Não é segredo pra ninguém que eu ando torcendo o nariz pro Dave Grohl e, consequentemente, pros Foo Fighters…
Não faz muito tempo que eu escrevi uma coluna falando dos meus problemas com o frontman, que eu já considerei um dos mais carismáticos do rock, e como eu acreditava que isso estava manchando o legado da banda. A real é que, desde a morte do baterista Taylor Hawkins, os Foo Fighters parecem perdidos. Já faz algum tempo que eles estão se tornando cada vez menos relevantes, e o single “Today’s Song”, lançado naquela entressafra esquisita logo após a demissão do baterista Josh Freese, era não só um grande “mais do mesmo”, mas uma faixa sem alma, morna, mecânica, meio morta. Dave parecia cada vez mais perdido, e a banda estava sofrendo junto.
Aí, na sexta passada, saiu o EP Of All People.
Três das quatro faixas haviam sido lançadas sem grandes repercussões desde outubro do ano passado. Vi poucas notícias a respeito e confesso que não havia me interessado por elas. Quando vi o lançamento do EP, dei play já com um bocado de antipatia, pré-julgamento puro e pouca paciência.
Saliento aqui que eu gosto muito dos Foo Fighters. Não é minha banda favorita (acredito que eles não são a banda favorita de ninguém), mas acho a pecha de “Coldplay do rock” um tanto injusta. Apesar de a produção deles neste século não chegar aos pés dos álbuns The Color and the Shape e There Is Nothing Left to Lose, eles eram uma fábrica de hits. Assisti ao show deles no Allianz Parque no início de 2018, e foi, sem sombra de dúvidas, um dos shows mais divertidos que já vi. Mesmo da arquibancada superior, com o nariz sangrando de tão alto, a energia que emanava do palco era extremamente contagiante. A primeira meia hora foi de uma porrada atrás da outra, peso, pressão e precisão, sem dó. Quando outras bandas já teriam reduzido a marcha e feito uma pausa para, em seguida, engatar numa música mais lenta, a banda seguiu moendo em alta rotação, sem nenhuma dó dos nossos joelhos ou ouvidos.
“Of All People”, a única inédita do EP, é mais uma daquelas pancadas confessionais autobiográficas em que Grohl se especializou ao longo dos anos. De acordo com uma entrevista ao periódico The Guardian, Grohl escreveu a letra sobre um ex-traficante de heroína que não via há trinta anos. O sentimento de alegria por ver alguém que se recuperou e vive uma vida melhor foi substituído por uma raiva crua e corrosiva. A raiva de ter perdido tanta gente pela droga que ele vendia — inclusive seu melhor amigo. É, de fato, uma das faixas mais raivosas da banda desde “Stacked Actors”.
“Caught in the Echo”, com os gritos de “Do I” repetidos à exaustão e a ponte mais leve antes do solo e do último refrão — um clássico da banda — deixa no ar a sensação de uma faixa construída pra show, um dos grandes triunfos deles. A segunda metade, com “Your Favorite Toy” e “Asking For a Friend”, não chama muita atenção, além de serem bons exemplos do rock de arena que a banda aperfeiçoou ao longo dos anos. A primeira das duas tem um “na na na” desnecessário e levemente chato, longe de memorável.
A bateria do recém-chegado Ilan Rubin deixa uma marca clara nessa transição. Há uma evidente referência ao que Grohl e Hawkins faziam, mas com um toque pessoal e batidas secas na caixa, características do ex-Nine Inch Nails. Se eu for tecer uma crítica mais pontual, é que, com tanta guitarra e um baterista novo, o baixo de Nate Mendel — na minha opinião, um dos mais inventivos e interessantes do rock desde seus anos no Sunny Day Real Estate — ficou um tanto enterrado na mixagem. Ele tá lá, quase imperceptível, mas podia estar mais presente.
Of All People não tirou por completo o gosto ruim das polêmicas em que Grohl se envolveu nos últimos anos, mas é um prenúncio de que coisas melhores estão por vir. No final do mês, o álbum completo Your Favorite Toy chegará aos nossos ouvidos, e poderemos ter algumas conclusões mais concretas. Por enquanto, com este EP, os Foo Fighters se reapresentam ao mundo.
E, sinceramente? Não é nada mal.
Of All People EP – Foo Fighters
Gravadora: RCA Records
Vamos deixar as polêmicas de lado um pouco. Os Foo Fighters estão de volta em grande estilo.
