Terça à noite eu assisti, ao vivo, pela segunda vez, à eliminação do ator Babu Santana no Big Brother Brasil.
Sim, é claro que eu assisto ao BBB. O que vocês acham que eu faço no meu tempo livre? Leio livros?
Como muita gente durante a pandemia — carentes de entretenimento e enclausurados em casa — eu fiquei fascinado com o programa, com as narrativas, os personagens e tudo o que acontecia ali dentro. Lembro bem do primeiro episódio: de um lado do muro, pessoas comuns se apresentando; do outro, Babu Santana, dizendo que era o ator que havia interpretado Tim Maia na cinebiografia do cantor.
Para os alienados que nunca assistiram ao BBB, aquela foi a primeira temporada em que houve uma divisão entre camarote — pessoas públicas e famosas — e pipoca, gente comum como eu e provavelmente você que está a ler estas linhas.
Eu já tinha visto o filme, mas parecia que ninguém naquela casa o tinha assistido ou sequer sabia quem ele era. Na verdade, nem eu conseguia lembrar de nenhum outro papel dele além daquele. Relegado a papéis secundários — muitas vezes de criminosos — por conta de sua aparência, sobretudo em novelas, não havia muito onde vê-lo.
Babu foi um concorrente forte. Não ganhou provas, mas, mesmo isolado, foi longe no programa. Hoje é fácil criticar o ator por sua ligação com seu canceladíssimo parceiro de confinamento, Felipe Prior. O que muita gente esquece é que o grupo majoritário das ditas “fadas sensatas” também incluía figuras como Daniel — um curioso cover de Salsicha — e o ilusionista Pyong Lee.

A carreira de Babu encontrou novos rumos depois do programa e, neste ano, ele decidiu retornar ao BBB. Mais uma vez, sua participação seria em um formato inédito: ele faria parte do seleto grupo de veteranos que integraria o elenco do programa — ex-participantes que não venceram, mas que se tornaram figuras icônicas em suas respectivas edições.
“Mas Alexandre, achei que este era um texto sobre o filme do Tim Maia…”
Calma. Já vou chegar lá.
Tenho dois problemas sérios com o filme. O primeiro é a narração em off. A voz do personagem Fábio, interpretado por Cauã Reymond, parece mais preocupada em nos lembrar que Tim Maia era um gênio do que, de fato, recontar os fatos. Ao mesmo tempo, a própria narração parece desconfiar da capacidade do espectador de acompanhar a história. Não é um noir, nem uma narrativa em primeira pessoa. É, estranha.
O segundo aparece na própria estrutura do longa, especialmente na passagem entre suas duas metades. Na primeira parte, quando Tim Maia ainda é interpretado por Robson Nunes, o temperamento explosivo do cantor aparece como um elemento cômico. Suas reações intempestivas — como na cena em que ele atira sonhos em Roberto Carlos e Carlos Imperial — têm algo de farsesco, de anedota bem contada. É engraçado, assim como quando vemos Robson voando de braços esticados e boca aberta, pronto para virar mesas de quitutes paroquiais enquanto os créditos rolam na cena.
Na segunda metade do filme, quando Babu Santana assume o papel do Tim mais velho, o tom muda. As explosões deixam de ser pitorescas e passam a ser mais viscerais, mais duras, quase desconfortáveis. O personagem se torna mais pesado, mais imprevisível, e o humor que antes temperava essas cenas praticamente desaparece. Claro, a temática também muda. A história fica mais pesada. Drogas, Cultura Racional, fracassos pessoais e musicais e todo aquele roteiro que já conhecemos das cinebiografias de artistas musicais.
Depois de assistir a Babu Santana novamente no BBB — desta vez protagonizando ataques mesquinhos à colega veterana Ana Paula Renault, além de suas intempéries e explosões frequentes — comecei a olhar de outra forma para sua atuação em Tim Maia. Não pretendo entrar aqui no mérito da discussão sobre a postura misógina do ator, seja com Ana Paula ou, mais recentemente, com a apresentadora Ceci Ribeiro — completamente ignorada por Babu em sua entrevista logo após a eliminação, na madrugada desta quarta-feira. O que interessa aqui é outra coisa: o temperamento explosivo exibido dentro do programa e as semelhanças entre esse comportamento e a forma como ele encarna o cantor no filme.
Talvez seja justamente aí que Tim Maia encontre sua força mais curiosa. Em vez da sensação clássica de um ator desaparecendo dentro do personagem, o que vemos parece mais um encontro entre duas personalidades igualmente intensas. O Tim Maia imprevisível, capaz de oscilar entre o carisma absoluto e a explosão repentina, encontra em Babu Santana um veículo quase natural. Revendo o filme hoje, depois de semanas observando o ator em um reality show, a pergunta que fica é inevitável: até onde vai Tim Maia e onde começa Babu Santana?
Para o bem ou para o mal, fiel ou não, o filme entrega um retrato de Tim Maia. Não há catarse, como na performance triunfante que costuma encerrar cinebiografias musicais. Tim sai do palco pela última vez e encontra a morte. Babu saiu do BBB e, depois do famigerado café da manhã com Ana Maria Braga, parece ter encontrado algo parecido com o vazio. Também não houve catarse ali — houve alívio com sua saída da casa. O retrato de Tim Maia permanece. O de Babu Santana talvez acabe soterrado pelo ruído das próprias polêmicas.



