Chegando ao seu segundo álbum da carreira solo, a musicista e compositora mineira Lúcia Vulcano, traz no seu DNA a crueza visceral do underground para “Chucra e Sensível” o Álbum sucessor de “Vim, Vi e Me Fudi”, de 2024. Composto entre 2025 e 2026.
Sua voz carrega a mensagem hora potente como uma reclamação afirmativa, um berro sobre bandeiras e filosofia do nosso dia-a-dia, hora doce, hora debochado e sincero, reconhecendo aos próprios sentimentos e questões da nossa banalidade humana que chama atenção logo de cara e se intensifica na terceira faixa “Um Dia Eu Crio Juízo”, com ápice de aumento de velocidade e explosão ao final da faixa.
Entre os riffs limpos e melódicos seguidos de sujeira, com supersaturação e overdrive nas guitarras brincando e groovando junto com a voz da Lúcia, e se isso é o que acontece entre vocal e guitarras, o efeito do baixo é o contrário disso, ele se destaca com seu acompanhamento denso seguindo o andamento da bateria. A bateria que tem em algumas músicas uma pegada punk contínua com viradas geniais, e em outras os tempos mais complexos e quebrados em trocas de compasso, sem contar os diversos stops e retornos progressivos desse jeito os dois formam uma bela dupla rítmica, dando andamento às melodias, como na faixa chamada “Monstro”.
A pegada super punk em “O Demônio de Minas Gerais”, mantendo o ritmo frenético com viradas interessantíssimas mesmo em um tempo quadrado, o que chama atenção é que na master os instrumentos aparecem juntos em uma massa sonora mas cada um com o seu destaque, e se colocar a atenção em um ou outro ou em todos juntos, continua sendo um super arranjo!
A forma com que a Lúcia canta, forte, potente, gritado e declamado e a alternância de alturas e sensações nas passagens de diferentes blocos de riffs, sejam no massarocado sonoro da saturação ou no efeito melódico dos chorus e delays, uma experiência ondulatória se cria, fazendo os ouvidos e as percepções imagéticas acompanharem essas alternâncias na música, que imita a vida. E essa dualidade é o que preserva a linguagem desenvolvida por Lúcia em seu primeiro álbum, mas amplia o espaço dado às melodias e às tensões entre agressividade e vulnerabilidade.
Essa dualidade surge de um processo de composição que a artista descreve menos como um ritual de inspiração, e mais como algo parte de sua própria rotina. “Eu penso em compor, sento com minha guitarra e escrevo uma música. Registro porcamente com o pouco equipamento que tenho e vou trabalhando nela a partir daí. É um processo mundano, quase como arrumar a casa, tomar banho e se alimentar. Precisa ser feito e eu faço”, conta.
Acredito que o momento mais inusitado seja ouvir a última faixa do EP, que consiste em uma versão adaptada da música “Eu sei de cor” canção composta por Danillo Dávilla, Elcio di Carvalho, Lari Ferreira e Junior Pepato e consagrada na voz de Marília Mendonça, que ganha no disco uma releitura concebida por Thiago Machado (Porquinho); E que a Lúcia interpreta com uma originalidade vocal magistral.
Acho que no final “Chucra e Sensível” é isso, a realidade nua e crua, punk do dia a dia, a visceralidade ondulatória e transitória entre o que é bonito e doce e o que é grito e posicionamento.
O álbum foi gravado entre junho e julho de 2026 no Acústico Motor, em Belo Horizonte, com produção de Rafael Dutra, parceiro de trabalho de Lúcia desde 2018, quando colaboraram na gravação do primeiro disco do power trio pata, em que ela atuava como guitarrista e vocalista.
CHUCRA E SENSÍVEL – LUCIA VULCANO
Gravadora: Independente
A dualidade entre os dois estados emocionais, traz um belo trabalho da artista Lucia Vulcano.
