Uma perda familiar pode dizer muito sobre o sentimento que vai se desencadear a respeito do trabalho de outro familiar.
Dito isso, em pleno 2026, não é novidade para ninguém, nem mesmo para os astronautas que estiveram no lado escuro da Lua, que o grande poeta e letrista Antonio Cicero partiu em 2024, aos 69 anos. Esse, irmão de Marina Lima, uma das mais importantes cantoras e compositoras das décadas de 80, 90 e 2000, que, mesmo com sua perda parcial de voz, continuou de cabeça erguida e seguiu em frente. E pensem: ela não pediu a piedade de ninguém, e nem pede agora.
Por isso, analisar um trabalho dessa densidade requer cuidado, crítica responsável e análise dos fatos — não apenas os sonoros, mas principalmente: o que é “Ópera Grunkie”?
É um trabalho em três atos, onde o primeiro é a ode a Antonio. E, por mais que possa soar repetitivo não nomear “Ode a Antonio Cicero”, ao transformar faixas em grandes fragmentos da vida do irmão, Marina transforma a dor (sim, estamos aí, clichês!) em arte e música, elevando até a quarta faixa outra linda homenagem, ou ode: “Perda” e a sua sequência, “Poeta”.
Eu não vou pesquisar o que é “grunkie”, mas me parece interessante como título.
As letras são o completo desnude da alma de Marina. Os embalos de uma bossa, ora elétrica, ora lounge, são a prova de que Marina se reinventa, se transmuta, quando declama: “O fato agora é que eu não consigo lhe esquecer”.
Quem não sentiu uma lágrima escorrendo, para de escutar o disco neste exato momento, por favor.
“Um Dia na Vida”, que letra nonsense. Com a participação de Ana Frango Elétrico, para quem conhece a cantora carioca (mais paulista), sabe o amor dela pelos gatos, e a letra, apesar da simplicidade, traz isso: leveza e um sentimento de acolhimento — além de duas vozes que se complementam.
Eu poderia ficar aqui discorrendo sobre as outras faixas, que são muito boas. Em alguns momentos, me remete a momentos de “O Chamado”, de 1993, tal o clima intimista e as letras confessionais.
Você, leitor inteligente que escutar Ópera Grunkie, não vai se arrepender. É uma colcha das mais belas, tecida por músicos talentosos e uma cantora acima do populacho vigente (onde inúmeras dials apresentam uma das piores safras musicais dos últimos anos). Vai se deleitar com o fragmentado cenário independente, porque Marina trafega entre vários mundos — mas, com certeza, o cenário independente é o que mais lhe acolhe, nesse cenário tão metido a ópera, ou a um balé em vários atos.
Ópera Grunkie – Marina Lima
Gravadora: Tratore
Um trabalho que é um desnude, uma ode a um poeta, uma despedida e ao mesmo um bem vindo ao novo!
