Naimaculada – Acromatopsia EP (2026)

Naimaculada – Acromatopsia EP (2026)
(Reprodução)

O álbum sem cor de Naimaculada

A banda Naimaculada lança neste mês o EP Acromatopsia, trabalho que investiga como as pessoas enxergam e se relacionam com a sociedade, o tempo e o cotidiano. O título faz referência à acromatopsia, um distúrbio visual raro que impede a percepção das cores, fazendo com que o mundo seja enxergado apenas em tons de preto, branco e cinza.

Os temas são pesados e polêmicos, questionando a falta de união nos movimentos coletivos, a selva de pedra que se constrói à nossa volta e sua constante falha em relação às responsabilidades sociais e ambientais. A questão racial também aparece no trabalho, especialmente por se tratar de uma banda formada por músicos negros, indígenas e brancos. “O Que É Que Será?” e “Terminal Bandeira” deixam esse debate bastante evidente.

A inspiração veio de São Paulo. O vocalista Ricardo Paes explica que o título nasceu enquanto a banda caminhava pela capital paulista e enxergava tudo “diferente, mas seguindo um padrão”: uma paisagem monocromática e distópica.

Musicalmente, os intervalos melódicos dão ao trabalho uma aproximação entre jazz e rock alternativo, enquanto a psicodelia aparece com força em “Shangrilá”. A colaboração entre as guitarras de Samuel Xavier e Duda Freitas, a bateria de Pietro Benedan, que assume o protagonismo em alguns momentos, e o baixo de Luiz Viegas cria a base para a alternância entre os vocais.

“Shangrilá” merece um destaque especial. O solo de guitarra que começa aos 2:54 prepara o terreno para a entrada do vocal feminino macio e delicado de Nabru, antes do fechamento matador de saxofone e suona. A faixa funciona como um verdadeiro arremate para o EP.

Outro elemento que chama atenção é o fato de as faixas terem sido gravadas na China, na cidade de Shijiazhuang, incorporando instrumentos tradicionais chineses tocados por artistas locais. Os sopros foram selecionados e coordenados pelo saxofonista da banda, Gabriel Gadelha.

Entre eles está a suona, instrumento de sopro tradicional chinês tocado por Wang Zimu, conhecido por seu timbre estridente, agudo e altamente expressivo. O erhu, tocado por Yu Changyang, também participa dos arranjos. Embora seja um instrumento de cordas friccionadas — uma espécie de violino chinês de duas cordas —, ele contribui para a atmosfera oriental do trabalho.

As quatro faixas contam ainda com participações especiais que dão características singulares a cada composição. “O Pecado Tem Medo” traz BNegão e aposta em um surto elétrico e revoltado que remete à sua conhecida parceria com os Seletores de Frequência. “Shangrilá” conta com Nabru; “Terminal Bandeira” traz a guitarra de Kiko Dinucci; e “O Que É Que Será?” apresenta Sol, da banda Ímola, dividindo os vocais com Ricardo Paes.

Entre questões sociais, experimentações sonoras e uma mistura pouco óbvia de referências brasileiras e orientais, Acromatopsia encontra justamente na diversidade de seus elementos uma de suas principais forças. Um EP que olha para um mundo monocromático, mas se recusa a produzir uma música igualmente sem cor.

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Acromatopsia EP – Naimaculada

Gravadora: Deck

Entre rock alternativo, psicodelia e influências orientais, a Naimaculada transforma questões sociais em um EP diverso, experimental e cheio de personalidade.

Ana Carolina Terhorst

Ana Carolina Terhorst

Designer de formação, bagunceira de vocação. Meu lema é bagunçar pra depois encaixotar tudo no lugar. Deito no chão do quarto pra ouvir música pelo chão gelado. Não sou muito técnica mas sei exatamente quando me arrepia. Tenho uma guitarra velha que eu achava que era uma Fender mas é só uma Squier.