Vamos ser sinceros: Interlagos é longe pra cacete.
Todo mundo que já foi a um festival no Autódromo José Carlos Pace conhece o ritual. Encarar a escadaria rumo aos céus na Estação Pinheiros, fazer a baldeação pra Linha 9-Esmeralda — que nunca foi lá aquelas coisas e, depois da privatização, eu sinceramente ainda me surpreendo que ninguém tenha morrido naquela merda —, caminhar sem parar até o Autódromo e passar o dia inteiro em pé, espremido entre filas de cerveja, banheiro e comida, quase sempre sem muito espaço pessoal. Caminhar um pouco mais. E aí a volta consegue ser ainda pior. O trajeto parece dobrar de tamanho quando os joelhos e os pés já estão implorando por misericórdia.
“Mas Alexandre…”, pergunta você, meu leitor fictício que só existe dentro da minha cabeça. “Eu achei que este seria um texto sobre o line-up do Primavera Sound…”
E é. Mas antes de falar mal da escalação mais polêmica da semana passada, eu quero deixar claro o trabalho que dá ir a um festival. Isso pra mim, que moro em São Paulo. Imagino pra você, meu caro leitor imaginário que mora em Florianópolis. Pra você, o comprometimento físico e, principalmente, financeiro, é ainda maior.
Na semana passada eu estava animado com o anúncio das atrações do festival. Estávamos todos ansiosos por ele e ele virou pauta de várias conversas que tive ao longo dos últimos meses, especialmente desde que foi anunciado que o festival voltaria ao Brasil — mais ainda depois do arremedo mal feito que foi o Indigo no ano passado. Minhas expectativas ficaram ainda mais altas quando soube que a produtora Bonus Track, responsável pelo MITA Festival e pelos mega-shows dos Stones e da Lady Gaga em Copacabana, assumiria a organização desta edição.
Leio os nomes. Meio desapontado, meio surpreso. Ligo pra minha filha adolescente, que tinha se animado pra vir a São Paulo ver os já “anunciados” (ahem) Gorillaz e The Strokes.
Pra ela, foi um literal flop. Pra mim? MEH.
A culpa é minha, na verdade. Eu que botei esperança e expectativa demais. Podia ter rolado um My Bloody Valentine? Podia, mas também podia ter rolado um disco novo — e o Kevin Shields parece estar disputando com o George R. R. Martin de Game of Thrones pra ver quem demora mais pra lançar o próximo trabalho. Podia ter sido mais diverso? Talvez. Podia ter rolado Charli XCX, mais nomes de segunda linha de cartaz que chamassem mais atenção que Yung Lean? Com certeza.
A verdade é que todos esses nomes que ouvimos como possíveis eram especulações, desejos e imaginação combinados. Enquanto não há confirmação ou um vazamento de algum jornalista bem informado, todos os line-ups são fictícios, assim como os cartazes fake que insistem em compartilhar como se fossem verdadeiros. Criações da nossa psique, como você, meu caro leitor imaginário. A culpa não é do festival por não ter atendido às nossas expectativas. Talvez as nossas expectativas é que tenham sido altas demais.
Talvez.
Tem uns nomes legais na escalação do festival. Mas voltando ao tópico inicial: tirando os headliners — que já sabíamos de antemão — não tem absolutamente nada ali que me faça arrastar meus joelhos fodidos até Interlagos pra passar o dia inteiro fritando no sol (ou, pior, na chuva e na lama), enquanto pago um salário mínimo pra ver bandas que eu preferia assistir no Cine Joia ou na Audio (ou, em alguns casos, no Sesc Belenzinho — mas isso já é papo pra outro texto). CMAT? Pelo amor de Deus, né?
Festival é legal pra caralho. A gente reclama, a gente sofre, no dia seguinte fala que nunca mais vai em um e assim que aparece ingresso pra vender a gente tá comprando. Eu boto fé que o Primavera Sound vai ser legal pra caralho, mas não pra mim. Talvez seja pra você. Se for, se joga. A vida é feita disso: de escolhas meio irracionais, de pernas cansadas, de bandas que você vê por acaso e acabam virando as melhores lembranças da noite. E também de saber a hora de ficar de fora, sem culpa nenhuma.



