Sair de São Luís do Maranhão para atravessar o Brasil fazendo música pesada de forma independente está longe de ser simples. Para a Basttardz, porém, a estrada virou parte fundamental de uma trajetória construída na base da persistência, das conexões com o underground e, principalmente, da vontade de fazer barulho muito além das fronteiras do Nordeste.
Agora, a banda chega a um novo capítulo com Tramas & Traumas, terceiro trabalho de estúdio e, segundo os próprios integrantes, o registro em que finalmente conseguiram consolidar uma identidade que vinha sendo construída nos lançamentos anteriores. Hardcore, punk e metal continuam formando a fundação, mas desta vez aparecem conectados por uma proposta mais coesa, tanto musical quanto conceitualmente.
Às vésperas de retornar a Florianópolis, depois da passagem pela cidade em 2025, a Basttardz conversou com o Under Floripa sobre o novo disco, as contradições do Brasil contemporâneo, a experiência de viver na estrada e a importância da rede que mantém o underground funcionando.
Um disco que consolida uma identidade
Under Floripa: Tramas & Traumas é o terceiro trabalho de estúdio da Basttardz. O que mudou na banda entre esse disco e os trabalhos anteriores?
Basttardz: A gente sente que esse é o trabalho em que a Basttardz conseguiu amadurecer mais a própria identidade. Nos discos anteriores, ainda estávamos muito preocupados em apresentar a banda, experimentar sonoridades e entender até onde poderíamos levar essa mistura de hardcore, punk, metal e outras influências que fazem parte da nossa formação.
Em Tramas & Traumas, já partimos de uma identidade muito mais consolidada. Foi um processo mais consciente, tanto musicalmente quanto na construção das letras.
Também existe uma evolução na forma como contamos essas histórias. O disco foi pensado como uma narrativa, quase como um retrato desse processo de colapso emocional e social que vivemos individual e coletivamente. Conseguimos conectar melhor as músicas e fazer com que o álbum tivesse uma unidade, em vez de serem apenas faixas isoladas.
A mudança ajuda a entender Tramas & Traumas menos como uma coleção de músicas e mais como um álbum pensado para funcionar em conjunto. A violência sonora permanece, mas agora existe um fio condutor mais evidente entre aquilo que a banda toca, observa e pretende discutir.

As tramas que nos cercam e os traumas que ficam
Under Floripa: O título sugere uma relação entre problemas sociais, experiências pessoais e feridas coletivas. O que esse nome representa para vocês?
Basttardz: Tramas & Traumas representa justamente essa ideia de que aquilo que acontece individualmente está muito conectado ao que acontece ao nosso redor. A gente vive cercado por relações, estruturas sociais, pressões, desigualdades, violência, consumo e uma série de contradições que acabam deixando marcas. Ao mesmo tempo, também carregamos nossas próprias experiências, frustrações, medos e conflitos.
A “trama” está nesse emaranhado de relações e acontecimentos que nos atravessam, enquanto os “traumas” são as marcas que ficam desse processo. O disco tenta olhar para esse lugar em que o pessoal e o coletivo se encontram.
Falamos de saúde mental, alienação, desigualdade, religião, consumo, violência e também da dificuldade de simplesmente existir em uma sociedade que está o tempo inteiro nos pressionando a produzir, consumir e performar.
É justamente nessa colisão entre indivíduo e sociedade que está boa parte da força conceitual do álbum. A Basttardz não abandona a agressividade característica do hardcore, mas direciona essa energia para questões que ultrapassam o universo particular da banda.
O Brasil como matéria-prima
Under Floripa: Quais acontecimentos, experiências ou contradições do Brasil contemporâneo mais influenciaram as letras do álbum?
Basttardz: A gente não partiu necessariamente de acontecimentos específicos, mas de uma percepção muito cotidiana do Brasil e das contradições que fazem parte da nossa realidade. Vivemos em um país onde existe uma desigualdade enorme, enquanto o consumo e a ostentação são vendidos como sinônimos de felicidade. Existe uma violência muito presente, mas, ao mesmo tempo, uma tentativa constante de normalizar aquilo que deveria nos indignar.
