Chapterhouse (Reading, UK)

Chapterhouse (Reading, UK)

(Reprodução)

Alguns discos a gente não só ouve, a gente aprende a ouvir.

Comprei Whirlpool, álbum seminal da Chapterhouse, numa feira de discos na Rua Augusta em 2018. Era uma dessas manhãs de sábado em que meu amigo Matheus Diogo e eu acordamos cedo e, após o café da manhã dos campeões no BH Lanches — uma coxinha, uma coquinha gelada e um Marlboro Vermelho — passamos um número indeterminado de horas nos perdendo entre os acervos de muitos expositores. Claro, gastei mais dinheiro do que devia, mas não importa. De tarde, fomos até o apartamento do Matheus e colocamos os frutos do nosso garimpo para tocar.

A primeira vez que coloquei esse vinil, por engano, comecei pelo lado B. A agulha caiu direto em “Falling Down”. Pronto. Desde então, para mim, Whirlpool começa ali: naquele pulso repetitivo, quase hipnótico, que ancora tudo antes de o disco se dissolver em camadas e mais camadas de som.

Quando “Pearl” aparece depois — com a participação luminosa da Rachel Goswell —, o efeito é outro. Não é só uma das músicas mais bonitas do disco. É quase uma recompensa, uma abertura no meio da névoa.

Algumas bandas parecem grandes demais para serem “descobertas”, mas que, por algum motivo torto da história, ficaram meio escondidas. A Chapterhouse é exatamente isso: uma peça fundamental da “cena que celebrava a si mesma” — e, ainda assim, meio segredo compartilhado entre iniciados.

Formada no fim dos anos 80 em Reading, no mesmo circuito que revelou Slowdive, Ride e Lush, a banda ajudou a moldar o que a gente convencionou chamar de shoegaze — guitarras em camadas, vocais etéreos, aquela sensação de música que não te atinge de frente, mas te envolve inteiro. Só que, no meio dessa névoa, a Chapterhouse sempre teve algo a mais: pulso. Groove. Um pé firme na pista de dança que diferencia o som deles de boa parte dos contemporâneos.

O ponto alto dessa história é Whirlpool, lançado em 1991 — o mesmo ano de Loveless, o que ajuda a explicar por que ele acabou meio ofuscado na época. Só que o tempo fez justiça. Hoje, Whirlpool é daqueles discos que não só envelhecem bem — eles parecem crescer com os anos.

Talvez seja isso que faça a Chapterhouse tão especial: eles vivem nesse equilíbrio entre densidade e leveza, entre transe e melodia. Um ponto perdido entre o shoegaze que estava nascendo, os beats dançantes do Madchester e a invasão britpop que viria alguns anos depois. Nunca foram a banda mais famosa da cena, mas são daquelas que, quando você entende, fica difícil imaginar o todo sem eles.

E tem mais: isso tudo não é só passado. A banda vem ao Brasil para um show único no Cine Joia, no dia 29 de setembro, com abertura da terraplana.

Se você ainda não comprou ingresso, talvez seja hora de corrigir isso. Tem shows que são só shows. E tem aqueles que parecem uma chance meio improvável de ver a história a olhos vistos — do jeito certo: alta, densa e, de preferência, começando pelo “lado B”.

Serviço:

  • Chapterhouse – Whirlpool 35

    São Paulo – SP

  • Abertura com: Terraplana
  • Data: 29 de setembro, 2026
  • Local: Cine Jóia
  • Endereço: Praça Carlos Gomes, 82 – Liberdade, São Paulo – SP
  • Abertura das Portas: 19h00
  • Censura: 16 Anos
  • Garanta seu Ingresso
Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.