Na estreia da TOUR 26, banda gaúcha retorna em formação quase original e entrega um show caótico, nostálgico e cheio de vida em São Paulo.
Estive presente em um momento marcante para os fãs da Cachorro Grande. Fui entendendo isso aos poucos, ao longo do show desses homens cheios de energia caótica e de uma bagagem perceptível em cada partícula de suas performances.
Ontem, 17 de abril, o Cine Joia foi palco do primeiro show da “TOUR 26”, turnê que celebra os vinte e seis anos de estrada da banda gaúcha. A apresentação também marcou a volta dos caras, em formação praticamente original, após um hiato iniciado em 2019 — com um breve retorno em alguns shows em 2022 — até o ano passado.
Me envergonho um pouco em dizer que nunca havia me interessado em escutar a Cachorro Grande nos meus anos de clipes na MTV, todos os dias depois da escola. Mas sempre é tempo de conhecer, e ontem foi o dia. Talvez por isso eu não conseguisse entender, de início, a grandeza daquele momento para os fãs. Pelo menos até ouvir a banda ao vivo. Mas falo sobre isso mais adiante.
Primeiro, é preciso dizer que, às 21h, o cantor Matheus Torres — vice-campeão da primeira edição do programa Estrela da Casa — fez o show de abertura. Apesar de não conhecê-lo até a noite passada (foi um dia de primeiras vezes), gostei muito do som dele e de sua banda, que está ali entre o pop e o rock alternativo. Com letras melódicas e introspectivas, vibe existencial e uma voz forte que chama atenção, ele foi acompanhado por fãs que cantavam e curtiam bastante.

Vou dividir algo que sempre acontece comigo quando estou em festivais ou em shows de artistas que não conheço muito ou não costumo ouvir, como foi esse caso. Observo as pessoas cantando e interagindo e fico pensando nos pequenos microcosmos que se formam nesses ambientes. É muito bonito ver a vida acontecendo ali: gente que sabe as letras, levanta as mãos, grita; e você nem fazia ideia de que aquilo existia até aquele momento. Não sei se me faço entender, porque é mais sentido do que propriamente explicável.
Foi perto das 22h que o ambiente começou a ficar realmente “Cachorro Grande feelings”. Uma infinidade de homens barbudos — alguns cabeludos também, como meu amigo e redator Alexandre Aimbiré —, cerveja por todos os lados, mulheres estilosas, galera mais velha e uma quantidade expressiva de roupas pretas, o que já é esperado num show de rock. Voltei com minha pequena empanada de pernil e me enfiei num cantinho, perguntando-me o que se sucederia ali.
Alexandre me explicou que a banda estava retornando após vários anos e que eu provavelmente iria me divertir naquela noite. Spoiler: ele não estava errado.
Os caras da Cachorro Grande já chegaram no estardalhaço. Animação no pico, Beto Bruno segurando uma garrafa de vinho, uma confusão ótima no palco.
A música de abertura foi claramente um hit, “Você não sabe o que perdeu”. O povo começou a cantar com eles, a pista fervendo, celulares em riste e a música contagiante. E foi aí que descobri algo que eu nem sabia que não esperava presenciar ali — no melhor sentido. Beto Bruno começou a rodopiar pelo palco, com seu cinto aberto e pendurado na calça enquanto os outros integrantes, engajadíssimos, também biscoitavam bastante. Também fiz a leitura labial dele pedindo vodca para alguém da produção enquanto segurava sua garrafa, o que achei hilário. Eles realmente estavam se jogando, com uma sede de palco que dava para sentir de longe. Performáticos e enérgicos, foram mandando sucessos atrás de sucessos, como “Bom brasileiro”, “Hey Amigo!”, “Lunático”, entre outros.

Assisti tudo aquilo com uma nostalgia estranha, porque apesar de não ter acompanhado os caras na minha adolescência, lembrava do rostinho deles há anos atrás e via naqueles homens os mesmo garotos dos tempos da MTV. Estava tudo ali, na energia colocada em cada acorde, batida, voz e entonação — nas boinas também! Além disso, idade não significava nada para eles, que pulavam e se movimentavam o tempo todo no palco. E era realmente nostálgico, a música deles é assim e explora letras sobre amizade, amores e tempos de estrada, num estilo que meu amigo Alexandre descreveu muito bem: influências principalmente do britpop, mas com personalidade única. Sim, eles têm um jeitinho gaúcho e timbres específicos que norteiam todas as músicas. Eu senti muita saudade do rock brasileiro que ouvi nos clipes de anos atrás. Até dos que eu não ouvia, como no caso deles.
Outra coisa que rolou foi uma troca de papéis entre os integrantes. Bruno dava uns rolês pelo palco e até fora dele enquanto Gabriel Azambuja, o Boizinho (bateria) assumia o vocal e alguém cuidava da bateria. Ele cantou duas vezes, uma delas com o tambor da bateria. Marcelo Gross (guitarra) também cantou algumas músicas. Bruno seguia se “jogando” no chão, interagindo silenciosamente com o público, gesticulando, equilibrando a taça de vodca na cabeça, entre outras intervenções. Gross chutou o pau da barraca e acendeu um cigarro no palco e, em dado momento, aquela insanidade toda já me parecia muito natural. Uma loucura muito boa, tanto que senti saudade do que não vivi, como disse o poeta Neymar. Aquela energia era bem divertida. Os dois integrantes que não fazem parte da formação original, Eduardo Barreto (baixo) e o tecladista também performaram muito bem e pareciam fazer parte daquele show de acontecimentos inusitados há muito tempo.
Para acompanhar um dos maiores hits da banda, a balada “Sinceramente”, o Matheus voltou ao palco para dividir o microfone com o Beto Bruno. E uma coisa que achei muito fofa é que aquele homem totalmente ligado no 220 também foi carinhoso com os integrantes o tempo inteiro. Era uma distribuição danada de beijos e abraços inesperados, e achei isso incrível. Foi assim com o Matheus. Os dois cantaram abraçadinhos revezando o microfone.
O show foi memorável e uma das coisas que mais me faz feliz na Under Floripa é justamente ampliar meu repertório musical. Beto Bruno chegou a comentar que São Paulo foi sempre muito acolhedora com eles e que devia ter gente ali desde a época dos shows na Rua Augusta. E sim, teve uma galera que bateu no peito confirmando.

“Sexperienced” e “Lunático” fecharam o show numa energia tão alta que, após a despedida e saída da banda, os fãs pediram por mais. Alexandre até comentou que eles não voltariam ao palco porque já tinha até um moço guardando a guitarra. E foi quando eles voltaram risonhos e assumiram novamente suas posições. Tocaram um cover de “My Generation” — confesso que adorei a voz em inglês do Beto Bruno! —, o Beto saiu antes do restante que ainda fez uma jam antes de deixarem o palco, desta vez definitivamente.
Se eu pudesse enquadrar esse show em uma das músicas, escolheria: As próximas horas serão muito boas. Porque foi exatamente isso.
Foi muito bonito ver toda aquela atmosfera de rock, regionalidade (como a aplicação de “tu” nas músicas), os integrantes da banda claramente confortáveis em estar ali, valorizando ao máximo os fãs e aquele momento… e um pequeno universo particular existindo de novo.
Honestamente, a Cachorro Grande acertou no pulo quando nos encontrou no Cine Joia.



