Resenha: Os Gringos – The Animal Kingdom (2017)

Resenha: Os Gringos – The Animal Kingdom (2017)

(Reprodução)

Um ambicioso álbum duplo, obra de quatro americanos e um brasileiro residentes em Itajubá (MG), com o apropriado nome de Os Gringos. Essa é a proposta de The Animal Kingdom, segundo álbum do grupo. Dividido em duas partes — Listen to Your Nature e The Question of Freedom —, o disco promete um contraste conceitual, mas, além da descrição no encarte, não há uma distinção muito clara, nem temática nem sonora, entre as duas metades.

Listen to Your Nature começa pra valer na segunda faixa, “Candy Coated Nightmare”. A banda declara amor ao rock clássico, psicodélico e ao blues, mas aqui o que salta aos ouvidos são elementos de post-rock e de bandas instrumentais como Explosions in the Sky e This Will Destroy You. É a faixa mais interessante do disco, e não por acaso a que mais se descola do resto. Os vocais afinadíssimos de João Castilho mantêm a faixa fora do terreno do post. O restante do álbum é muito mais blueseiro do que roqueiro — e nem sempre isso é uma vantagem.

O álbum então oscila entre o genérico e o competente. Há bons momentos aqui e ali — um riff inspirado, um arranjo bem sacado —, mas, como diriam os próprios gringos (ahem), nada que mereça ser escrito pra casa. Produzido e gravado pela própria banda em estúdio próprio, o disco é bem acabado e coeso, mas por vezes soa certinho demais, como se estivesse preso às suas referências. Falta um bocado de molho. O que deveria soar como homenagem acaba soando mais como reverência ao cânone do rock clássico americano dos anos 1960.

The Question of Freedom, o segundo disco, reafirma o ímpeto blueseiro da banda. As faixas são um pouco mais longas, e a influência do rock progressivo aparece com mais força. A jornada culmina na épica “Prometheus”, com mais de dez minutos de duração. Aqui, Os Gringos entregam sua ambição sem vergonha: solos longos, climas variados, um quê de teatralidade que remete a bandas como King Crimson e, principalmente, The Doors. As referências (elas, sempre elas) são claras às faixas que encerram os dois primeiros discos da banda de Jim Morrison.

Não há nada de revolucionário, ou de muito surpreendente, em The Animal Kingdom, mas o disco fascina pela convicção sincera com que é feito. Pode até soar meio chavão às vezes, mas tudo flui de forma natural, sem forçação de barra. Os Gringos parecem acreditar de verdade no que estão fazendo — e isso transparece. Mesmo quando tropeçam, caem rindo e já se levantam. Se não for pela sinceridade, ouça pela proeza técnica dos músicos. E se ainda restar dúvida, dá o play em “Van Gogh Syndrome”.

7.0

The Animal Kingdon – Os Gringos

Gravadora: Monstro Discos

Eu ouviria muito mais a banda de "Prometheus" do que a banda de "Apocalypse Love".

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.