Nothing – A Short History of Decay (2026)

Nothing – A Short History of Decay (2026)

(Reprodução)

“Só nos tornamos nós mesmos depois de termos esgotado nossas ilusões.”

Entre 1937 e 1949, o filósofo e ensaista romeno Emil Cioran escreveu e reescreveu múltiplas vezes o livro Précis de décomposition, traduzido para o português como Breviário de Decomposição — uma coleção de aforismos feita para desmantelar, sem dó ou piedade, as ilusões humanas, especialmente a fé cega em ideologias, religiões e outras “verdades absolutas”. O problema não são as ideias em si, mas o entusiasmo humano, que transforma qualquer crença em fanatismo cego. Cerca de oitenta anos depois, os americanos da Nothing, ainda capitaneados por Nicky Palermo, emprestam o título em inglês da obra, A Short History of Decay, para seu mais recente lançamento.

Nada mais apropriado para uma banda com uma história tão turbulenta quanto a da Nothing.

Poucas vezes na minha vida lembro de ter sido surpreendido de forma tão brutal quanto na transição entre a primeira faixa, “Never Come Never Morning”, com seu violão, guitarras etéreas e a voz de Palermo atingindo uma doçura inédita na discografia da banda. Subitamente, os últimos versos — cantados de forma quase chorosa, acompanhados apenas pelo violão — dão lugar a uma parede sonora densa e sufocante que engole por completo a delicadeza inicial. Na dobradinha “Cannibal World” e a faixa-título, a banda, que sempre figurou entre os nomes mais interessantes do revival do shoegaze, parece enfim abraçar o gênero por completo — sem abandonar as marcas do passado que a trouxeram até aqui.

O que se segue é um jogo constante entre o peso do shoegaze e a leveza do dreampop, com contrastes bem marcados entre os dois. As etéreas “The Rain Don’t Care” e “Purple Strings” surgem como contraponto direto a “Toothless Coal”, faixa que caberia facilmente em qualquer álbum da Curve. O lado B flutua ainda mais para o etéreo, embora a faixa de encerramento, “Essential Tremors”, comece nessa mesma atmosfera para, aos poucos, desaguar em riffs de guitarra que beiram o grunge.

Mesmo onde o peso domina e a energia é frenética, Palermo suspira. A voz poderia acabar soterrada pela parede de som erguida pela banda, mas, como nos melhores exemplos do gênero, ela se torna apenas mais uma camada da violência sonora que dispara dos nossos fones.

Musicalmente, o disco oscila entre peso e leveza, mas, nas letras, o movimento é outro: um retorno constante a si mesmo. Em faixas como “Never Come Never Morning”, Nicky Palermo revisita a própria juventude não como nostalgia, mas como ruína — “When I was young / Life was easy” dá lugar a um presente em que “beautiful things” se interpõem. Elas desgastam, deformam, corroem. Não há aprendizado redentor aqui — “If there’s one less thing I need / It’s some life lesson” soa menos como rebeldia e mais como exaustão.

O abismo nietzschiano que Palermo e a Nothing encaram não é abstrato — são eles próprios.

À luz de uma trajetória marcada por uma prisão ainda na juventude e por uma agressão que resultou em danos neurológicos duradouros — sem falar na relação perene da banda com o luto —, essas canções ganham outro peso: não como confissão direta, mas como ecos de uma experiência vívida. É como se o disco inteiro orbitasse essa sensação de repetição inevitável — “I’ve been here over and over again” —, transformando o amadurecimento não em evolução, mas em um ciclo de desgaste contínuo e corrosivo, como Sísifo empurrando sua pedra montanha acima.

Se, em Breviário de Decomposição, o resultado é uma visão de mundo profundamente cética e desencantada da existência, escrita de forma fragmentada, entre filosofia e literatura, a Nothing encontra em A Short History of Decay o seu equivalente sonoro. Um disco que não oferece respostas nem redenção, mas se constrói a partir de estilhaços — memórias, murmúrios, ruídos, silêncios — para dar forma a algo mais íntimo e exposto do que qualquer coisa que a banda já fez. Não há promessa de superação, apenas a lenta erosão das ilusões — e a lucidez que resta quando elas já não se sustentam.

Ironicamente, é nessa recusa em transformar a experiência em aprendizado que reside o trabalho mais maduro da banda.

9.6

A Short History of Decay – Nothing

Gravadora: Run For Cover

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Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.