Foi provavelmente através da newsletter da jornalista musical Amanda Cavalcanti que ouvi falar pela primeira vez da YWHW Nailgun. Foi também ela que me disse que as consoantes do primeiro nome se pronunciam algo como “yahweh” – informação também citada na página da banda no Wikipédia. Nos resta imaginar como tal expressão, quase onomatopeica, deve soar no sotaque nova-iorquino de Zack Borzone (vocal), Saguiv Rosenstock (guitarras), Jack Tobias (sintetizadores) e Sam Pickard (bateria), para então termos uma noção de como se fala o nome da banda.
E é nessas brechas linguísticas pouco explicáveis e nada pedagógicas que, mais do que nunca, a YWHW opera com seu novo álbum, Magazine, lançado em julho neste ano. Após o ótimo 45 Pounds, do ano passado, e os também bons EPs No Midwife And I Wingflap e o primeiro-e-homônimo, ambos de 2022, a banda norte-americana agora condensa todas suas influências, pesos, ruídos, grooves, delírios e mágoas nos 11 minutos de seu novo trabalho. Sim: 11 minutos para 10 faixas desconcertantes, que atravessam em altíssima velocidade as regiões do hardcorepunk, no wave, metal alternativo e hip hop experimental para chegar nesse universo semi-descoberto de Magazine.
Se, em alguma medida, a sonoridade da banda dialoga com o punk contemporâneo de coisas como IDLES ou Turnstile, o mesmo diálogo (e talvez com a mesma devida e segura distância) pode ser feito com os trabalhos mais malucos de JPEGMAFIA e Danny Brown. Mas, para o YWHW, qualquer referência é deglutida e regurgitada em um resultado abrupto, ligeiro e cheio de brechas. Mesmo a cultura do hardcore-punk que, desde os anos 80, acumula bandas com músicas minúsculas, é capaz de explicar o que acontece em Magazine. Pois, ao contrário dessa tradição, onde o minimalismo também se aplica nas estruturas e timbres escolhidos para as breves canções, o novo álbum da YWHW Nailgun é cheio de elementos, sonoridades e poéticas que nos surpreendem e, em poucos segundos, nos chacoalham de um lugar para o outro sendo, ao mesmo tempo, sempre vibrante & sempre desconcertante.
Essa brevidade do trabalho me faz colocar os nova-iorquinos numa certa contramão do que acontece no rock contemporâneo latino, onde músicas longas, geralmente ao redor dos 10 minutos (algumas maiores que o próprio álbum aqui resenhado) marcam a sonoridade abrasiva e lisérgica de bandas brasileiras como Nigéria Futebol Clube e Naimaculada; ou as chilenas Hesse Kassel e teodioteodio; e mesmo a mexicana Diles que no me maten, que teve passagem recente pelo Brasil.
Será que nós temos mais a dizer do que eles? Não sei se é o caso. A única coisa certa nessa comparação é que, pelo menos, temos mais o que ouvir. Pois, apesar dos poucos minutos que envolvem Magazine, suas informações são muitas: as estruturas mudam ao redor dos beats circulares que, embora nos coloquem no balanço das canções, são rapidamente cortados para apresentar um nova faixa, com novos ruídos apresentados pela dinâmica originalíssima criada entre as guitarras e sintetizadores, que soam como samples coletados de múltiplos universos, lembrando até a proposta nóia dos produtores de cybercria ou a sonoridade caótica d’Os Fita. Mas, mesmo tendo essa ligação visível com a música eletrônica, tudo é reproduzido de forma orgânica, colocando mais uma camada de estranhamento para o que é apresentado.
Se não bastasse o caos sonoro, as letras da YWHW Nailgun também casam muito bem com o cenário proposto, onde a ferocidade da vida urbana se apresenta em imagens poéticas de “milhares de olhos”, “vida sem peso”, “ondas de sangue”, “cavalos açoitados”, “serpente tão longa quanto uma limusine”, “chuva de mijo” ou mesmo uma canção que clama em querer acreditar em redes de esgoto (?!) e, é claro, a faixa título, que relaciona às revistas com o sagrado sangue de cordeiro bíblico.
Com tamanha expertise em propor sons e ideias que mesclam o peso da contemporaneidade com certa contemplação acerca desses lugares liminares que atravessamos no dia a dia, o novo álbum da YWHW é, ouso dizer, um horizonte a ser observado por bandas que buscam, de forma radical, traduzir nossa vida atual de forma artística.
Gravadora: 4AD
11 minutos para 10 faixas desconcertantes, que atravessam em altíssima velocidade as regiões do hardcorepunk, no wave, metal alternativo e hip hop experimental para chegar nesse universo semi-descoberto.
