OBELISCO ESTREIA NO BRASIL COM TURNÊ CONSTRUÍDA ENTRE SKATE, MÚSICA E AMIZADE

OBELISCO ESTREIA NO BRASIL COM TURNÊ CONSTRUÍDA ENTRE SKATE, MÚSICA E AMIZADE

(Reprodução)

Do Uruguai para o Brasil: Obelisco transforma conexões do underground em turnê.

À primeira vista, é uma história relativamente simples: uma banda independente de Montevidéu atravessa a fronteira para fazer sua primeira turnê pelo Brasil. Mas basta puxar um pouco o fio para descobrir que a passagem da Obelisco por aqui começou a ser construída muito antes de existir qualquer tour.

E, curiosamente, começou em cima de um skate.

Um dos guitarristas da banda, Federico “Kolo” Rossotti, é figura conhecida da cena uruguaia do skate. Além de andar há anos, mantém ao lado da esposa uma marca underground com certa notoriedade em Montevidéu e já participou de projetos que atravessaram as fronteiras do Uruguai. Alguns dos vídeos produzidos por lá chegaram até a Thrasher, uma das principais publicações de skate do mundo.

Foi justamente por meio de um desses vídeos que surgiu uma conexão improvável com Florianópolis.

Do outro lado da tela estava João Padilha, skatista catarinense que acompanhava aquele trabalho e resolveu fazer contato pelas redes sociais. A aproximação começou pelo skate: vídeos foram trocados, projetos semelhantes aproximaram os dois lados e, algum tempo depois, a pista construída por um grupo de amigos embaixo da Colombo Salles, aqui em Desterro, chamou a atenção do uruguaio.

“Cara, onde é isso?”, perguntou ao responder um story.

Era Floripa.

A cidade, na verdade, não era completamente desconhecida. Cerca de dez anos antes, ele já havia passado por aqui, mas sem conhecer de perto a cena underground da Ilha. Foi justamente nessa nova passagem, agora conectado a pessoas ligadas ao skate independente, à música e ao universo do “faça você mesmo”, que Florianópolis ganhou outro significado.

E foi essa relação que, alguns anos depois, ajudaria a colocar a cidade na rota da primeira turnê brasileira da Obelisco.

MONTEVIDÉU, FLORIPA E ALGUMAS CARONAS

Em 2024, durante um evento de skate da Vans em Porto Alegre, uma viagem que inicialmente terminaria na capital gaúcha acabou ganhando alguns quilômetros extras.

Amigos brasileiros foram até Porto Alegre, seguiram juntos para Florianópolis e, depois, para Curitiba.

No caminho, skate, música, tatuagem e amizade começaram a se misturar.

Foi durante essa passagem que surgiram muitas das relações com pessoas e bandas que, cerca de dois anos depois, estariam envolvidas na primeira turnê brasileira da Obelisco. Ou seja: antes de existir cartaz, rota, ingresso ou qualquer planejamento de shows, já existiam as conexões que fariam tudo isso acontecer.

A ponte logo passou a funcionar nos dois sentidos.

Ainda naquele ano, brasileiros viajaram ao Uruguai e ficaram na casa dos integrantes da banda. Participaram de eventos, conheceram artistas locais e acompanharam de perto uma cena pequena, independente e bastante movimentada por quem decide fazer as coisas acontecerem com os próprios recursos.

Entre esses encontros estava também um festival de skate organizado por integrantes da Obelisco.

Depois vieram novas viagens. Os projetos ligados ao skate continuaram, novas amizades apareceram e a relação entre as duas cenas foi ficando cada vez menos circunstancial.

Os próprios integrantes da banda circulam por diferentes frentes desse universo. Música, skate, tatuagem, produção cultural e uma marca independente acabam se cruzando dentro de uma mesma rede que existe muito mais pela iniciativa de quem participa dela do que por qualquer estrutura formal.

Floripa, aos poucos, deixou de ser apenas uma parada no mapa.

UMA TURNÊ CONSTRUÍDA NA AMIZADE

É nesse contexto que a Obelisco chega pela primeira vez ao Brasil em novembro de 2026.

A banda independente de Montevidéu vem de seu terceiro álbum, estreia uma nova formação e já tem um próximo disco engatilhado, um indicativo de que essa nova fase está longe de ser apenas uma reorganização de integrantes.

A formação também amplia as possibilidades de um som que junta punk e romantismo, peso e melodia indie, combinações que à primeira vista talvez não devessem funcionar, mas que no universo da Obelisco fazem todo sentido.

