O álbum sem cor de Naimaculada
A banda Naimaculada lança neste mês o EP Acromatopsia, trabalho que investiga como as pessoas enxergam e se relacionam com a sociedade, o tempo e o cotidiano. O título faz referência à acromatopsia, um distúrbio visual raro que impede a percepção das cores, fazendo com que o mundo seja enxergado apenas em tons de preto, branco e cinza.
Os temas são pesados e polêmicos, questionando a falta de união nos movimentos coletivos, a selva de pedra que se constrói à nossa volta e sua constante falha em relação às responsabilidades sociais e ambientais. A questão racial também aparece no trabalho, especialmente por se tratar de uma banda formada por músicos negros, indígenas e brancos. “O Que É Que Será?” e “Terminal Bandeira” deixam esse debate bastante evidente.
A inspiração veio de São Paulo. O vocalista Ricardo Paes explica que o título nasceu enquanto a banda caminhava pela capital paulista e enxergava tudo “diferente, mas seguindo um padrão”: uma paisagem monocromática e distópica.
Musicalmente, os intervalos melódicos dão ao trabalho uma aproximação entre jazz e rock alternativo, enquanto a psicodelia aparece com força em “Shangrilá”. A colaboração entre as guitarras de Samuel Xavier e Duda Freitas, a bateria de Pietro Benedan, que assume o protagonismo em alguns momentos, e o baixo de Luiz Viegas cria a base para a alternância entre os vocais.
“Shangrilá” merece um destaque especial. O solo de guitarra que começa aos 2:54 prepara o terreno para a entrada do vocal feminino macio e delicado de Nabru, antes do fechamento matador de saxofone e suona. A faixa funciona como um verdadeiro arremate para o EP.
Outro elemento que chama atenção é o fato de as faixas terem sido gravadas na China, na cidade de Shijiazhuang, incorporando instrumentos tradicionais chineses tocados por artistas locais. Os sopros foram selecionados e coordenados pelo saxofonista da banda, Gabriel Gadelha.
Entre eles está a suona, instrumento de sopro tradicional chinês tocado por Wang Zimu, conhecido por seu timbre estridente, agudo e altamente expressivo. O erhu, tocado por Yu Changyang, também participa dos arranjos. Embora seja um instrumento de cordas friccionadas — uma espécie de violino chinês de duas cordas —, ele contribui para a atmosfera oriental do trabalho.
As quatro faixas contam ainda com participações especiais que dão características singulares a cada composição. “O Pecado Tem Medo” traz BNegão e aposta em um surto elétrico e revoltado que remete à sua conhecida parceria com os Seletores de Frequência. “Shangrilá” conta com Nabru; “Terminal Bandeira” traz a guitarra de Kiko Dinucci; e “O Que É Que Será?” apresenta Sol, da banda Ímola, dividindo os vocais com Ricardo Paes.
Entre questões sociais, experimentações sonoras e uma mistura pouco óbvia de referências brasileiras e orientais, Acromatopsia encontra justamente na diversidade de seus elementos uma de suas principais forças. Um EP que olha para um mundo monocromático, mas se recusa a produzir uma música igualmente sem cor.
Acromatopsia EP – Naimaculada
Gravadora: Deck
Entre rock alternativo, psicodelia e influências orientais, a Naimaculada transforma questões sociais em um EP diverso, experimental e cheio de personalidade.
