KIKO DINUCCI – MEDUSA (2026)

KIKO DINUCCI – MEDUSA (2026)
Capa de Medusa -Kiko Dinucci, por Tatiana-Blass

Julho de 2025 foi a última vez que vi Kiko Dinucci apresentar o seu álbum Rastilho antes de ele arrebentá-lo com uma marreta.

Nessa sua mais recente passagem pela Ilha de Santa Catarina, o artista de Guarulhos/SP conversou comigo a respeito do show – ocorrido na Galeria Lama – e também sobre o projeto que viria a seguir em sua carreira. Ainda sem dar nome aos bois (ou à água viva), Kiko me disse que “eu tenho uma guitarra e botei uma sétima corda nela”, o que não é exatamente correto, mas ele explica: “comprei um encordamento de sete cordas aí, em vez de eu fazer uma afinação normal do violão de sete cordas, [como] eu não tinha sete cordas, sete tarraxas – tinha só seis -, então eu botei da sétima até a segunda. Aí, em vez de fazer a afinação do violão de sete cordas, que é o Mi ao Mi igual e depois só tem um Dó ou Si acrescentado, eu pego o Si ou o Dó e desço como se fosse os intervalos de uma afinação normal, entendeu? Se eu bater a posição do [acorde de] Mi, na verdade é um Dó pra baixo. Tá sinistro! Muito sinistro.”

O que Kiko talvez não soubesse – eu mesmo só fiquei sabendo através um amigo depois de contar a ele sobre a entrevista – é que tal método é muito comum na tradição gaúcha do Uruguai e da Argentina (e também do Rio Grande do Sul): chamado de guitarrón, o instrumento serve de base grave para a instrumentação, algo semelhante ao que o violão de sete cordas faz na música brasileira, porém com maior foco nas harmonias do que na baixaria.

No mesmo papo, ele ainda acrescenta: “a ideia é que essa guitarra de sete cordas seja mais ou menos como se o Dino 7 Cordas tivesse entrado para o Passo Torto […] E daí, em volta dessa guitarra, vai ter camas e texturas de guitarras e camadas de guitarras tocadas pelo sampler. Então eu vou pegar alguns guitarristas, vou gravar sessões de improviso de guitarristas que eu gosto, sei lá: Arto Lindsay, Guilherme Held…”

O Arto, infelizmente, acabou não participando de Medusa, álbum finalmente lançado por Kiko no dia 9 de setembro de 2026. Muitas outras ideias compartilhadas comigo naquele dia também ficaram pelo caminho: o uso dessa afinação, por exemplo, foi abandonado, priorizando a utilização de acordes abertos em afinação padrão. Mas o resultado disso não é menos interessante: o mais recente trabalho do artista supera uma simples ópera-noise de guitarras para apresentar um lamaçal de canções mergulhadas em diferentes timbres guitarrísticos, fitas K7 e samplers com sonoridade fantasmagórica.

O título, que remete ao animal aquático sem cérebro nem coração, aborda o sentido mais visceral e animalesco do ser humano: sexo, violência, desorientação. E, para isso, além da sonoridade originalíssima construída por Kiko, Medusa conta com parcerias de composição e instrumentações inesperadas de diversos artistas de diferentes contextos no cenário da música brasileira: coisas a serem esmiuçadas nos próximas parágrafos.

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Renan Bernardi e Kiko Dinucci em entrevista realizada na Galeria Lama em julho de 2025. Foto: Andressa Colbalchini

O álbum começa com “Cão Perdido”, canção que conta com citação à música “Qasida”, de Siba Veloso, e tem participação do genial guitarrista Lello Bezerra (que inclusive já foi parte da banda de Siba) criando uivos caninos em seu instrumento para serem acompanhados de um arranjo assombroso que, assim como todo o trabalho, substitui os espaços geralmente ocupados por baixo e bateria através de preenchimentos sonoros sinistros e beats pontualmente alocados em partes da música.

“Água Viva”, a anti-faixa-título do álbum, tem uma letra de Sophia Chablau que literalmente cita os fantasmas que percorrem Medusa. Além disso, a canção aborda a temática animalesca do sexo e também faz referência ao Sonic Youth, justificando o subtítulo que dei à faixa: se ela não cita formalmente o título do álbum, sintetiza seus temas. Completando o fonograma, os sons experimentais digitais de Podeserdesligado criam a cama assombrólica-futurista que acompanha tal síntese.

Na sequência, “Casca do Olho”, além de repetir a parceria com Podeserdesligado, conta ainda com a participação de Gustavo Infante, uma grande referência na utilização de reprocessamento em fitas K7 para arranjos, algo belamente apresentado em seu álbum Pássaros, de 2021, e em diversos vídeos interessantíssimos publicados em seu Instagram.

“Loira Palmer”, uma das minhas favoritas do álbum, conta com a ótima participação de Crystal Duarte, vocalista da banda Vera Fisher Era Clubber, em mais uma letra que mescla o prazer e a dor do animal humano. A faixa conta ainda com outra grande referência em arranjos reprocessados entre o digital e o analógico: o músico e produtor Cadu Tenório, responsável por álbuns inovadores como Anganga – parceria com Juçara Marçal lançada em 2015 – e Monument for Nothing, de 2020. (Loira Palmer era clubber.)

