Costuma-se dizer que o tempo é mais justo com os coadjuvantes do que com os protagonistas.
Eu sempre achei que Jim Ward foi injustiçado após o fim da At the Drive-In. A voz de Cedric Bixler-Zavala era o norte melódico e ideológico da banda, enquanto as estripulias de Omar Rodríguez-López naturalmente atraíam a maior parte dos olhares e da atenção. Não por acaso, a caótica The Mars Volta — uma colisão de rock progressivo, jazz fusion, punk e psicodelia sempre em altíssima voltagem — acabou recebendo muito mais destaque. Já a Sparta, projeto que inicialmente reuniu Ward aos demais remanescentes da banda, seguiu firme dentro da sonoridade post-hardcore que o At the Drive-In havia ajudado a consolidar, mas sem o mesmo fascínio midiático que cercava seus antigos companheiros.
Deixado de fora das reuniões da banda em 2012 e 2016, além do derradeiro in•ter a•li•a, de 2017, Ward acabou se tornando uma nota de rodapé para muita gente. No entanto, sua voz e seus riffs frenéticos funcionavam como a cola musical do grupo, equilibrando caos e melodia, dando sensibilidade à urgência das canções. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais eu nunca tenha gostado muito de in•ter a•li•a (embora eu ainda esteja triste por ter perdido os shows da última passagem da banda pelo Brasil, em 2018).
Vinte e cinco anos depois da implosão do At the Drive-In, as rivalidades e comparações já perderam o sentido. A banda voltou, a The Mars Volta acabou e voltou, a Sparta também atravessou seus períodos de silêncio e retorno. O tempo, porém, teve o mérito de tornar uma coisa mais evidente: Jim Ward era muito mais do que o “outro guitarrista” daquela história. E Cut a Silhouette encontra justamente essa versão de Ward — confortável na própria pele, sem precisar provar nada para ninguém.
O álbum começa forte demais, com “Split Lip” e “Crater”, primeiro aperitivo do que estava por vir. Quando a bateria entra com tudo logo após o riff de abertura, é impossível resistir à vontade de bater cabeça. Na sequência, “Mouthbreather”, “Daydream” e “See You Soon” tiram o pé do acelerador e entram num terreno mais palatável aos ouvintes que não são adeptos dos subgêneros mais rápidos e pesados do rock. Esta última, inclusive, tem até um piano e uma dose de vulnerabilidade que eu não estava preparado para ouvir em um álbum da Sparta.
Curiosamente, é da faixa mais suave do álbum que nasce um dos seus momentos mais explosivos. “Everything You Say” entra em cena conduzida por um baixo carregado de chorus e culmina nos característicos gritos de Ward, que lembram por que sua presença sempre foi tão fundamental. Eu já estava ouvindo a faixa em altíssima rotação desde seu lançamento como single, mas ela encontra seu lugar perfeito dentro do álbum.
Cut a Silhouette soa como a síntese mais completa da trajetória da Sparta. O disco herda a confiança e a personalidade própria do álbum autointitulado de 2022, sem qualquer necessidade de revisitar o passado, mas recupera a energia, a emoção e os excelentes refrões que marcaram Wiretap Scars e Porcelain. A raiva que havia em “Cut Your Ribbon”, faixa do primeiro álbum que alguns dizem ser um ataque a Cedric e Omar, deu lugar à sensibilidade de “Glimmer”, faixa que encerra o álbum de maneira belíssima com um violão.
O tempo parece ter sido tão generoso com Jim Ward quanto ele foi paciente consigo mesmo.
Cut a Silhouette – Sparta
Gravadora: Equal Vision Records
Eu já estava ansioso para o show de agosto. Cut a Silhouette só aumentou a expectativa.
