Folk e punk em três vozes: Frank Turner na Fabrique

Folk e punk em três vozes: Frank Turner na Fabrique

(Reprodução)

Três artistas, três abordagens distintas e um mesmo fio condutor: a conexão direta entre palco e público na noite de Frank Turner na Fabrique.

Por incrível que pareça para muitos, punk e folk compartilham mais coisas do que se imagina. Tenho certeza de que essa afirmação seria acompanhada por uma montanha de tomates podres arremessados furiosamente na minha direção caso tivesse sido dita em algum Festival de Newport, nos anos 60. Arrisco dizer que ela ainda causaria certo estranhamento no Brasil em 2026. Mas cá estamos — e Frank Turner e seus convidados, Katerina Kiranos, mais conhecida como Katacombs, e Dave Hause, estavam ali para provar meu ponto.

A Fabrique ainda estava esvaziada quando Katerina entrou no palco. As botas de cowboy brancas contrastavam com o vestido preto e o batom vermelho. O palco, quase nu. Era apenas ela, um violão com seu logotipo estampado no corpo e três pedais próximos à base do pedestal do microfone. Katerina riu ao perceber que parte do público se mexia como se quisesse dançar, embora suas músicas em tom menor não ajudassem muito.

Suas letras convidavam a uma escuta cautelosa — como se cada canção fosse uma história, e cada história, um espinho retirado com cuidado, mas que ainda deixa marca. Homens que a tripudiaram e homens que a ajudaram, como o próprio Frank Turner, que produziu e mixou seu disco — algo que ela confessou, entre risos, não ter a menor vontade de aprender a fazer.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Ao encerrar com “You Will Not”, Katerina emendou contando a história de um relacionamento passado e de como se libertou dele ao bradar que ele “não seria seu deus”.

Eu mal havia terminado minha cerveja quando percebi que Dave Hause já estava no palco. Aparentemente, houve um problema técnico e o violão estava sem amplificação. Em vez de atrasar o show, Dave foi até a beirada do palco empunhando o instrumento e puxou o coro de “Look Alive”. No início, ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo, mas ele seguiu firme, esperando que todos cantassem em uníssono. Mesmo sem microfone, sua voz se projetava e enchia a sala.

Mesmo sem banda, o clima era de palco cheio. A voz, a energia, o espírito springsteeniano. Foi um show que me fez sorrir o tempo todo — mesmo entre os cliques da câmera fotográfica.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Quando Frank Turner subiu ao palco para encerrar a noite, a sensação era de que tudo o que havia acontecido antes desembocava ali. O repertório passeou por músicas novas, antigas e aquelas que já não são nem tão novas, nem tão antigas, costuradas por histórias que ajudavam a dar sentido ao conjunto. Entre elas, Turner contava histórias, como sobre as cartas trocadas com uma garota que inspiraram “Letters”, e riu ao lembrar como Katerina o ajudou com o espanhol durante a parte hispanofalante da turnê latino-americana — ajuda que, segundo ele, não servia muito naquele momento, já que aqui não falamos espanhol.

A condução do show foi marcada pela mesma leveza e generosidade que atravessaram a noite inteira. Turner conversava, improvisava, ria com o público e deixava claro que o espetáculo não estava apenas nas canções, mas no encontro. Antes do fim, avisou que não iria manipular emocionalmente a plateia fingindo sair do palco para esperar o bis. Preferiu ir direto ao ponto e encerrar com “I Still Believe”, um hino que lembra, sem cinismo, que a música ainda pode salvar.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Folk e punk sempre dividiram um mesmo nervo político. Dave Hause fez questão de lembrar ao público que ele e Katerina eram americanos e que estavam do lado de quem luta por mudanças em seu país. O discurso ganhou corpo quando puxou um “fuck ICE”, em referência à polícia de imigração dos Estados Unidos — reafirmando essas canções como instrumentos de resistência, denúncia e solidariedade.

Talvez eu nunca veja Bruce Springsteen ao vivo. Provavelmente nunca o verei nesse formato, só ele e um violão no palco. Certamente nunca verei Billy Bragg, Bob Dylan ou Joan Baez — muito menos Robin Guthrie. Mas pude ver Frank Turner, Dave Hause e Katacombs no palco. E isso, senhoras, senhores e senhorxs, acho que já está de bom tamanho.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.