Talvez Florianópolis esteja finalmente vivendo uma cena independente de verdade.
Sábado à noite, chuva, frio e três bandas que orbitavam no meu radar há algum tempo e que, duas delas, não tinha conseguido assistir ao vivo. Honestamente? Uma ótima pedida.
Acabei por chegar cedo no Desgosto Bar, mas como a chuva tinha dado uma trégua, resolvi caminhar um pouco pelo centro antes de entrar. Outros tempos teriam me levado automaticamente para um cigarro na calçada. Hoje, longe da minha juventude, meus hábitos são outros: chiclete, obsersavação nas vitrines fechadas na Conselheiro Mafra, Padre Roma e Felipe Schmidt, enquanto tentava entender em qual momento da minha vida deu uma virada. Passei boa parte da juventude por aquelas ruas.
Pouco depois das 20h, entrei no Desgosto. Ainda tinha pouca gente. Estava tocando Slow Pulp no som ambiente. Peguei três chopes e um chorume, porque a noite prometia ser longa e porque, às vezes, a gente também merece pequenas irresponsabilidades emocionais. Aproveitei ainda estrear meus novos tampões de ouvido comprados no Mercado Livre. Recomendação fortíssima para qualquer pessoa que frequenta shows em lugares fechados. Existe uma linha invisível entre “curtir música alta” e “preservar a audição”. A última música antes do primeiro show foi “The Perfect Kiss”, do New Order. Belo prenúncio.

Então entrou no palco a Verde Menta. E minha primeira impressão foi ótima justamente porque parecia errada: camisa, gravata, postura meio banda de formatura. Só que bastaram poucos acordes para entender a proposta. Existe algo muito específico acontecendo ali. Se eu tivesse fechado os olhos em alguns momentos, conseguiria facilmente imaginar um show do Pelebrói Não Sei, Relespública ou Faichecleres.
Talvez a Verde Menta seja a banda manezinha mais curitibana que eu já vi em Florianópolis.
As influências estão nas melodias, nas letras, na atitude e principalmente naquele tipo de rock alternativo de bar, bêbado, sentimental e torto. Levemente torto. Tudo muito bem executado. O vocalista segura muito bem o show e a banda cresce conforme o público vai enchendo o Desgosto. Algo impressionante considerando que era um sábado frio e chuvoso.
O ápice veio em “Eu Desmaiei Na Frente Dela e Ela Riu na Minha Cara”, cantada praticamente em coro pela casa inteira. Já a inédita “Escapamentos” mostrou uma banda confortável em expandir a própria sonoridade sem perder identidade. Um baita show de abertura. A banda estava semana passada em SP. Esses caras vão longe!
Na sequência veio a Bia e os Foda-se, talvez o show mais curioso da noite. O nome poderia facilmente sugerir algum projeto puramente performático ou escorado em ironia de internet, mas ao vivo a banda funcionou (e funciona), absurdamente bem.
A Bia é carismática, segura o palco com naturalidade e tem uma presença que oscila entre o esquisito, o irrevente e o extremamente magnético. A música “Não Me Chame de Clarice Falcão” é quase uma provocação metalinguística. Porque sim, existem referências ali, tanto estéticas quanto de composição, mas a banda claramente vai muito além disso.

O mais interessante é perceber como eles fogem da armadilha das letras preguiçosas do indie nacional contemporâneo. Não existe aquela sensação de rima automática entre “amor” e “dor”, nem aquele excesso de cinismo afetado. Ou aquele “deu tudo errado, tô triste pra caralho mas é isso aí”. As músicas têm personalidade, métrica interessante e um senso de humor muito próprio e específico.
Aliás, foi durante essa apresentação que comecei a pensar bastante sobre o que está acontecendo na cena independente de Florianópolis nos últimos anos, no pós-pandemia.
Existe um ecossistema muito interessante formado aqui. Bandas talentosas, produtores acreditando nos projetos, espaços abrindo as portas para música autoral e uma geração inteira de músicos extremamente competentes surgindo quase simultaneamente. Dá facilmente para fazer um estudo relacionando o crescimento populacional da cidade, os fluxos migratórios, a ocupação do centro e até a relação indireta da UDESC com essa nova produção musical alternativa.
Florianópolis sempre teve música, claro. Mas parece que agora existe uma cena de verdade se conectando. Anos atrás, o certo era o músico machão que tinha 10 bandas covers diferentes. Hoje vivemos um momento diferente.
E sim, talvez eu estivesse filosofando demais depois de algumas cervejas. Mas acho que não é só isso.
Fechando a noite, a Tangolo Mangos fez sua terceira passagem por Florianópolis e entregou facilmente o show mais catártico da noite. Foi a segunda vez que assisti à banda ao vivo (a primeira tinha sido no Haôma), mas dessa vez tudo pareceu encaixar melhor.
Talvez porque eu tenha passado a semana ouvindo bastante “Pedágios y Caronas”, novo álbum da banda. Talvez porque o Desgosto estivesse completamente lotado naquele momento. Ou talvez porque a Tangolo Mangos esteja simplesmente vivendo um momento muito especial da carreira.
O show abriu com “Armadura Armadilha” e já deixou claro o tamanho da amplitude musical da banda: psicodelia, música nordestina, riffs absurdos de guitarra, grooves quebrados, momentos quase ska e uma energia caótica que nunca perde o controle. O repertório misturou as músicas novas com faixas já consolidadas como “Poca” e “O Gato Gatêia e Você Quer Saber”, criando aquela sensação rara de assistir uma banda em plena expansão criativa.

Quando o show terminou, já era aquela exaustão boa de quem teve um sábado longo demais, mas ainda assim necessário.
Como era relativamente cedo, não estava chovendo e tinha ainda um ônibus às 23h25, caminhei até o TICEN e fui embora meio bêbado, um tanto cansado e extremamente satisfeito por 3 shows extremamente legais!
No fim das contas, foi uma baita noite. Dessas que fazem a gente lembrar por que ainda vale sair de casa no frio e na chuva para assistir bandas independentes em um bar no centro da cidade.