É justamente essa amplitude que permite imaginar, dentro de um mesmo repertório, aproximações tão improváveis quanto Black Sabbath e Pixies, Black Flag e Kid Abelha. Menos como uma lista literal de influências e mais como uma forma bem-humorada de explicar uma banda que parece confortável aproximando universos que normalmente estariam em lados diferentes da prateleira.

Atualmente, a Obelisco é composta por Federico “Kolo” Rossotti (voz e guitarra), Camila Sena (voz e baixo), Emanuel Piotto (guitarra e teclados) e Pablo Vellozo (bateria).

Mas entender a banda passa também por olhar para o que existe ao redor dela.

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Seus integrantes se espalham por outros projetos musicais, skate, tatuagem, produção cultural e até luteria, circulando por diferentes braços da cena independente uruguaia e argentina.

E a escolha das bandas brasileiras que participam da tour segue praticamente a mesma lógica.

Não se trata de uma atração estrangeira chegando ao país enquanto uma produção local procura qualquer nome disponível para abrir os shows. As bandas que aparecem pelo caminho fazem parte, direta ou indiretamente, das relações construídas nos últimos anos.

A própria Centroleste Autopeças, prata da casa daqui de Florianópolis, foi convidada pela Obelisco para acompanhar a turnê. Questões de distância e logística impedem que a banda esteja em todas as datas, mas a intenção original já ajuda a explicar bastante o espírito da viagem.

Em Curitiba, a história se repete de outra forma.

Durante uma das passagens anteriores pelo Brasil, integrantes desse grupo de amigos ficaram hospedados na casa de uma amiga. Hoje, ela tem um bar com palco: o Spunk Bar.

É justamente ali que a Obelisco vai tocar.

Coincidência já começa a parecer uma explicação pequena demais.

QUATRO CIDADES (E MAIS UMA SURPRESA)

OBELISCO ESTREIA NO BRASIL COM TURNÊ CONSTRUÍDA ENTRE SKATE, MÚSICA E AMIZADE 2

A primeira turnê brasileira da Obelisco começa em 5 de novembro, na Praia do Cassino, no Dark Cave Studio. No dia seguinte, a banda segue para Porto Alegre, com apresentação no Caos.

No sábado, 7 de novembro, chega a vez de Florianópolis receber oficialmente os uruguaios. O show acontece no Desgosto Bar, acompanhado por nomes da cena independente local.

A viagem termina no domingo, dia 8, em Curitiba, no Spunk Bar.

Além das quatro apresentações, a produção ainda promete uma data surpresa, com cidade e local a serem revelados e ingressos limitados.

A rota reúne bandas como Centroleste Autopeças, Mata Cobra, Recreio, Joelhos Gelados e Siszmo, formando um pequeno recorte de cenas que talvez não apareçam juntas em grandes festivais, mas que acabam se encontrando constantemente por outras vias: pistas de skate, casas, bares, tatuagens, vídeos, viagens e amizades.

É uma lógica bastante parecida com aquela que mantém boa parte do underground funcionando dos dois lados da fronteira.

ANTES DA TOUR, VEIO A CONEXÃO

Talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante dessa história.

Em tempos de turnês planejadas a partir de alcance, números, algoritmos e mercados estratégicos, a primeira passagem da Obelisco pelo Brasil percorre praticamente o caminho contrário.

Um vídeo de skate publicado na internet levou a uma amizade.

A amizade virou viagem.

A viagem apresentou pessoas.

Essas pessoas apresentaram outras bandas, abriram suas casas, construíram pistas, fizeram tatuagens, dividiram palcos e atravessaram fronteiras.

No centro da história, portanto, não está apenas um integrante, uma banda ou sequer uma turnê.

Está uma pequena rede construída ao longo dos anos entre Montevidéu, Florianópolis e outras cidades do caminho, dessas que existem porque alguém manda uma mensagem, oferece um sofá, indica uma banda, organiza um show ou simplesmente decide atravessar algumas centenas de quilômetros para encontrar os amigos.

Anos depois, surgiu uma turnê.

Não é exatamente uma invasão uruguaia.

Está mais para uma reunião de amigos que, por acaso, acontece em quatro cidades, dois países e com amplificadores ligados.

E, pelo histórico até aqui, provavelmente essa tour ainda vai render algumas histórias que não cabem no cartaz.

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.