Britain -icana.
Americana, em inglês, é um termo utilizado para significar elementos gerais da cultura dos Estados Unidos. Dentre esses elementos existe todo um gênero musical que costuma ser associado à polêmica apresentação de Bob Dylan acompanhado de uma banda elétrica no Newport Folk Festival, em 1965 — um dos momentos mais emblemáticos para a cultura americana no século XX. A partir dali, a combinação de instrumentação elétrica e elementos da música popular americana, o dito folk, ajudou a redefinir os rumos do que viria a ser a música americana nas décadas seguintes. Mas o que se consolidava ali não era exatamente um gênero, e sim uma linguagem: uma forma de reorganizar tradição em som, passado em presente, memória em música.
Antes mesmo de existir o gênero — antes do nome — já havia todo um universo sendo lentamente incorporado à alma desse cânone musical. Gospel, spirituals, country, bluegrass; figuras como Woody Guthrie e Hank Williams; banjos e slide guitars. Mais do que estilos isolados, são símbolos de um mesmo imaginário: trabalho, fé e fuga; estrada, solidão e redenção, amores que ficaram pelo caminho. Não houve um momento de criação, mas vários momentos de reorganização. Tradição virou linguagem. Linguagem virou identidade. Pode ser acústico, pode ser barulhento, lo-fi ou polido — o que importa é a sensação de deslocamento constante, de estar sempre indo a algum lugar que talvez nem exista.
Literalmente, Americana.
Aí nesse balde a gente encontra de John Denver a Wilco e The Lumineers. E, porque não, Ty Segall, Black Rebel Motorcycle Club, John Mellencamp, Bruce Springsteen e Tess Parks?
É exatamente nesse espaço meio nebuloso que a Westside Cowboy se posiciona em So Much Country ‘Till We Get There.
Assim como o Mumford & Sons — que eu detesto, por sinal, — a Westside Cowboy também é uma banda inglesa fazendo um som tradicionalmente americano. Porém, eles fogem da simples imitação. O que aparece aqui soa menos como exercício de estilo e mais como assimilação. A banda vem de Manchester, cidade de Oasis, New Order, The Smiths e Buzzcocks. Madchester e The Chemical Brothers. Todo um universo sonoro quase oposto do que se convencionou chamar de Americana.
Apesar disso, o EP não soa geograficamente ou culturalmente deslocado. Existe um oceano de distância entre Manchester e esse imaginário de estradas poeirentas, perdidas, mas a banda atravessa esse espaço com uma naturalidade quase desconcertante. Como se não estivesse “adotando” uma estética estrangeira, mas simplesmente falando uma língua que já não pertence mais a um lugar específico.
A Appalachia dá lugar às moorlands — as terras ermas do norte inglês. Em vez de se apropriar de uma estética e de uma história alheias a Westside Cowboy faz algo mais sutil: traduz um imaginário ao invés de simplesmente reproduzi-lo. Como se as tumbleweeds, aquelas plantas secas que cruzam a estrada levadas pelo vento em filmes de faroeste, fossem substituídas pela chuva fina, fria e persistente da Terra da Rainha — e, ainda assim, a sensação fosse exatamente a mesma.
É aqui que a Americana muda de sotaque — e vira Britainicana.
So Much Country 'Till We Get There – Westside Cowboy
Gravadora: Universal Music
Tão americano que quase passa por ianque — e, ainda assim, inexoravelmente inglês.
