Só recentemente a cantora norueguesa Aurora entrou no meu radar. Até sua participação no Lollapalooza de 2023 passou batida por mim. Foi só agora que a dita “Fadinha do Pop”, com seus vocais etéreos e um pop preciso e delicado, finalmente chegou à minha playlist. Quando li que ela havia lançado Come Closer, um álbum em parceria com Tom Rowlands — metade de óculos dos The Chemical Brothers — sob o epíteto Tomora, dei o play no primeiro impulso.
A norueguesa já havia participado de uma faixa dos Brothers, e Rowlands já havia produzido “My Name”, do álbum What Happened to the Heart?. A evolução para colaborações ao vivo, uma sequência de singles e, finalmente, um disco completo parecia natural.
E o resultado é fascinante.
Há um contraste claro entre as batidas dançantes — por vezes soturnas — e a doçura (e potência) da voz. Mas não é um choque, é uma sobreposição. É justamente a força combinada desses dois elementos em constante diálogo que sustenta o álbum.
No meu caso, ainda entra um fator extra: a nostalgia de quem cresceu, consumiu e se construiu ouvindo os The Chemical Brothers com participações de Noel Gallagher, Richard Ashcroft, Bernard Sumner e tantos outros nomes que moldaram meu repertório. A voz de Aurora parece feita pra ocupar esse espaço — não como substituição, mas como continuidade.
Por outro lado, sua potência vocal surpreende, especialmente na faixa-título — um espetáculo de leveza que cresce aos poucos até se transformar em um grito que preenche todo o ambiente. Na sequência, “Ring The Alarm”, “My Baby” e “Somewhere Else” apontam diretamente pra pista: batidas pulsantes, construções graduais e uma sensação constante de movimento que os The Chemical Brothers dominam como poucos. “A Boy Like You” desacelera o percurso com uma atmosfera soturna, sutilmente cadenciada, enquanto “I Drink the Light” e “Wavelengths” resgatam o espírito mais clássico dos Brothers. Tudo isso culmina em “In a Minute”, uma faixa épica que amarra o disco e termina de maneira abrupta.
O contraste em Come Closer é secundário à convivência quase pacífica, porém potente, entre voz, melodia e batida — mundos distintos que não apenas coexistem, mas se conectam e se complementam. Entre a delicadeza de Aurora e a pulsação precisa que Tom Rowlands traz de seu trabalho com os The Chemical Brothers, o que emerge não é um meio-termo, mas algo novo. A sobreposição é harmônica. E, nesse encontro, Tomora encontra sua identidade — independente das partes que a formam.
Come Closer – Tomora
Gravadora: Universal Music
O equilíbrio entre o etéreo e o frenético faz florescer uma parceria memorável.
