O dia em que finalmente vi a Wilco ao vivo: Wilco no C6 Fest

O dia em que finalmente vi a Wilco ao vivo: Wilco no C6 Fest

(Reprodução)

Vinte anos depois do primeiro play, um show trouxe de volta tudo que a banda significou pra mim.

Há mais de vinte anos, uma pessoa com a qual eu divido aniversário me recomendou ouvir Wilco. Não lembro qual era a música ou o disco, mas fiquei literais meses ouvindo a banda sem parar, completamente apaixonado pelo que eu estava ouvindo. Os anos se passaram e eu fui ouvindo cada vez menos Wilco. Nesse meio-tempo, a banda veio ao Brasil duas vezes e eu, por duas vezes, perdi a oportunidade de vê-los. Mais anos se passaram e a banda virou uma daquelas lembranças nostálgicas de um Alexandre que não existia mais — uma iteração passada que estava aprendendo a tocar violão e que gostava da complexidade escondida por baixo da aparente simplicidade daquelas canções.

Aí eles voltaram ao Brasil, subitamente anunciados no lineup do C6 Fest. Eu ignorei todos os outros nomes. Muitos eu nem conhecia, mas aquele nome de cinco letras gritava na lista. Eu precisava vê-los. Nas duas passagens anteriores, eu havia deixado passar. Naquele momento, parecia que minha vida dependia de estar próximo ao palco e ver Jeff Tweedy pessoalmente. Graças a um amigo que lembra todos os anos do meu aniversário, consegui os ingressos e estava lá, naquele fim de tarde de domingo, espremido entre tantos que, como eu, tinham um carinho enorme pela Wilco.

Quando a banda entrou no palco, eu nem conseguia acreditar. Ver aquelas pessoas que habitaram meus fones por tantos anos, agora ali, em carne e osso, foi como uma visita do Fantasma do Natal Passado. Mas, ao contrário de Jacob Marley, esses fantasmas pareciam estar ali pra me lembrar de um Alexandre de iterações passadas que, apesar de não existir mais fisicamente, ainda vivia dentro de mim. Mais ainda: me lembrar que certas coisas continuam vivas dentro da gente, mesmo depois de tanto tempo.

Jeff Tweedy estava mais velho — e mais gordo. Todos estávamos. Mas ainda com aquele jeito sereno, meio encabulado, como se estivesse pedindo licença pra ocupar o palco. Bastaram as primeiras batidas serenas do violão em “Company In My Back” pra tudo se materializar. A conexão foi instantânea. Enquanto o público — e eu junto — solfejava o lick de “Evicted”, percebi que aquilo não era só um show.

Era um reencontro.

A banda estava impecável, tocando com a maestria de quem conhece cada curva de cada canção. Nels Cline, como sempre, roubava a cena nas guitarras, com sua mistura de precisão e loucura. Pat Sansone alternava entre teclas e cordas com uma elegância que dava coesão ao caos. Na cozinha, Glenn Kotche — o baterista mais inventivo do alt-rock — e o baixista John Stirratt davam sustentação a tudo aquilo. Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que eu não conseguia absorver cada detalhe. A cada virada, um som novo. A cada música, uma memória.

O repertório mesclava faixas recentes e clássicos absolutos — e, mesmo nos momentos mais novos, o público seguia atento, cantando junto. Embasbacado com a recepção calorosa, Jeff perguntou: “por que não moramos aqui?”. Quando “Pot Kettle Black” começou, pulamos todos, mesmo que nossos joelhos não fossem mais os mesmos. O refrão foi cantado em uníssono. Dava pra sentir que aquelas letras faziam parte da vida de muita gente ali, como se fossem capítulos de uma biografia coletiva. Me peguei sorrindo feito adolescente em “Heavy Metal Drummer”. Era como se uma parte adormecida de mim tivesse sido acordada ali, pelo som de uma banda que me ensinou que canção também pode ser abrigo. Mais do que nunca, senti falta da inocência de um jovem sozinho em seu quarto, aprendendo a tocar essas músicas no violão em vez de ler os textos da faculdade.

Mais do que um show, a Wilco me deu um vislumbre do passado. Um reencontro com uma banda que me ajudou a entender o mundo (e a mim mesmo) num tempo em que tudo parecia novo e estranho. A banda saiu do palco e eu saí debaixo da Tenda Metlife com um sorriso de orelha a orelha, acendendo um cigarro e com a sensação de que, mesmo depois de tanto tempo, ainda temos a música na nossa vida. Que nada é mais belo do que a conexão genuína que sentimos com as canções que amamos. Há vínculos que, mesmo postos de lado, continuam lá — esperando o momento certo pra reaparecer, como uma música que toca no rádio e, de repente, faz a gente sentir tudo de novo.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.