Flea – Honora (2026)

Flea – Honora (2026)

(Reprodução)

Apesar de eu saber (e também muitos amantes da música) que um dos mais emblemáticos baixistas dos últimos 30, 40 anos também tocava trompete, não esperava nada mais, nada menos que um dos trabalhos mais emblemáticos lançados este ano por ele: Honora.

Flea é um músico que poderia muito bem ter ficado no seu holofote, usufruir dos milhões de dólares anuais que toda a sua ralação lhe trouxe como um dos frontmen do RHCP. Mas um músico de verdade é inquieto, se lança ao desconhecido e ao complexo mundo dos trabalhos solo, completamente apartados da sua banda de origem.

Na realidade, o trompete é sua origem, ainda que poucos pedaços escassos de memória me tragam um Flea 30 anos mais jovem invadindo um show do Nirvana, com o instrumento em riste (sim, foi intencional).

Honora, cuja linda foto do disco (sua sogra mais jovem) faz um retrato completo e inventivo do jazz em sua forma mais pura.

Um dos mais cativantes solos de baixo acústico que pude presenciar nas últimas décadas já se apresenta da maneira mais linda e sonora, em um discurso político e humano. “A Plea” é puro jazz e, ao mesmo tempo, uma evocação a Gil Scott-Heron.

Começar

A participação de Thom Yorke cantando em “Traffic Lights” é abrir mão do protagonismo em prol da unidade do trabalho; saber até onde um grande musicista consegue ir sem sabotar uma estranha e interessante canção, que não ficaria da mesma forma sem o que Yorke consegue trazer.

Flea ensaiou e duvidou de sua própria embocadura e talento ao voltar a estudar com um grande mestre do sopro. Aqui vai outra aula: seja humilde o suficiente para se testar e se lançar ao desconhecido. Jazz não é para qualquer um, é para alguns — e Flea soube se readaptar e criar uma persona totalmente nova. Ele sabia que o free jazz estava lá; só precisava da banda certa (e que banda, que banda!) e de se redirecionar.

“Frailled” é outra canção hipnótica. A bateria eletrônica, em ritmo de escovinha, os instrumentos em uníssono — uma verdadeira aula de como se despir e transformar notas em transe puro. São 10:50 de verdades e beleza sonora.

O disco avança em seu próprio tempo e espaço. Tem o tempo para apreciação e deleite em um jazz mais calcado no bebop, em “Morning Cry”; tem discurso com jazz; “Maggot Brain”, com seu trompete pleno e delicado.

Tem Nick Cave sendo Nick Cave em “Wichita Lineman” e mais faixas de puro luxo.

2026 mal começou e já te amo.

Porque Honora é justamente sobre isso: o amor à música.

10

Honora – Flea

Gravadora: Nonesuch Records

Um belíssimo petardo de quase uma hora, onde o mais importante é a música — e, sim, Flea voltando às origens com seu trompete e jazz!

Luciano Vitor

Luciano Vitor

Formado em Direito, frequentador de shows de bandas e artistas independentes, colaborou em diversos veículos, como Dynamite, Laboratório Pop, Revista Decibélica, Jornal Notícias do Dia, entre outros. Botafoguense moderado, é carioca radicado em Florianópolis há mais de 20 anos.