Um dos nomes fundamentais para o desenvolvimento da música industrial, o britânico Cabaret Voltaire fará sua primeira apresentação no Brasil durante a turnê de despedida. O grupo sobe ao palco do Cine Joia, em São Paulo, no dia 6 de março de 2027, em um show que também marcará a única passagem da banda pelo país. A apresentação será comandada pelo integrante original Stephen Mallinder, e a realização é da Maraty.
Os ingressos estão disponíveis pela plataforma Fastix.
Com uma trajetória iniciada em Sheffield, o Cabaret Voltaire teve papel importante na construção da música industrial ao combinar vocais manipulados, batidas eletrônicas, ruídos e estruturas rítmicas pouco convencionais. Ao longo dos anos, a banda também incorporou elementos do pós-punk, funk, electro e da música eletrônica voltada para as pistas, ampliando as possibilidades de experimentação dentro desses gêneros.
A influência do grupo se espalhou por diferentes vertentes da música eletrônica, incluindo industrial, EBM, pós-punk, synthpop e a cena gótica. Artistas como Ministry, Nitzer Ebb e Front 242 estão entre os nomes que apontam a importância do Cabaret Voltaire em suas trajetórias. Trent Reznor, do Nine Inch Nails, também já citou os primeiros trabalhos dos britânicos como referência para o projeto How to Destroy Angels.
No universo do techno, o legado da banda igualmente ganhou reconhecimento. O DJ e produtor Surgeon já destacou a abordagem experimental de Richard H. Kirk, enquanto o espanhol Oscar Mulero colocou os álbuns do Cabaret Voltaire entre suas primeiras descobertas dentro da música eletrônica, ainda no final dos anos 1980.
Experimentos que ajudaram a moldar a música industrial

Formado originalmente por Richard H. Kirk, Stephen Mallinder e Chris Watson, o Cabaret Voltaire começou suas experiências musicais em 1973. Desde o início, o processo de gravação era tratado como parte essencial da composição. Fragmentos retirados de programas de televisão e rádio, sintetizadores, vozes e instrumentos modificados eram utilizados para construir uma sonoridade que misturava música, ruído e colagem.
A proposta tinha relação com o dadaísmo e com as técnicas literárias de William Burroughs, ao mesmo tempo em que absorvia referências da música negra norte-americana. Electro e hip-hop passaram a integrar esse universo, contribuindo para uma sonoridade marcada pela repetição, pela tensão e pelo caráter dançante.
Essa linguagem ganhou maior definição em trabalhos como Mix-Up, de 1979, The Voice of America, de 1980, e Red Mecca, lançado em 1981. Os discos consolidaram a combinação entre batidas persistentes, vocais processados e experimentações com ruídos e texturas eletrônicas.
Faixas como “Spread the Virus” e “A Thousand Ways” ajudam a exemplificar a atmosfera de Red Mecca, álbum que décadas depois continuaria sendo reconhecido como um dos trabalhos importantes da música industrial. Em 2019, a Pitchfork colocou o disco na quarta posição de sua lista dos 33 melhores álbuns do gênero.
A aproximação do Cabaret Voltaire com a música de pista se tornou ainda mais evidente nos anos seguintes. The Crackdown, de 1983, produzido com Flood, e Micro-Phonies, de 1984, aprofundaram o uso de baixos, programação eletrônica e elementos rítmicos mais definidos.
Músicas como “Just Fascination”, “Sensoria” e “Do Right” levaram para as pistas a estética experimental que caracterizava a banda. O período também representou um momento de maior projeção comercial, com The Crackdown alcançando a 31ª posição na parada britânica de álbuns.
Da experimentação ao house de Chicago
A busca por novas possibilidades levou Richard H. Kirk e Stephen Mallinder a Chicago, onde trabalharam ao lado de Marshall Jefferson, um dos nomes importantes do house, no álbum Groovy, Laidback and Nasty, lançado em 1990.
O disco, que inclui faixas como “Hypnotised” e “Easy Life”, aprofundou o diálogo da banda com a música eletrônica norte-americana. A experiência refletia um interesse que Kirk já manifestava pelo electro e pelo hip-hop, além da intenção de explorar estruturas mais acessíveis sem abandonar a característica experimental do grupo.
O impacto do Cabaret Voltaire também pode ser percebido em músicos de diferentes gerações. Martin Moscrop, integrante do A Certain Ratio, relatou ter buscado reproduzir em sua própria banda a maneira como Kirk utilizava a guitarra para criar sons semelhantes aos de um sintetizador. Surgeon, por sua vez, chamou atenção para a diversidade presente na obra do grupo e para a maneira como diferentes fases da discografia poderiam revelar novas possibilidades sonoras.
Retorno aos palcos e despedida

A atual fase do Cabaret Voltaire começou a ganhar forma em 2025, quando Stephen Mallinder e Chris Watson voltaram a trabalhar juntos sob o nome da banda para marcar os 50 anos da primeira apresentação do grupo, realizada em Sheffield, em maio de 1975.
O reencontro aconteceu quatro anos após a morte de Richard H. Kirk, em 2021. Antes disso, Kirk havia conduzido o projeto praticamente sozinho, retomando apresentações ao vivo no festival Berlin Atonal, em 2014, e lançando o álbum Shadow of Fear, em 2020.
O repertório preparado para os shows realizados no Reino Unido em 2025 também está registrado no álbum But What Time Is It Really?, lançado em 24 de abril de 2026. A edição digital reúne 16 faixas e recupera músicas importantes da trajetória do grupo, entre elas “Yashar”, “Just Fascination”, “Nag Nag Nag” e “Sensoria”, além de “Tinsley Viaduct”.
É esse repertório, atualizado para a atual formação, que deverá chegar ao palco do Cine Joia em março de 2027. Para o público brasileiro, a apresentação representa uma oportunidade inédita de assistir ao vivo a uma das bandas que ajudaram a estabelecer as bases da música industrial e a aproximar a experimentação eletrônica das pistas de dança.
SERVIÇO
Cabaret Voltaire – Final Tour
Data: 6 de março de 2027, sábado
Local: Cine Joia
Endereço: Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade, São Paulo/SP
Vendas: fastix.com.br/events/cabaret-voltaire-em-sao-paulo
Realização: Maraty
Apoio: Powerline Music & Books


