Até porque, se o Authority Zero trabalha com diferentes possibilidades dentro do punk rock, o No Fun At All parece subir ao palco determinado a explicar exatamente como se faz hardcore melódico.
Capítulo um: velocidade.
Capítulo dois: guitarra melódica.
Capítulo três: refrão.
Capítulo quatro: repita tudo isso durante décadas sem esquecer de forma magistral.
Parece simples quando escrito dessa forma? Mas não é.
Existe uma precisão absurda na maneira como o No Fun At All executa esse tipo de música. Tudo acontece rápido, mas existe espaço suficiente para a melodia aparecer. Mikael Danielsson e Fredrik Eriksson são extremamente precisos e técnicos e não deixam a peteca cair por um instante sequer. Sem esquecermos da marcação de quatro tempos na bateria de poucas peças e viradas mas completamente precisa.
Sem dúvida, é o bê-á-bá do estilo. Só que executado por quem ajudou a escrever a cartilha do hardcore melódico.
Dito isso, tivemos no repertório, mas não necessariamente nessa ordem, Beat ‘Em Down, Master Celebrator, Believers e Spirit. Não consegui pegar o setlist completo. O Desgosto estava insano. Era roda praticamente em todo o espaço, e eu acabei levando até um soco no cucuruto. Sem intenção, é claro.
Corta para outro pensamento: durante muito tempo, acompanhar determinadas bandas significava olhar as datas das turnês internacionais e aceitar São Paulo, Curitiba ou Porto Alegre como destinos naturais. Floripa aparecia eventualmente no mapa.
Agora temos praticamente um pequeno festival imaginário acontecendo ao longo do calendário. E isso é mérito de uma rapaziada que está colocando a cara a tapa e fazendo acontecer.
Obrigado, Desgosto Discos!
No resumo da ópera, o dia de ontem foi uma aula. Uma aula magistral de hardcore melódico dentro de um espaço pequeno, no Centro de Florianópolis, com banda e público praticamente respirando o mesmo ar. Sem sombra de dúvida, mais uma noite para ficar na história.