Isso aparece bastante nas músicas. Também olhamos para a influência das redes sociais, para a transformação de tudo em mercadoria, para a exploração do trabalhador, para o fanatismo, para a hipocrisia e para essa sensação de que estamos cada vez mais conectados e, paradoxalmente, cada vez mais isolados.
Algumas referências que atravessaram a construção do disco também vêm da literatura e da sociologia. Dialogamos com ideias de autores como Zygmunt Bauman e Michel Foucault e com obras como O Processo, de Kafka, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.
A intenção nunca foi transformar o disco em uma aula ou em um manifesto fechado, mas usar essas referências para provocar uma reflexão sobre o mundo em que estamos vivendo.
No fim, Tramas & Traumas é muito sobre isso: estamos tentando entender o caos enquanto fazemos parte dele.
Talvez essa última frase seja a melhor síntese possível para o álbum. A Basttardz não se coloca fora do problema para apontar dedos. Pelo contrário: assume que também está mergulhada nas mesmas estruturas e contradições que transforma em música.
Amadurecimento dentro e fora do estúdio
Under Floripa: Como foi o processo de gravação no DOC Studio, em São Luís, e de que maneira a produção contribuiu para o resultado final do disco?
Basttardz: Acho que essa foi a gravação mais satisfatória que fizemos e também aquela em que mais nos empenhamos. O DOC Studio entrega muita coisa legal, mas acredito que o nosso amadurecimento foi essencial para chegar à qualidade que queríamos.
Foram algumas semanas, praticamente dedicando uma semana para cada instrumento, para conseguir focar na gravação e depois chegar à mixagem e masterização. Conseguimos explorar bastante coisa porque o estúdio tem muitos equipamentos, caixas, cabeçotes e diferentes formas de gravar.
O Alexandre é um ótimo produtor e ajudou muito a chegar ao som que queríamos. Passamos a ideia para ele, ele abraçou e fez acontecer.
Também chegamos com as músicas muito bem tocadas. Algumas estavam praticamente prontas havia mais de um ano e fomos refinando, mudando um detalhe aqui, adicionando outro ali. Acho que a junção desses fatores levou o disco à qualidade final. Ficamos muito satisfeitos.
Se Tramas & Traumas soa como um passo adiante, portanto, não foi apenas por uma mudança de equipamento ou produção. O disco é resultado de músicas maturadas durante meses e de uma banda mais consciente sobre aquilo que queria registrar.
A estrada como escolha, mesmo quando ela não paga as contas
Under Floripa: Sabemos e acompanhamos os perrengues de uma banda que está fora do eixo Sul-Sudeste. Vocês são uma banda de estrada, que atravessa o Brasil de ponta a ponta levando porradaria. Quais as experiências e o resultado dessa escolha de vida?
Basttardz: Muitas das experiências que vivemos com a Basttardz são únicas. Se não tivéssemos a banda, provavelmente não conseguiríamos visitar tantos lugares e conhecer tanta gente.
Não é pelo dinheiro. Não tem dinheiro que compre algumas dessas experiências. Nessa última turnê pelo Nordeste, por exemplo, foi a primeira vez da Basttardz em Salvador. Teve um parceiro que viajou 160 quilômetros de uma cidade vizinha só para assistir ao nosso show.
As experiências positivas são basicamente essas.
A estrada, nesse sentido, funciona quase como outra integrante da Basttardz. É cansativa, financeiramente complicada e exige sacrifícios, mas também cria encontros que dificilmente aconteceriam de outra maneira.
Uma banda maranhense atravessando o país
Under Floripa: Quais são os principais desafios de organizar uma turnê nacional independente, especialmente partindo de São Luís e percorrendo Centro-Oeste, Sudeste e Sul?
Basttardz: Sair em uma turnê de três semanas, passando por muitos estados e três regiões, já é complicado. Sendo uma banda nordestina, uma banda maranhense, fica mais complicado ainda.
Mas acho que essa já é a nossa sétima turnê e a terceira de três semanas. Recentemente fizemos o Nordeste, então já estamos com o couro mais forte. Já sabemos algumas das adversidades que vamos enfrentar.
Ainda assim, é muito difícil, principalmente conciliar a vida pessoal com a banda, porque a banda não paga nossas contas. É uma parada totalmente independente. Nós mesmos fazemos muitos dos trabalhos, desde os shows marcados até várias coisas que estão no ar.