Se a música anterior traz citação indireta ao cineasta David Lynch, “Claudia, Frota e Eu” me lembrou da releitura do filme Matou A Família e Foi ao Cinema que, originalmente realizado por Júlio Bressane em 1969, em sua segunda versão, feita por Neville D’Almeida em 1991, conta justamente com Cláudia Raia e Alexandre Frota contracenando – jovens e belos – nessa grande narrativa marginal brasileira. Com letra de Negro Leo, a canção me remete ao mais recente trabalho desse artista, o álbum RELA, de 2024, onde, assim como em Medusa, o sexo e a violência são assuntos unidos pela contraditória semelhança entre dor e prazer.  Essa faixa me fez lembrar também de outro trecho de minha conversa com Kiko em 2025, onde ele disse que “[o próximo álbum] não é o tipo de canção que nem o Cortes Curtos [álbum lançado pelo artista em 2017], que é mais hardcore, esse vai ser compondo sambas. As canções estão mais próximas do Rastilho até, mas de outro jeito, não vai remeter ao Rastilho em nada.”

Tanto em “Loira Palmer” como em “Claudia, Frota e Eu” e “Segundo Eterno” – um samba-canção do ano 3000 – o arranjo conta com a participação de Juçara Marçal em vocais fantasmagóricos, onde sua tão característica voz é disfarçada por efeitos ao ponto de ficar irreconhecível, sendo usada mesmo como textura sonora – e não como canto. Aqui, novamente remeto à entrevista de 2025, onde Kiko me revelou que “vai ter uma guitarra gravona fazendo as linhas, os baixos, e eu cantando as canções. Vai ser um negócio que vai lembrar o Passo Torto, mas outra coisa”. Na letra, do próprio Kiko, uma fixação súbita e platônica me fez lembrar o título da faixa instrumental “Tão Rápido Quanto Uma Paixão de Metrô”, lançada por Thiago França (outro membro do Metá Metá) em seu álbum Space Charanga: R.A.N, de 2017.

Com voz e letra de Maria Beraldo, “Cascuda” também conta com a participação de Paulo Kishimoto que, confesso, não sei dizer exatamente o que faz na faixa. Mas o resultado é um arranjo muito bonito, com Kiko tocando a guitarra de uma maneira angular, propondo uma levada de balada-travada como sua marca na canção: a única do álbum onde ele não canta.

“Faca da Palavra” é uma música que já havia sido lançada pela cantora Paola Ribeiro em seu álbum Circus, de 2025. Nessa versão inaugural da canção de Kiko, Paola é acompanhada do violão do artista em destaque. Já aqui, o arranjo é feito através da instrumentação de uma gravação de notas de guitarra tocadas com arco que são reproduzidas através de um sampler, dando esse efeito cortante que serve muitíssimo bem à música.

“Como Foi?”, primeiro e único single de Medusa é, nas precisas palavras de Negro Leo, “um Roberto Carlos do submundo”. Com cordas arranjadas pelo mestre Arthur de Faria, a canção é alinhada ao trabalho de outro craque do reprocessamento em fitas, Lcuas Pires, que foi responsável pela capa do álbum VHS, lançado por Kiko em 2021: o elo perfeito entre Rastilho e Medusa. Na frente dessas camadas, a guitarra de Kiko é gravada desligada, dando um tom caseiro que parece pressionar ainda mais a bela e triste letra de Rômulo Fróes para a emoção nela proposta.

O final lynchiano de “Como Foi?” (quem mais lembrou daquele sinistro episódio oito da terceira temporada de Twin Peaks?) casa muito bem com a última faixa de Medusa: “Fastamagoria IV”, música originalmente composta para a peça de mesmo nome do dramaturgo Felipe Hirsch, que aqui ganha a prometida (novamente, naquela entrevista de 2025) participação do guitarrista Guilherme Held e, além deste, a já citada Paola Ribeiro, criando uma música afro-noise-guitar-jazz que, após o barulho, desagua num samba à capela que dá o epílogo de Medusa: a necessidade da destruição para o nascimento de algo novo. Frase que também remete ao final do álbum Rastilho (justamente o álbum aqui destruído), onde a faixa-título clama: vamos explodir!

Se o retorno ao punk noventista somado ao samba marca a estreia solo de Kiko com o Cortes Curtos em 2017; e o violão de levada única, com gravação analógica em um só take é o que se destaca em Rastilho, de 2020; em Medusa é o assombro, mais do que qualquer referência musical ou instrumental, que serve como guia para este disco. Mais um grande trabalho de Kiko Dinucci – sempre original, estranho, criativo e, ainda assim, extremamente conectado com a sua contemporaneidade – e, com certeza, um dos melhores álbuns de 2026.

10

Gravadora: RISCO

Entre assombros, reações animalescas do ser humano e o mais profundo sentimento das canções, Kiko Dinucci apresenta uma obra bela e fantasmagórica a cerca do sexo, da dor e de diferentes sensações românticas.

Renan Bernardi

Renan Bernardi

Produtor e comunicador cultural. Responsável pela agenda de shows do Inferninho da Bro Cave, em Florianópolis, e editor da revista O Curiosólogo, fundada por ele em 2024. Já colaborou com o Tenho Mais Discos Que Amigos! e a Revista Artemísia, além de atuar em projetos independentes de jornalismo, assessoria e audiovisual.