BOOGARINS E GOL DE GOLEIRO NO DE RAIZ: 10 ANOS DE MANUAL E A PROMESSA DO NÚMERO 1

BOOGARINS E GOL DE GOLEIRO NO DE RAIZ: 10 ANOS DE MANUAL E A PROMESSA DO NÚMERO 1

Boogarins no De Raiz. Foto: Felipe Maciel

“A maior demonstração de propagação do ser é o eco” é a primeira frase anunciada em Manual, segundo álbum da banda Boogarins, lançado em 2015. Presente da faixa “Avalanche”, que segue a introdutória instrumental “Truques”, a frase mencionada prova-se em 2026, onde as canções de Manual vêm sendo cantadas – ecoadas – por públicos do Brasil inteiro através da turnê comemorativa que a banda goiana vem promovendo para comemorar os 10 anos de lançamento do álbum.

Ainda em 2025, quando Manual ganhou uma versão deluxe, também comemorativa da primeira década do álbum, escrevi o que foi meu primeiro texto para o Under Floripa, apresentando ali os ecos da banda em mim, que a acompanhando desde que vi o clipe de “Lucifernandis”, do debut As Plantas Que Curem (2013), passar no BRZ (aquele canal que entrou na parabólica no lugar da MTV, quando esta fechou).

E agora, 23 outubro de 2026, véspera de mais uma eleição extremamente tensa, a banda realizou o show que celebra Manual em Florianópolis, ocorrido no De Raiz.

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Dinho e Fefel (Boogarins) no De Raiz, 23.10.26. Foto: Felipe Maciel

Na abertura, a banda florianopolitana gol de goleiro foi quem deu o rola-a-bola para a noite, com uma apresentação recheada dessas referências futebolísticas. A começar pela presença de João Pretto (vocalista e guitarrista da Exclusive Os Cabides) vestido de árbitro surgindo no palco com um apito e uma bola debaixo dos braços para anunciar o início do show.

João, que nem sempre consegue se apresentar junto da banda por seus compromissos cabideiros, fechou a formação completa da gol de goleiro nesta noite com uma terceira guitarra que cria a parede de riffs+acordes exata para acompanhar as canções de Caio, vocalista e guitarrista, que transitam entre referências de post-punk, shoegaze e dream pop, mas com muito do humor e da sensibilidade particular que envolve os artistas do selinho, que inclusive será responsável pelo lançamento do primeiro EP da banda. Eduardo Possa (o Duds, também da Exclusive os Cabides) é que está produzindo o trabalho e me disse que “uns três quintos do EP estão gravados”, e que por isso não tem previsão de sair. No mesmo papo, Caio me adiantou que o nome do projeto será 1, outra referência futebolística e uma homenagem aos heroicos goleiros.

Dentro do bom repertório, canções como “Coração” e “Casa Verde”, ambas lançadas por Caio com o nome de Dante de Niro, sempre se destacam nas apresentações, o que não foi diferente no De Raiz. Ao fim do show, em clima de jogando-em-casa, a banda começa uma jam session divertidíssima – com direito a melodia do jingle do Lula rolando no meio do improviso – depois emendada por “Peixe Beta”, versão da banda Sonho Estranho para “Tugboat” do Galaxie 500, com um refrão de outra canção goleira que diz “eu não sou ninguém”. E fim de jogo.

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gol de goleiro no De Raiz, 23.10.26. Foto: Felipe Maciel

Com discotecagem de Gerson Ferraz e Antônio dos Anjos (mais um da Exclusive os Cabides) rolando nos intervalos, após alguns minutos Dinho, Benke, Fefel e Ynaiã – os quatro Boogarins – sobem ao palco e desfilam, na mesma ordem do álbum, as canções de Manual.

Como também escrevi no texto sobre os 10 anos desse álbum, as gravações de Manual marcam a entrada de Ynaiã nas baquetas da banda, o que representa 11 anos dessa formação azeitadíssima. Com plateia acompanhando em coro – em eco, em propagação – pérolas como a própria “Avalhanche”, além de “6000 Dias”, “Benzin” e “Mário de Andrade / Selvagem”, quase sempre em versões estendidas pelos improvisos da banda, tendo a derradeira e maravilhosa “Auchma” chegado até num momento dub.

No bis, Fefel, que até então só tinha tocado seu baixo elétrico, assume o sintetizador para uma jam que desemboca em “Bacuri”, faixa-título do mais recente trabalho da banda, que conta com os graves vocais do baterista Ynaiã. Na sequência, “Sombra ou Dúvida”, quase-faixa-título do álbum Sombrou Dúvida (2019), entra antes da última: “FOI MAL”, que cumpriu seu papel de grande hit do indie brasileiro e explodiu o público em catarse final.

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Benke (Boogarins) no De Raiz, 23.10.26. Foto: Felipe Maciel

Por mais que caminhos conhecidos da história do rock possam explicar a sonoridade dos Boogarins, algo sempre me salta como diferencial quando os escuto e assisto. As referências ao Clube da Esquina, que escapam das derivações para apresentarem-se sempre renovadas no som do grupo, também se somam à um jeito muito especial que a banda tem de colar melodia e groove, onde as ótimas letras chegam como palavras dançantes embaladas por um caldo grosso de guitarras, baixo, bateria e efeitos diversos. Cheguei a comentar com um amigo sobre uma aproximação com algo de soul music, até que chegamos ao nome de Hyldon, craque das canções balançadas que misturavam “Guitarras, Violinos E Instrumentos de Samba”. Parece haver uma intenção em sujeitos como esses – sujeitos brasileiros – que acaba recriando gêneros à sua maneira através de um sentir muito subjetivo da música, o que acaba ressoando nas composições e arranjos. “A maior demonstração de propagação do ser é o eco”.

São esses sujeitos brasileiros que nos servem de referência para buscarmos criar algo novo, nosso e bonito, a partir de tudo aquilo que nos chega. Que bom tê-los.

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Boogarins no De Raiz, 23.10.26. Foto: Felipe Maciel

Renan Bernardi

Renan Bernardi

Produtor e comunicador cultural. Responsável pela agenda de shows do Inferninho da Bro Cave, em Florianópolis, e editor da revista O Curiosólogo, fundada por ele em 2024. Já colaborou com o Tenho Mais Discos Que Amigos! e a Revista Artemísia, além de atuar em projetos independentes de jornalismo, assessoria e audiovisual.