Parece que estou ouvindo duas versões diferentes da mesma banda.
Não costumo fazer isso, mas, pra vocês entenderem melhor o que quero dizer, vamos dissecar este EP de quatro faixas da jonabug, canção por canção.
“Rascunho”, que abre o trabalho e já havia sido lançada como single, de cara nos apresenta uma banda mais madura e segura em estúdio. Os timbres são quentes, a produção é excelente e tudo soa mais profissional do que em Três Tigres Tristes. É um salto evidente de acabamento e profissionalismo. Mérito da banda e do produtor Samuel Berardo. Talvez falte um pouquinho de punch na bateria, mas isso já entra na categoria das minhas implicâncias e chatices.
E elas são muitas.
A segunda faixa, “I Can’t Be With You”, já vem com outra tônica. A voz de Marília Jonas parece mais equilibrada e a música encontra uma fluidez que nem sempre aparece nas composições em português deste EP. Não vou entrar novamente no mérito de discutir sobre cantar em inglês ou português ou sobre prosódia, mas existe uma diferença perceptível na maneira como a voz se encaixa na música. Eu senti essa diferença especialmente comparando o refrão de “Rascunho” com a coda desta faixa. Na faixa de abertura, o refrão soa quase percussivo; aqui, a voz é fluida, leve, macia.
Considero “I Can’t Be With You” um dos trabalhos mais icônicos do corpus da banda. A jonabug sempre anda no fio da navalha do que convencionamos chamar de shoegaze. Aqui eles entram de cabeça na parede de som, até flertando com bandas canônicas do gênero, como Lush e Slowdive.
“Entre o Certo e o Errado”, parceria com a Cidade Dormitório, infelizmente, é onde essa fluidez desaparece. A faixa parece um pouco perdida no EP, e a colaboração não chega a fazer com que as duas bandas se somem de maneira particularmente interessante. Há vários momentos em que uma parece anular o que existe de melhor na outra. Lembrei das aulas de Física no Ensino Médio sobre interferência, especialmente ao tentar filtrar a parede de som guitarrística da faixa. Colaborações são difíceis, eu sei, mas, num EP com quatro faixas, este espaço parece desperdiçado. Uma pena.
Eu pensaria o mesmo se ela tivesse sido lançada como single ao invés de parte de um EP? Não sei. Agora, um split entre elas, por outro lado, pode ser incrível.
E então chega “Is This the End?”, a faixa que mais se aproxima da jonabug que eu vi e ouvi ao vivo. É mais pesada, mais urgente e tem, finalmente, aquela energia que a banda consegue entregar no palco. Começa ágil, frenética. A guitarra vai crescendo e termina doce, como a voz de Marília. Novamente fica evidente o contraste. De fato parecem duas bandas, mas não estou falando de jonabug e Cidade Dormitório, mas de duas jonabugs diferentes dentro do mesmo EP.
As duas faixas em inglês são excelentes. As duas em português não são ruins — longe disso. Elas só não chegam ao mesmo nível. E tá tudo bem. Nem todo lançamento precisa reproduzir perfeitamente a experiência de ver uma banda ao vivo. Além disso, eu que entrei aqui com minhas expectativas na estratosfera porque a jonabug foi uma das minhas bandas favoritas ao vivo este ano.
E eu que lide com isso.
torpor EP – jonabug
Gravadora: +um Hits
A jonabug está ficando maior que suas próprias gravações — e isso é um problema ótimo para se ter.
