Entre memórias, racismo, maternidade e resistência, Stefanie transforma mais de duas décadas de vivências no rap em matéria-prima para BUNMI, seu primeiro álbum solo.
Stefanie ocupa um lugar de destaque na cena do rap brasileiro, com uma trajetória que ultrapassa duas décadas e é marcada pela participação em diferentes coletivos, pela potência de suas letras e pela contribuição para ampliar a presença feminina no hip-hop. Nascida em Santo André, no ABC Paulista, a artista teve seus primeiros contatos com o rap ainda na década de 1990 e começou sua carreira profissional em 2004.
No ano seguinte, passou a integrar o grupo Simples, formado também por Kamau, Rick Fuentes, DJ Will e Diego Beatbox. A banda lançou o álbum Escuta Aí, em 2006, e teve a oportunidade de participar da abertura de apresentações de nomes internacionais, entre eles o grupo norte-americano De La Soul. Stefanie posteriormente fez parte do Pau-de-Dá-em-Doido e alcançou maior visibilidade ao integrar o coletivo Rimas & Melodias, reunião de algumas das principais artistas mulheres do rap nacional. O grupo lançou seu primeiro álbum, de mesmo nome, em 2017.
Durante sua trajetória, Stefanie dividiu trabalhos e gravações com artistas como Emicida, Kamau, Rashid, Luedji Luna, IZA, MV Bill, Drik Barbosa e Tássia Reis. Essas parcerias ajudaram a consolidar seu nome entre diferentes gerações da música urbana brasileira. Musicalmente, seu trabalho transita pelo rap e pelo R&B, incorporando ainda referências da cultura afro-brasileira. Em suas composições, a rapper aborda vivências pessoais e temas relacionados à identidade, às questões sociais, à resistência e às transformações da vida.
Depois de aproximadamente duas décadas de carreira, Stefanie iniciou em 2025 uma nova etapa artística com BUNMI, seu primeiro álbum solo. O nome do disco vem do iorubá e significa “meu presente”. Com produção de Grou e Daniel Ganjaman, o trabalho apresenta dez faixas e reúne participações de artistas como Emicida, Kamau, Mahmundi, Luedji Luna, Jonathan Ferr e a chilena Ana Tijoux.

Em BUNMI, Stefanie transforma diferentes momentos de sua trajetória pessoal em matéria-prima para a música. O álbum percorre temas como perdas, maternidade, amadurecimento e processos de cura, resultando em um trabalho de forte dimensão autobiográfica e que marca uma nova fase na carreira da rapper.
“O hip hop é muito forte, o hip hop é muito poderoso.”
Mais de duas décadas de trajetória no rap nacional, experiências pessoais transformadas em música e uma relação profunda com a cultura hip hop. Na conversa com o UNDER FLORIPA, Stefanie fala sobre o poder transformador do rap, racismo, criação dos filhos, arte, representatividade e as referências musicais que ajudaram a moldar sua trajetória.
HIP HOP COMO TRANSFORMAÇÃO
Under Floripa: Quão importante é trazer a cultura do hip Hop que tem uma forte crítica social, para um estado onde predomina a ignorância da extrema direita?
Stefanie: O hip hop ele, ele tem esse poder, né, de trazer essas temáticas, essas narrativas sociais. E a gente consegue nas nossas rimas levar essas críticas, trazer essa visão, do que acontece na sociedade. E trazer para um lugar que tem esse lado conservador, de extrema direita é importante para as pessoas refletirem, a juventude (refletir), e tomar consciência, né?
Existem vários artistas que são referência e que a juventude, as pessoas se identificam. Eles vão ouvir e falar assim: “Meu, eu não tinha pensado por esse lado, né? Não tinha pensado por esse lado aqui e eu acho que vale a pena eu passar a refletir sobre essa questão e a gente conseguir…”
“O hip hop é muito forte, o hip hop é muito poderoso.”
O hip hop é muito forte, o hip hop é muito poderoso. A gente consegue transformar com o rap, com a nossa arte, o pensamento da juventude para a gente conseguir (mudar), né?
Hoje mesmo a gente vê uma geração de tanto de homens, mas muitas mulheres chegando, trazendo questões que ainda não tinham sido tocadas, né?
E assim, o que a gente vê é que de geração em geração a gente vai conseguir mudar o pensamento das pessoas pra que a gente consiga ter uma sociedade mais igualitária, mais justa. Então é isso.
Eu admiro as diversas artes, mas o hip hop ele tem muito esse poder, o rap nacional tem esse poder transformador de transformar mentes, de transformar opiniões e é assim que a gente vai continuar seguindo, cutucando a ferida pra gente conseguir ver essas mudanças que, graças a Deus, a gente já consegue ver.
UF: A arte salva?
Stefanie: Com certeza. Com certeza salva!
Até, muitas vezes eu fico pensando assim, até pessoas que criticam os artistas, consomem arte!
Todo mundo! Até a pessoa mais caseira, se ela está dentro de casa, ela vai estar assistindo um filme, ela vai estar assistindo uma série. Ela vai estar escutando uma música que é da atualidade, dos dias de hoje, mas ela vai estar também escutando uma música de outra época, de muitos anos atrás.
Todas essas pessoas são artistas. Sem a arte, o mundo não teria graça. Sem a arte, as pessoas, não sei como elas viveriam, assim, elas não iam viver de uma maneira tão saudável, né? Porque a arte faz a gente ir para um outro lugar, né? Transmutar a nossa mente para um outro lugar de leveza, de paz…
Então a arte salva em diversas situações, com as mensagens que trazem de alegria, de diversão, com críticas sociais…
“Então a arte é de extrema importância pro mundo, pra sociedade.”

