Quando a estética fala mais alto que o som

Quando a estética fala mais alto que o som

(Reprodução)

Você pode descobrir um artista pela estética.

Pode gostar da identidade visual, das referências, do jeito como aquela pessoa ou banda se apresenta.

Não existe problema em se interessar primeiro pelo visual.

O problema começa quando é possível acompanhar tudo isso sem nunca chegar à música.

Hoje, uma pessoa pode encontrar uma banda no Instagram, gostar do visual, reconhecer suas referências e até passar a enxergá-la como uma referência dentro de determinada cena sem nunca ter ouvido uma música sequer.

E aí surge uma pergunta:

“Você gosta da banda ou da estética dela?”

As redes sociais mudaram a forma como descobrimos artistas. A imagem é imediata, circula rápido e pode transformar um artista em referência antes mesmo que o público conheça sua obra.

Talvez essa seja uma das contradições mais interessantes do consumo musical hoje: nunca foi tão fácil ouvir música, mas nunca foi tão possível conhecer um artista sem necessariamente escutá-lo.

A estética sempre foi importante na música. Capas de discos, figurinos, fotografias de divulgação, palcos, pôsteres e videoclipes sempre ajudaram a construir a identidade de um artista. Não faz sentido tratar isso como algo superficial ou como uma novidade provocada pelas redes sociais.

A diferença talvez esteja na ordem em que as coisas acontecem.

Antes, muitas vezes você ouvia uma música, gostava dela e, depois, começava a reconhecer aquela estética como parte daquele artista.

Hoje, principalmente nas redes sociais, pode acontecer o contrário: você conhece primeiro a imagem, passa a acompanhar a imagem e talvez a música nunca entre nessa relação.

“Mas o que acontece quando a música deixa de ser indispensável para a existência pública de uma banda?”

O que passa a sustentar essa relação? A imagem? A comunidade? O estilo de vida? A presença nas redes?

A questão também afeta o próprio artista.

Se o que mais circula é a imagem, existe uma pressão para construir e alimentar uma identidade visual cada vez mais forte. A música, que exige tempo e atenção, passa a disputar espaço com aquilo que pode ser compreendido em poucos segundos.

Mesmo uma faixa curta exige que alguém pare para ouvir. Um álbum exige ainda mais tempo. Existe uma diferença entre olhar para um artista e realmente entrar em contato com aquilo que ele produz.

E talvez isso ajude a explicar o protagonismo que a estética ganhou na descoberta musical.

Pyetra Maffessoni

Pyetra Maffessoni

Fotógrafa e produtora cultural com atuação na cena musical independente. Desenvolve projetos voltados à fotografia, comunicação, curadoria e gestão de artistas, com experiência na criação e produção de conteúdos e iniciativas culturais.