Temos também uma parceria muito forte com a Brisa Discos, aqui em São Luís do Maranhão, que lança nossos vinis, ajuda com os CDs e também consegue nos ajudar nas gravações no DOC Studio. São parcerias que deixam o trabalho um pouco menos doloroso.
Mas uma banda nordestina como a gente sair de São Luís do Maranhão e fazer esse barulho todo também é gratificante.
A fala expõe uma realidade recorrente do underground brasileiro: tocar não é apenas subir ao palco. É organizar datas, deslocamentos, produtos, custos, divulgação e ainda encaixar tudo isso em uma vida profissional que continua existindo quando a turnê termina.
Underground é uma estrutura coletiva
Under Floripa: Na visão de vocês, como casas de show, produtores, selos, coletivos e público podem contribuir para manter a cena viva?
Basttardz: Essa galera já ajuda muito. Acho que só deveria continuar, porque isso é o que chamamos de underground: um grande tentáculo que vai se interligando de cidade em cidade, estado em estado, do hardcore ao death metal.
Acho que o underground, o som autoral e o som pesado precisam ocupar mais espaços, principalmente espaços públicos.
Os produtores independentes fazem muita coisa de boa vontade. Se existisse mais dinheiro chegando para essa galera, poderiam fazer coisas ainda maiores.
E o público pode continuar indo aos shows, comprando ingresso antecipado e merchandising das bandas. O merchandising, junto com alguma ajuda de custo dos produtores, é praticamente o que permite que a banda consiga rodar.
Tudo tem um custo: camisa, vinil, gasolina, carro, alimentação e, às vezes, hospedagem. Comprar ingresso, CD, vinil e merchandising, apoiar produtores e selos… é tudo um corpo interligado. Uma coisa precisa da outra para sobreviver.
Essa talvez seja uma das definições mais certeiras da entrevista: o underground como organismo. Banda, público, produtor, selo e casa de shows não existem isoladamente. Quando uma dessas partes desaparece, todas as outras sentem.
A volta para Florianópolis
Under Floripa: Para finalizar, vocês estão retornando a Florianópolis, onde rolou um baita show em 2025. Quais as expectativas? O setlist da turnê será concentrado em Tramas & Traumas ou também revisitará trabalhos anteriores?
Basttardz: É muito massa voltar para Floripa. Foi muito legal no ano passado, foi foda demais. Estamos retornando acreditando que será um show melhor ainda.
Temos uma métrica de que, toda vez que voltamos para uma cidade onde já passamos e foi legal, na próxima tende a ser melhor. Tem gente nova conhecendo a banda e a galera que já colou antes vai colar novamente.
Estamos com uma expectativa alta para a turnê inteira. Vamos rodar por Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiânia e Brasília. É um rolezão, praticamente um mês fora de casa.
O setlist da turnê já está pronto e estamos ensaiando. Terá praticamente todas as músicas do disco novo. Da metade do show para frente, serão praticamente só as novas, mas os clássicos continuam lá, como “Brasil com Z”, “Agro Trash” e “Altitude Tropical”. Começamos com músicas dos primeiros CDs e depois vamos mesclando as antigas com as novas.
Do Maranhão para o underground brasileiro
A história da Basttardz ajuda a lembrar que uma cena independente não é construída apenas pelos artistas que conseguem maior exposição. Ela também existe graças às bandas que entram em uma van, atravessam milhares de quilômetros, vendem camiseta para colocar combustível no carro e criam conexões que transformam diferentes cenas locais em uma verdadeira rede nacional.
Partindo de São Luís e chegando novamente a Florianópolis, a Basttardz ocupa justamente esse lugar. Tramas & Traumas mostra uma banda musical e conceitualmente mais madura, enquanto a estrada comprova que essa evolução não aconteceu distante do público, mas no meio dele.
Em um cenário no qual fazer música autoral pesada já é um desafio e fazê-la partindo do Nordeste adiciona outras camadas logísticas e econômicas , continuar rodando o Brasil depois de sete turnês é, por si só, significativo.
A banda se apresenta em Florianópolis no dia 4 de setembro, com produção da Bruxa Verde. Vamos?



