Resenha do show da banda alemã Lucifer no Célula Showcase, em Florianópolis, marcada por intensidade sonora, atmosfera densa e um olhar autorreflexivo sobre nostalgia, tempo e pertencimento.
Tem algo curioso em voltar pra um lugar que já foi quase extensão da tua casa. Mesmo quando ele já não parece mais aquele lugar onde você foi feliz. O Célula Showcase, pra mim, sempre carregou esse peso afetivo. Entre 2014 e 2018 (ou 2019), era praticamente um ritual de fim de semana.
Fazia mais de um ano que eu não aparecia por lá, e o reencontro veio justamente ontem, com um motivo bem específico: o show da banda alemã Lucifer.
Bom, antes de continuar, é bom entender que “Rock” é um desses termos que já não significam muita coisa. Dá pra colocar Legião Urbana, Arctic Monkeys, Barão Vermelho e Titãs no mesmo balaio sem que ninguém questione muito. Com “metal” acontece algo parecido, só que mais denso, mais fragmentado, mais específico dentro do seu próprio caos.
E era nesse espectro que eu me encontrava naquele domingo, ao lado do magnânimo Luciano Carioca, pronto pra assistir não só “mais um show de metal”, mas a apresentação de uma banda que entende exatamente onde quer existir dentro desse rótulo confuso.

Pra quem ainda não cruzou com o nome, o Lucifer, liderado por Johanna Sadonis nos vocais, Rosalie Cunningham e Coralie Baier nas guitarras, Claudia González Díaz no baixo e Kevin Kuhn na bateria. A banda orbita esse território que chamam de occult rock. Um rótulo que fala mais de estética do que de qualquer dogma. Não tem ligação direta com black metal ou com caricaturas óbvias. Aqui, o peso vem de outro lugar.
Com cinco álbuns na bagagem, a banda bebe direto da fonte de Black Sabbath — especialmente da fase mais densa de Master of Reality e Vol. 4 — onde o riff é menos sobre velocidade e mais sobre atmosfera. Soma isso a um flerte constante com o stoner, e o resultado é esse som arrastado, ritualístico, quase hipnótico.
Na teoria, tudo muito bem resolvido.
Na prática, nem tanto.
O show começou às 20h10 e já na primeira música dava pra perceber que algo não estava encaixando. A vocalista parecia visivelmente incomodada e não demorou pra entender o motivo: falta de retorno. Mas ao que parece o problema foi resolvido prontamente. Aliás, o som, no geral, ficou estável, pelo menos para a plateia de mais de 200 pessoas que se amontoavam para ver a sensação do metal europeu.
Em suma, o show seguiu. E, curiosamente, alguns detalhes paralelos começaram a roubar a atenção.

O baterista, por exemplo. Uma figura que parecia saída direto de um buraco no tempo: um Lemmy genérico que facilmente poderia estar tocando numa sexta-feira qualquer de 2010 no finado Plataforma Rock Bar.
A casa estava cheia, não lotada, mas cheia do jeito certo. E isso, por si só, já diz bastante coisa. Domingo, feriado, Florianópolis, banda internacional fora do mainstream. Ainda assim, público presente, engajado, camiseta da banda no peito, principalmente com a arte do último álbum estampada sem pudor.
Aliás, falando em estética, faltou um detalhe importante: o palco. Assistindo do segundo andar, ora de pé, ora sentado, ficou ainda mais evidente o vazio do fundo branco. Nenhum backdrop, nenhuma projeção, nenhuma tentativa de criar um ambiente visual à altura do som. Pra uma banda que trabalha tanto conceito, aquele espaço vazio fez diferença.
O setlist teve cerca de 50 minutos mais bis, passando pelos momentos mais conhecidos da banda. Sem grandes surpresas, mas também sem deixar lacunas. “California Sun” e “Bring me His Head” (minhas favoritas) apareceram e funcionaram como deveriam: pontos de conexão imediata no meio de uma apresentação que, por vezes, parecia distante.
Mas foi no bis que a noite ganhou um respiro inesperado.
O baterista, sempre ele, resolveu brincar com o público, soltando trechos de “Crazy Train”, “Run to the Hills” e, “We’re Not Gonna Take It” clássico que vai ser cantado em toda América Latina como “Huevos con aceite”. Fiquei imaginando isso em Buenos Aires e Santiago e comecei a rir.
Teve também o momento aniversário do guitarrista, aquele clássico “cafona que funciona”. Parabéns coletivo, quebra de clima, sorriso geral. Faz parte do pacote.
No fim, tudo terminou com “Fallen Angel” e com saldo mais do que positivo: um ótimo programa pra um domingo à noite. Sem epifanias, sem decepções. Um show que funciona dentro da proposta e que reforça uma sensação que começou antes mesmo da primeira música: às vezes, voltar não é sobre reviver o que foi.
É sobre entender o que ainda faz sentido.
E, dessa vez, fez MUITO sentido!



