WEEZER – GOLDEN ALBUM(2026)

WEEZER – GOLDEN ALBUM(2026)
(Reprodução)

Depois de décadas atravessando diferentes encarnações do rock alternativo, o Weezer chega ao seu 20º álbum de estúdio, The Golden Álbum, carregando uma contradição que parece cada vez mais confortável para a banda: a capacidade de soar simultaneamente familiar e estranha. Longe de tentar provar que ainda consegue ser uma banda jovem, o grupo parece interessado em trabalhar justamente com aquilo que construiu ao longo dos anos. A produção preserva uma certa despretensão, com foco na sensação de banda tocando no estúdio, sem uma camada excessiva de pós-produção tentando polir cada aresta. É um disco que parece saber onde quer chegar, mas que não tem medo de deixar algumas quinas aparentes pelo caminho.

Essa mistura despretensiosa encontra a essência mais reconhecível do Weezer: riffs pesados convivendo com melodias pop, guitarras saturadas dividindo espaço com linhas mais limpas e canções que conseguem ser simultaneamente engraçadas, sentimentais e estranhamente épicas. E essa é a originalidade de Rivers Cuomo nessa capacidade de tratar o rock’n’roll com uma espécie de reverência debochada, trazendo suas grandes convenções para dentro do mundo nerd, das situações banais e das pequenas esquisitices do cotidiano. Ele adocica o ácido e, quando parece estar prestes a entregar uma grande declaração, frequentemente encontra uma maneira de torná-la humana, engraçada ou inesperadamente fofa.

Musicalmente, essa dualidade aparece com força nas guitarras. A parede de distorção dos riffs da segunda guitarra, mais grave e pesada, contracena com a guitarra de Rivers, criando harmonias, contrapontos e camadas rítmicas que sustentam boa parte do peso característico do álbum. O delicado não tenta competir com o peso, e o peso não apaga o delicado. Eles coexistem, criando uma tensão que deixa o riff mais denso e, justamente por isso, faz a melodia parecer ainda mais evidente. É uma relação quase teatral entre as guitarras: uma constrói o chão, enquanto a outra encontra pequenas frestas para se movimentar.

É também nesse jogo que aparecem as resoluções aparentemente estranhas, aquelas notas que poderiam soar desconfortáveis em outro contexto, mas que no universo do Weezer acabam encontrando um lugar de conforto. Rivers repousa a voz em pontos inesperados, brinca com a expectativa melódica e transforma aquilo que inicialmente parece uma pequena inadequação em assinatura. O efeito é curioso: a música parece saber exatamente onde deveria resolver, mas escolhe repousar alguns centímetros ao lado. E é justamente esse pequeno desvio que dá personalidade às canções.

Essa sensação encontra um paralelo interessante na própria imagem que acompanha o álbum. Rivers aparece pintado de dourado, evocando a figura das estátuas humanas que ocupam as ruas como performers, geralmente cobertas inteiramente por tinta dourada, prata ou bronze, esperando uma reação do público e transformando a própria imobilidade em uma espécie de piada. A escolha funciona quase como uma metáfora para o disco: há algo ostensivamente grandioso na imagem, quase monumental, mas também algo ridículo e cotidiano escondido nela. O dourado promete uma estátua, uma obra definitiva, enquanto a figura continua sendo apenas um sujeito parado na rua esperando alguém jogar uma moeda.

8.0

GOLDEN ALBUM – WEEZER

Gravadora: Warner

A grandiosidade dos decanos do Weezer mesclada ao cotidiano e ao ridiculo escondida na propria imagem.

Ana Carolina Terhorst

Ana Carolina Terhorst

Designer de formação, bagunceira de vocação. Meu lema é bagunçar pra depois encaixotar tudo no lugar. Deito no chão do quarto pra ouvir música pelo chão gelado. Não sou muito técnica mas sei exatamente quando me arrepia. Tenho uma guitarra velha que eu achava que era uma Fender mas é só uma Squier.