Vivemos tempos engraçados.
Tempos engraçados esses em que bandas surgidas no final da primeira década dos anos 2000 começam a ultrapassar os 15 anos de carreira. Mais engraçado ainda é perceber que, enquanto elas envelhecem, a gente envelhece junto.
É nesse contexto que os Selvagens à Procura de Lei chegam a “Pivete”, sexto álbum de estúdio da carreira e, talvez, um dos trabalhos mais singulares de sua discografia.
A história recente dos Selvagens ajuda a entender o disco. Em meados de 2024, depois de mais de uma década e meia de trajetória, a formação original implodiu em uma separação nada amistosa. Gabriel Aragão permaneceu como único integrante fundador e reformulou a banda.
O primeiro resultado dessa nova encarnação foi Y, lançado em maio de 2025. Na época, escrevi aqui no Under Floripa (leia aqui) que o álbum funcionava como “expurgo e recomeço”. E continuo achando que essa é uma boa definição. Era um disco visceral, carregado pelas fraturas deixadas pelo fim de uma relação de tantos anos. Um típico álbum de término, como o próprio Gabriel definiu em alguma entrevista que eu li por aí.
Bom, parece que “Pivete” começa quando esse sentimento termina.
Se Y olhava para dentro, Pivete olha para fora. Ou, mais precisamente, para Fortaleza, cidade natal da banda.
O disco é construído como um trabalho conceitual, acompanhando a trajetória de um personagem marginal inserido no Nordeste urbano. E são 20 faixas nessa empreitada. Um formato pouco afeito aos tempos de streaming, em que todo mundo parece disputar desesperadamente alguns segundos da nossa atenção.
Aqui, ao contrário, existem músicas, interlúdios, reprises, participações e pequenas peças que ajudam a construir uma narrativa maior.
Musicalmente, continua sendo uma banda de rock. Guitarras, peso, momentos mais melódicos, indie, rock alternativo e aquela herança do rock brasileiro que sempre acompanhou os Selvagens estão todos ali. Nada de diferente ao que estamos acostumados a ouvir.
Conheço Fortaleza de uma única viagem, muitos anos atrás. Passei alguns dias vagando pela cidade como um jovem estudante cheio de sonhos, energia e aquela convicção típica dos vinte e poucos anos de que, de alguma forma, seria possível lutar contra o mundo inteiro.
O tempo passa.
A gente envelhece, algumas certezas desaparecem e outras surgem no lugar.
Começamos a entender um pouco mais sobre a vida ou, pelo menos, percebemos que entendemos muito menos do que imaginávamos.
Talvez por isso tenha achado interessante encontrar uma Fortaleza diferente daquela que ficou guardada na minha memória. Em Pivete, ela não aparece como cartão-postal.
Pivete não é um disco perfeito. Também não é uma reinvenção completa dos Selvagens à Procura de Lei. Em vários momentos ele permanece dentro daquele território do “não tão novo” rock nacional que conhecemos bastante bem.
A banda sobreviveu à própria crise, mudou de formação e chegou ao sexto disco olhando novamente para casa. E, para uma banda que poderia facilmente escolher o conforto da nostalgia depois de mais de 15 anos de estrada, não deixa de ser uma bela maneira de continuar envelhecendo.
Assim como todos nós.
Pivete – Selvagens à Procura de Lei
Gravadora: Orangeira Music
O nome da banda é "de Lei". Eu sempre escrevi "da Lei". Mas pivete é um discaço!
