Mães Solteiras – Vamos ser breves (2026)

Mães Solteiras – Vamos ser breves (2026)

(Reprodução)

Por algum motivo que me é desconhecido, esta redação está sendo invadida por tugas.

Pode ser só coincidência, mas diversos artistas e bandas portuguesas figuraram recentemente entre as resenhas e no grupo de WhatsApp dos editores deste modesto site. Uma delas foi a Mães Solteiras. Questionamos, de início, o potencial politicamente incorreto do nome, até que uma pesquisa rápida no Google revelou que ele pode até soar polêmico, mas é, na verdade, uma homenagem. “A ideia de uma mãe solteira é a mais punk possível: criar um filho sozinha, contra o mundo”, dizia a manchete de uma matéria do noticioso lusitano Expresso.

Pois bem: leio a matéria e descubro também que se trata de uma espécie de supergrupo formado pela mais fina nata do punk rock português.

Na minha mais absoluta ignorância, me questionei como consegui passar tanto tempo sem sequer saber da existência de uma cena punk em Portugal. A verdade é que nós, brasileiros, somos radicalmente ignorantes no que diz respeito à terra de Saramago e Pessoa — especialmente quando o assunto é cultura pop.

Passei um tempo indeterminado pesquisando sobre os integrantes, as bandas pelas quais passaram, e mergulhei de cabeça em um universo completamente novo. Devidamente situado, dou play no álbum.

Senhoras, senhores e senhorxs: não tive sequer tempo de estranhar a pronúncia europeia do idioma que compartilhamos.

“Pedra-Fedelho” abre o disco e são três músicas em uma — cada qual socando meus tímpanos como um aríete. Guitarra nervosa, com aquele timbre tétrico à la Misfits; baixo tão grave e cheio de médios que chega a distorcer; bateria furiosa, com peles espancadas com a força de mil homens. Tudo isso acompanhado por alguém que não canta — grita, com um leve semblante de afinação, enquanto parece gargarejar pregos.

Começar

Gostaria de deixar claro a quem me lê que tudo isso foi um elogio.

Sim, as músicas são fodidas e dá vontade de sair berrando “PUTO!”, “ELA ESTÁ EXAUSTA!” ou “TU ÉS BUÉ!”, como se eu soubesse exatamente o significado de “bué”.

Como o nome da banda e a homenagem às mães solteiras já adiantavam, as letras são extremamente politizadas, ao mesmo tempo em que falam de temas absolutamente cotidianos. “Sala de Espera” aborda a privatização. “Recursos Humanos” mira sem piedade a área mais temida de qualquer CLT. Gritos de “Ninguém é ilegal aqui” ao defender imigrantes em “Vem devagar”. “Amor Ponto Corp” me fez perceber, com certo desconforto, que talvez não estejamos tão distantes assim de Portugal quando o assunto é precarização afetiva mediada por planilhas de Excel.

Mas a proverbial joia da coroa — o momento em que o disco realmente se consolida como um manifesto — é “Não peçam horas extra a uma mãe solteira”. Não apenas pelo título, que já deveria estar estampado em camisetas, cartazes e adesivos, mas pela forma como a música transforma a exaustão e a invisibilidade de todo um grupo social em grito. Não é metáfora. Não é sutil. E nem deveria ser. São pessoas reais esmagadas por um sistema que exige tudo e devolve nada.

Ali, a Mães Solteiras deixa claro que o punk, quando feito direito, não precisa inventar monstros — basta olhar em volta. O cotidiano já é violento o suficiente.

9.7

Vamos ser breves – Mães Solteiras

Gravadora: Independente

Pergunto-me o que em nome de Deus é uma "pedra-fedelho". Isso importa? É claro que não!

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.