Em meados de 2022, após o período de isolamento provocado pela pandemia e pouco depois de lançar seu álbum de estreia, o músico santista limmbo passou por uma fase marcada por um medo inexplicável de morrer a qualquer momento. Dessa experiência surgiu “wandering ghost”, personagem de um fantasma errante que percorre o mundo carregando insatisfações e sonhos inacabados, representando aquilo que o artista imaginava se tornar caso sua vida terminasse inesperadamente.

Um fantasma em busca de respostas
A composição aborda o receio de atravessar a vida sem concretizar os próprios objetivos e partir levando consigo o peso das decepções. A letra apresenta imagens de dores persistentes, noites de sufocamento e sonhos de queda, elementos que traduzem uma ansiedade constante diante da possibilidade do fim. No refrão, o amanhecer chega, a voz falha e mais uma chance acaba desperdiçada. Ao chegar à meia-noite, fica a reflexão sobre o tempo que ainda resta.
“Desde sempre fui uma pessoa cheia de sonhos e considero isso uma das minhas maiores qualidades, pois é justamente o que me impulsiona a seguir em frente”, comenta limmbo.
“Por outro lado, a chegada à vida adulta coloca muitos desses desejos à prova. Quando somamos isso aos obstáculos de tentar sobreviver profissionalmente da arte, especialmente no Brasil e diante das perspectivas do atual cenário político, continuar nessa trajetória acaba sendo uma experiência bastante desgastante e desafiadora.”
Em outro momento da música, o artista levanta uma pergunta que permanece sem resposta: “Eu não deveria dar tudo de mim agora? Todo o meu coração, corpo e alma?”. Para ele, a proposta não é apresentar explicações ou soluções, mas expressar sentimentos e percepções com os quais outros músicos e pessoas que enfrentam momentos decisivos também possam se identificar.
Uma sonoridade mais intensa
“wandering ghost” representa o trabalho mais pesado de limmbo em termos sonoros até o momento. Guitarras distorcidas, riffs marcantes e uma bateria mais encorpada dão sustentação à faixa, que ganha intensidade no refrão com vocais rasgados e camadas de sintetizadores que criam uma atmosfera envolvente.
Em contraste, os versos apostam em uma abordagem mais suave e intimista, proporcionando diferentes dinâmicas à composição. Entre as principais influências estão os trabalhos de maior peso de Fresno e Paramore. A combinação entre intensidade instrumental e profundidade nas letras também estará presente em diferentes momentos do próximo álbum.
Enzo Santana Borges é responsável pela composição, produção, guitarras, baixo, violão, vocais, mixagem e masterização. O trabalho foi inteiramente gravado em seu estúdio particular, utilizando equipamentos domésticos e seguindo os princípios da cultura independente DIY. Entre as etapas da produção, a gravação dos vocais do refrão foi considerada o maior desafio.
A arte da capa segue a identidade visual em preto e branco apresentada no single anterior. A fotografia, assinada por Giovanna Barbosa, que também cuidou da maquiagem, utiliza efeitos obtidos pela alteração da velocidade do obturador para criar silhuetas desfocadas em movimento, reforçando a atmosfera misteriosa e fantasmagórica associada à ideia de um “lugar-não lugar”.
A direção de arte e o figurino ficaram sob responsabilidade de Enzo Borges. A faixa também será acompanhada por um lyric video.
Da produção independente à Casalago Records
Por trás do projeto limmbo está Enzo Borges, músico de Santos (SP), atualmente com 25 anos. Sua relação com a composição começou aos 12 anos, antes mesmo de dominar os primeiros acordes do violão. Com influências do rock alternativo e do indie, seu trabalho apresenta referências de Paramore, Fall Out Boy, The Cure, Beabadoobee e Fresno, abordando temas como ansiedade, sexualidade, autoimagem, amadurecimento, identidade e relacionamentos amorosos.
Antes de adotar o atual nome artístico, Enzo lançou o EP A Few Thoughts in a New Year’s Eve (2019), o álbum nineteen (2021) e o trabalho i care about what you think of me (2025). O videoclipe de “dancing with wolves”, música presente neste último lançamento, integrou a seleção da Mostra Videoclipe Caiçara, durante o 23º Curta Santos.
Em 2026, com a chegada à gravadora Casalago Records, o músico passou a utilizar oficialmente o nome limmbo, apresentando essa nova fase em setembro, com o lançamento do single “glitter eyes”.
“Sempre tive uma imaginação muito fértil e fui alguém que encontrou conforto em espaços de passagem, que chamo de ‘lugares-não lugares’, como estradas e aeroportos”, explica o artista. “Ideias que parecem opostas conseguem conviver até se tornarem uma coisa só. Sempre me enxerguei como um exemplo disso, e acredito que essa característica também esteja presente na minha música.”