“Desconforto”: Uma História Real
UF: No início da letra de “Desconforto” você descreve que você uma e uma amiga não foram convidadas para uma festa de aniversário. A letra é real? E como criar os filhos em um Brasil onde se vê o aumento dos casos de racismo segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública?
Stefanie: Real! A letra de ‘Desconforto’ ela é real, inclusive no meu álbum BUNMI eu quis trazer diversas experiências que eu já tinha passado e que sempre martelou na minha vida. E eu sempre lembrei dessa história.
Assim, eu devia ter uns 7 anos de idade, eu lembro dessa história como se fosse hoje, né? E o quanto ela, de uma certa forma, ela acabou me colocando num lugar de não merecimento, né?
Uma menina negra e uma menina gorda, então a gente vê como isso é tão… como eu posso… qual palavra eu posso encontrar aqui?
O preconceito, ele… ele massacra as pessoas de uma certa forma a ponto de tirar o poder delas, delas não conseguirem se sentir poderosas.
E graças ao rap nacional, à cultura hip hop, eu consegui me encontrar nesse mundo, reconhecer minha história, saber do meu valor, do valor da minha trajetória.
E eu achei muito importante compartilhar, né, até mesmo… é muito legal quando eu vejo, muitas pessoas… adultos chegam pra falar de ‘Desconforto’, mas muitas crianças escutam a ‘Desconforto’ também.
E você vê no olhar… nos olhares dessas crianças que elas já passaram por essa situação. Então elas escutarem a música, elas pegarem aquela mensagem e falar assim:
“Não… não vai ser desconfortável pra gente. Eu sei meu valor, sei minha história.”
Então foi isso, ‘Desconforto’ é uma história real e que eu achei importante compartilhar para as pessoas saberem que… foi comigo, mas acontece em vários outros lugares com outras pessoas.
Letramento, Consciência e Família

Trazendo o letramento e consciência racial. Eu, Graças a Deus, eu tenho esse diálogo dentro de casa com os meus filhos.
E eu vejo o meu filho mesmo, ele tem 15 anos de idade e eu vejo o quanto a autoestima dele é elevada e eu me sinto tão feliz, eu fico tão orgulhosa…
Mas isso veio de um lugar, veio do dia que eu fui a primeira vez numa festa de rap e eu achei aquela festa maravilhosa, eu encontrei o meu mundo e eu trouxe pra minha vida.
Meu marido também está muito presente na nossa casa, na nossa família, e eles aprendem com isso.
Então, é isso, é trazendo a nossa história, mostrando os artistas, as pessoas que marcaram toda essa nossa trajetória porque, de uma certa forma, o que acontecia nos anos 90 ali é que a gente não tinha um acesso, né?
A gente sabia muito bem o que a gente via naquele período. Então, hoje a gente tem mais acesso e consegue estar próximo, né, e da nossa história e fazer com que a gente sinta orgulho.
A gente tem orgulho. Meu filho tem orgulho, né? Os jovens têm orgulho.
Olha que… olha que coisa linda que a cultura hip hop faz, que o rap nacional faz.
Então, é isso. A música, ela é transformadora, a arte, ela é transformadora, a mensagem é transformadora e cada vez mais vai ser.
As referências que formaram Stefanie
UF: Você pode dizer alguns álbuns que moldaram você como mulher, artista e mãe?
Stefanie: Tá. Pior que eu sou ruim para nome de álbum… (risos)
Eu lembro que foi no final dos anos 90 ali, eu vou tentar lembrar o nome dos álbuns. Mas eu lembro que no finalzinho dos anos 90 eu escutei muito SNJ, ‘Somos Nós a Justiça’, MV Bill também, ‘Soldado do Morro’ ali… SP Funk… É que eu não vou lembrar os nomes, né.
MV Bill… SP Funk… É… SNJ… SNJ tinha a Cris SNJ, RZO, daí tinha Negra Li, o Bill ali com a Kamila, Consequência…
Nossa, são muitos álbuns.
Eu escutei muita coisa porque o meu irmão ele era DJ.
Aí tinha DMN, Consciência Humana, Potencial 3, então eu escutei de um tudo assim, desde nacional até internacional: The Roots, Pharcyde, De La Soul…
UF: Qual o álbum do De La Soul?
Stefanie: Ah, não! São muitos.. (risos)
Então é assim, foi muito… meu irmão era DJ, escutava muita coisa, então… eu escutei muita coisa.
Então, é isso, todos esses álbuns me moldaram!



