Parem as rotativas!
Foi isso que passou na minha cabeça na quinta passada quando abri o Spotify e dei de cara com um lançamento do meu californiano favorito (desculpa, Ty Segall). Haja vista que todos os nossos outros redatores estão com a pauta cheia, resolvi dar uma pausa na minha missão de garimpar e catalogar artistas desconhecidos para resenhar este último lançamento do Beck.
É um disco novo? Não. Quer dizer, mais ou menos.
É Beck de festa? Definitivamente, não.
Mas antes que você torça o nariz, os primeiros segundos do álbum já entregam o espírito da coisa: um Fender Rhodes acompanhado de um baixo que são o mais puro creme. Beck assume sua persona crooner, mas cantando as mais tristes™. Sim, é um cover de uma banda inglesa semi-obscura dos anos 80. Somem os sintetizadores e a voz azeda de tenor; entram instrumentos e uma voz aveludada, com aquele toque de vocal fry só pra dar charme.
Beck já flertou com essa melancolia elegante antes em Sea Change e Morning Phase. Música de luz baixa, cortina pesada e copo de uísque barato. Nada de ironia, nada de flerte pós-moderno. Beck leva essas canções a sério, e isso faz toda a diferença.
O disco parece uma pequena coleção de influências obscuras e obsessões pessoais. “Can’t Help Falling In Love”, clássico eternizado por Elvis, surge destituída de grandiosidade, quase tímida. Um destaque óbvio é “Ramona”, música que ficou mais conhecida pela trilha sonora de Scott Pilgrim Contra o Mundo. Assim como a faixa título — trilha do clássico O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças — não é novidade pra ninguém, mas aqui ela parece coroar o disco inteiro: aquela faixa perdida no lado B que, com o tempo, vira um deep cut favorito entre fãs.
O momento mais comovente talvez seja “True Love Will Find You In The End”, do Daniel Johnston. Beck não tenta recriar a canção; ele a trata com respeito quase reverencial. Só voz e violão. É simples, direto e devastador — como deveria ser.
Everybody’s Gotta Learn Sometime não é exatamente um disco, e chamá-lo de uma compilação de covers é um tanto reducionista. É um lançamento íntimo, desses que parecem feitos mais para o próprio artista do que para alimentar o algoritmo. Quando ele resolve baixar o volume e deixar o sentimento falar mais alto, Beck ainda sabe entregar melancolia em estado puro.
Everybody's Gotta Learn Sometime – Beck
Gravadora: Capitol Records
Um álbum feito quem curte Beck, independente de ser a persona folk, indie ou de festa, especialmente o próprio Beck.
