Tudo em seu devido lugar: toe no Cine Joia

Tudo em seu devido lugar: toe no Cine Joia

(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Banda japonesa transformou o Cine Joia em uma celebração coletiva de precisão e conexão com o público paulistano.

Confesso que conhecia muito pouco a respeito da toe antes do anúncio do show deles aqui em São Paulo. Os ingressos para o primeiro show esgotaram-se em instantes. Um show extra, no dia seguinte, foi anunciado e também deu sold out quase que no mesmo minuto em que as vendas foram abertas.

Obviamente, isso despertou minha curiosidade. Uma banda instrumental japonesa que inspira esse tipo de devoção merece minha atenção. Uma amiga disse que eu certamente conhecia “Goodbye” e me encaminhou a versão com os vocais de Asako Toki. Sim, eu a conhecia. Dali em diante, eu mergulhei de cabeça na discografia da banda.

Passaram-se algumas semanas e eu estava no mezanino do Cine Joia, com a câmera na mão e esperando a banda entrar no palco. Posto um story e minha inbox se enche de pessoas que tinham assistido ao show no dia anterior e de outras que não conseguiram ingresso — num misto de inveja e alegria por eu estar ali.

Fazia muito tempo que eu não via a casa tão cheia. Na quinta, dia do primeiro show, a fila para entrar na casa ainda dobrava a esquina às 21h00, horário previsto para o início do show. Ontem, dia da apresentação extra, as galerias no mezanino estavam completamente ocupadas e a pista estava tão abarrotada quanto as pedaleiras que estavam no palco. Tinha até gente do lado de fora, procurando o palco por entre cabeças através da porta.

Enfim, a banda subiu ao palco com um pequeno atraso, sob aplausos tímidos.

O que se seguiu foi tudo menos tímido.

Tudo em seu devido lugar: toe no Cine Joia 2
(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Dispostos em um semicírculo, o quarteto — acompanhado do tecladista Nakamura Keisaku — tocava como se estivesse numa jam session, mas com a precisão suíça. O guitarrista Hirokazu Yamazaki muitas vezes ficava de costas para o público, de frente para o baterista Kashikura Takashi, numa aparente sinergia, como se ambos estivessem conduzindo a música: um levando o ritmo, o outro, a harmonia.

Da mesma forma como vi poucas vezes o Cine Joia tão cheio — talvez a última vez tenha sido o show da DIIV em 2024, que também foi produzido pela Balaclava —, poucas vezes eu ouvi uma ovação tão grande na casa como as que presenciei com a toe no palco. Os aplausos eram ensurdecedores. A cada virada da bateria, a cada solo, o público respondia com mais palmas e mais gritos.

Cada palma foi merecida. Cada grito encontrou sua resposta.

Kashikura provavelmente é um dos melhores bateristas que já vi ao vivo. Precisão, potência e presença parecem ser as três palavras que definem sua performance. Cada batida, cada virada, cada detalhe era colocado exatamente onde deveria estar. Apesar de ter um protagonismo maior nas reações do público, é claro que não existe protagonista na banda. Naquele semicírculo, cada um alternava seu momento de brilhar e conduzir a música. Tudo era perfeitamente colocado. Nada sobrava. Nada faltava. Nenhuma nota ficava fora do lugar. Cada música fluía. O público respirava cada nota.

A toe consegue fazer algo que é extremamente técnico, complexo e difícil parecer fácil.

Chegando perto do fim, Yamazaki, que até aquele momento só havia usado o microfone para cantar algumas poucas canções, agradeceu ao público em português e depois em japonês. Em seguida, em inglês, pediu desculpas por não falar bem o nosso idioma e disse que, apesar da distância entre Tóquio e São Paulo, sentia uma conexão genuína com a cidade e com os presentes naquela noite.

Novamente, a banda foi ovacionada. Houve até cantos de “olê olê olá, toe toe”.

Saí do show entendendo um pouco melhor os dois sold outs.

Entrei no metrô com uma nova banda favorita para tocar nos fones durante minhas viagens pelo subsolo paulistano.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.