Boom Boom Kid e a apoteose de uma noite inesquecível em Florianópolis

Boom Boom Kid e a apoteose de uma noite inesquecível em Florianópolis

(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Boom Boom Kid retorna a Florianópolis após 22 anos e transforma o Célula Showcase em uma celebração do punk rock

O quanto você mudou em 19 anos? Esse foi exatamente o tempo entre o meu primeiro show do Boom Boom Kid, em 2007, e o de ontem, dia 25 de julho, no Célula Showcase, aqui em Desterro.

Se você quiser conferir minhas impressões daquela primeira apresentação, já publiquei uma matéria sobre o assunto.

Agora, para a cidade, foram 22 anos de espera. Afinal, o último show de Nekro e sua banda aconteceu em 2004, no Tulipa, sendo esta informação esquecida no mundo e vindo à tona na eloquência do atual show.

A questão é que, depois de tanto tempo, é sempre curioso revisitar coisas que foram extremamente importantes em determinada fase da vida e que seguiram nos acompanhando ao longo dos anos. É inevitável refletir sobre o envelhecimento, sobre os valores que vão sendo moldados da adolescência até a vida adulta e sobre como certas experiências permanecem vivas mesmo depois de quase duas décadas.

Cheguei ao Célula ainda durante a passagem de som das bandas de abertura, o que já ajudou a criar aquele clima característico dos shows do underground.

Após garantir a edição em vinil de Kum Kum, do Fun People, relançada pela Ugly Records em 2025, e tomar o tradicional chope Pilsen de 500 ml da casa, começaram os primeiros acordes da banda responsável por abrir a noite: a Left/Leaving.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

O quarteto fez uma apresentação em que se destacaram as guitarras e o vocal de Joel, um amigo de longa data. O grupo apresenta claras influências do hardcore melódico, remetendo ao cenário dos anos 1990 e do início dos anos 2000, com referências como Fugazi, Lemonheads, Hot Water Music e Samiam.

O repertório foi baseado no álbum homônimo, lançado em 2024, mas a banda também revelou que já está preparando músicas inéditas. Vale lembrar que o grupo completa dez anos de estrada e compõe todas as suas canções em inglês.

Foi um show relativamente curto, mas que cumpriu muito bem o papel de aquecer os motores para a banda seguinte e, claro, para a atração principal da noite. É verdade que a apresentação começou de forma tímida, mas aos poucos foi conquistando o público e trazendo mais pessoas para perto do palco.

Ser a banda de abertura nunca é uma tarefa simples, mas a Left/Leaving deu conta do recado com sobras.

Após um intervalo relativamente curto, foi a vez da segunda banda de abertura subir ao palco: a Bad Chairs (ou “Cadeiras Ruins”, para você que não fala inglês).

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Aliás, o conceito visual do grupo chama a atenção logo de cara. O backdrop exibia diferentes tipos de cadeiras: uma de plástico, uma cadeira de praia, uma tradicional cadeira de madeira de boteco e até uma cadeira de auditório. Uma ideia curiosa, que faz sentido quando pensamos que passamos boa parte da vida adulta sentados justamente em modelos como esses.

Musicalmente, a Bad Chairs segue por um caminho mais pesado. O power trio aposta em composições em português e entrega um hardcore melódico com personalidade, remetendo a nomes como Polara, Noção de Nada, Zander e Molho Negro. As guitarras encorpadas, a cozinha consistente e a entrega intensa tornam o show bastante envolvente.

Durante a apresentação, a banda também revelou que está preparando material inédito para os próximos meses. Depois do que foi apresentado no palco do Célula, fica a expectativa para conferir o que vem por aí.

Quando chegou a hora da atração principal, a frente do palco já estava completamente tomada. Nekro e sua banda entraram em cena sem cerimônia e começaram a despejar um clássico atrás do outro, executados em uma velocidade quase sobre-humana. A energia emanada do palco era simplesmente absurda.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Foram cerca de quarenta músicas, passando por diferentes fases da carreira e sem deixar de lado clássicos absolutos do Boom Boom Kid e do Fun People, como “Masticar”, “Si Pudiera”, “Vientos”, “I Do”, “Déjame Ser Parte de Esta Locura” e “Cuando Se Alinien los Planetas”, entre muitas outras. Um desfile de hinos executados com intensidade do começo ao fim.

O melhor, pelo menos para quem vos escreve, ficou reservado para o bis. Além do tradicional surf de Nekro sobre o público, ainda tivemos a clássica invasão de palco durante “Feliz”. Éramos cerca de trinta pessoas cantando, pulando e dividindo o palco com a banda. Um daqueles momentos que ajudam a explicar por que o Boom Boom Kid dispensa apresentações e permanece como um dos nomes mais importantes da história do punk rock sul-americano.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

O show terminou cedo (ainda não eram 22 horas), permitindo fechar a noite com o tradicional combo completo: música boa, amigos legais, cerveja gelada e boas histórias. Não necessariamente nessa ordem.

Fica também o agradecimento especial à Powerline pela realização da excelente turnê, que ainda passou por São Paulo e Curitiba antes de encerrar com uma sessão dupla em Porto Alegre.

Vida longa ao underground, meus camaradas!

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.