“Quando os robôs tomarem conta / Tudo vai ser diferente”, mas enquanto isso não acontece – pelo menos, não em sua totalidade -, segue aqui uma resenha bem humana do primeiro álbum da dupla Farme & Hixinize, que inicia seu descaralhado compilado de ideias surrealistas (ou realistas demais?) justamente com as aspas que também iniciam este texto.
Com o título convencional de Volume I (talvez a única coisa convencional do trabalho todo), o álbum é um empilhamento maximalista de sons e ideias que se ligam, talvez, apenas pela desconexão de tudo, criando um sentido outro, uma razão nova e irracional que, pela irracionalidade de nosso tempo, se torna antes justa e perfeitamente condizente do que o fácil título de “no sense” a que essas canções pode ser atribuído.
Ainda na primeira faixa, a constatação futurológica dos robôs-tomando-conta é seguida pelo seu oposto natural: a aurora, guaxinins, flor de sal, aranhas, chuva, lama, sol – antes de voltar para uma noiada reflexão acerca do bélico e corrupto universo que nos cerca. Tudo isso acompanhado por cordas acústicas frenéticas e o canto cômico-desesperado que acompanha o álbum todo.
“Melhor seria / Fazer improviso livre na guitarra”, canta a terceira música do álbum – ironicamente acompanhada de uma base de teclas, afirmando assim na negação do que melhor-seria para expor a preferência do grupo por, nas palavras deles na mesma canção, “Usar travesseiros de sabonete / Sabonetes de travesseiro”. Ou seja: fazer aquilo que não se espera, buscar na troca de sentidos uma forma de suportar a nóia toda da vida nas cidades e nos celulares que nos acompanham em mãos e bolsos enquanto viramos esquinas, rolamos feeds e nos deparamos com o caos a que chamamos dia a dia.
A tradição experimental do rock sessentista – onde o pop, a música erudita e as distorções elétricas se apresentavam de forma una – serve de base para canções como “Na Televisão”, que soma ainda efeitos elétricos e, mais uma vez, uma letra de radical poesia que pode ser sintetizada no belíssimo verso: “Não se disputa / Que o mundo é uma puta”, que poderia servir também como epígrafe de toda poética apresentada no álbum.
Até então esquecida por esta resenha, “Balada do Ernesto”, segunda canção do álbum, também segue essa tradição de neo-rock sessentista, aproveitando deste universo para versar sobre filas, amantes e cinemas de forma que torna o banal dos assuntos algo abstrato e confusamente interessante.
“Objeto Limpinho”, uma das melhores canções do disco, une uma melodia tradicional de canção com um poderoso sintetizador que poderia ser encontrado nos álbuns mais pesados da Björk ou coisa que o valha. Seus versos, assim como os da faixa seguinte – “Minha Namorada” – trazem cenas horrendas de “restos de embrião na pia” e “chutes no saco a noite inteira” que me lembraram as letras mais escarradas de Kurt Cobain em seus delírios heroínicos, mas que aqui, ao invés de se adequarem ao universo punk de Seattle, são transmitidos em canções legítimas, mesmo que desmembradas: onde o lírico e belo tem a mesma importância que o grotesco.
“SOPAS, SARAMPOS E SINTONIAS ÁTONAS”, talvez minha faixa favorita de Volume I, expõe o caseiro da produção de forma inteligentíssima ao apresentar na voz dos primeiros versos o ruído da gravação e, ao invés de limpá-lo (“um objeto limpinho / um objeto limpinho”), o usa esteticamente, como uma guitarra distorcida em meio à música que se desliza suave – mas também interrompida por samples também ruidosos e outros ruídos mais, para terminar em um lúcido arranjo de cordas sintetizadas com a voz se reapresentando natural: uma quebra de expectativa às avessas.
Encerrando o álbum, “Donas da Pirajussara” evidencia as relações de Farme & Hixinize com o trabalho de artistas como Bruno Schiavo, Chico França (dois membros do ótimo e extinto trio eueueu), Negro Leo e Thiago Nassif ao criar um pop rock aos seus próprios moldes: psicodélico, brasileiro e experimental, sendo eles também um ótimo exemplo para pensarmos um futuro inventivo para nossa música, mesmo que esse futuro seja tão assustadoramente incerto. “Ai, ai / Gente convulsa do Brasil”.
Tudo de muito doido que os anos 60, 70, 80, 90 e 2000 nos deram é liquidificado no álbum de estréia da dupla, mas sem o clichê de estar “assimilado-pela-identidade-e-originalidade-da-banda”, pois tal assimilação são resulta em resolução e, embora a originalidade seja inquestionável, tudo se atravessa violento e belo por cima de tudo, fazendo com que a cada dobra de esquina – ou rolada de feed – dos versos e arranjos de Volume I, tenhamos sempre uma nova supresa.
Gravadora: Independente
Sempre uma supresa.
